Geral

O evangelho segundo S. Carbono

Foi mesmo um grande sucesso a Cimeira de Paris?

Por que motivo desde 1992 (Rio de Janeiro), aquando da importante Conferencia das Nações Unidas “United Nations Conference on Environment and Development (UNCED)”, também conhecida como Cimeira do Rio, não se deram passos significativos quanto as principais propostas contidas nos documentos então aprovados e que, note-se, não se prendiam apenas com as designadas “alterações climáticas”?

De facto, o processo chamado Convenção sobre o Clima – UNCCC , foi um dos resultados saídos dessa cimeira, e na Declaração do Rio incluíram-se outros importantes aspetos relacionados não apenas com o “clima”, mas com o desenvolvimento e ambiente em geral: Agenda 21, Proteção das florestas, Convenção para a Diversidade Biológica, Convenção para o combate à desertificação.

Contudo, desde que alguns políticos como Al Gore e outros descobriram que a “razão das suas vidas” era a questão das alterações climáticas – no princípio designadas como “aquecimento global” – tudo e quase todos se passaram a focar apenas no “desgraçado CO2” que, note-se, até nem é um poluente!

Porquê?

De onde surgiu e por que subiu à tona este impulso “humanitário global” virado para a salvação mundial?

Gente que não dá combate à fome que grassa em muitas regiões, ao subdesenvolvimento, às guerras (aliás, continuam a propaga-las), ao narcotráfico, ao fabrico e comércio ilegal de armas, aos paraísos fiscais, às neoescravaturas, à corrupção, etc., passou a ser campeã do resgate do mundo das garras carbônicas.

Por que motivo estas causas não merecem tambem, da parte de tantos “paladinos do progresso climático”, igual atenção pública e combate político?

Que interesses empurram para o protagonismo em torno dos mecanismos antropogénicos no clima?

Devido ao maior impacte mediático e dramático que tem o tema? Porque estão em jogo os interesses económicos estabelecidos nos países centrais do capitalismo mundial? Porque à pala do combate climático se alimentam grandes negócios de ‘novo tipo’?

Os países ou regiões mundiais grandes emissores de CO2 – China, EUA, União Europeia, Índia, Rússia, Japão – bem como os países com capitações de emissão mais altas – EUA, Canadá, Austrália, Arábia Saudita, Emiratos Árabes – que conjuntamente são de longe os responsáveis pela maior parte das emissões antropogénicas, são, também, grandes potências político-económicas no quadro contemporâneo. Só que alguns, são-no há um século, e outro emergiram apenas há duas décadas, com destaque para a China, Índia, a Rússia e, até, o Brasil! Será que há interesses europeus e americanos em criar dificuldades ao crescimento destes novos “players” como agora se diz?

A cimeira de Paris não insistiu, aliás, desistiu mesmo de um verdadeiro plano de compromisso mundial quanto aos volumes de emissões antropogénicas toleráveis. Que, aqui entre nós, nunca seria verdadeiramente  viável!

Nesta Cimeira, e na cerimónia encenada há poucos dias, abandonou-se, de facto, o compromisso com metas e ritmos detalhados por país, aprovadas em Quioto em 1997, que não foram em geral cumpridas (recordar o flop dos mercados da designada bolsa do carbono), para agora fixar no horizonte longínquo de 2100 um limiar de elevação de temperatura não superior a mais ou menos 2ºC.

É isto um triunfo?

Ate 2100 vão cerca de oito décadas. Uma vida humana e várias gerações. De concreto irão ser despejados sobre os consumidores e sobre os países emergentes taxas e impostos “ambientais”.

E até lá, cada dirigente político das “democracias instaladas” poderá citar as alterações climáticas como álibi para conduzir suas políticas industriais, energéticas, fiscais, financeiras e ambientais. Mas, atenção, sempre tendo como meta o lucro, o neoliberalismo e o sacrossanto princípio da concorrência, sem esquecer a especulação imobiliária e financeira associada, porque, essas coisa não têm “nada a ver” com o clima! O problema aparecerá sempre como sendo o CO2 e o CH4!

É a cruzada climática baseada no “evangelho do carbono”. O demónio, aqui, é o dioxido que nos ameaça, não com as labaredas infernais, mas com o mar que, estando a subir, nos irá engolir.

Em 2100 os cientistas deverão estar finalmente habilitados (?) para descortinar as causas da eventual subida da temperatura observada (na superfície do mar ou da terra, na baixa ou alta atmosfera) atribuível a esta ou aquela crise vulcânica, ou a uma “crise” solar, ou ao CO2, CH4, e outros gases e partículas de origem antropogénica, da responsabilidade deste e aquele país, indústria ou corporação. 

Mas, os nossos netos, que irão pensar de tudo isto?

Uma coisa é certa: numa revista cor-de-rosa, depositado na mesa de um cabeleireiro onde fui, garante-se que “agora é que o combate climático vai de vento em popa”.

Portanto, estamos garantidos.

Nota: este texto deverá ser lido também como homenagem ao trabalho e pensamento do Rui Namorado Rosa

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