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Uma Paixão segundo S.João Contemporânea

Giotto

Giotto- Fresco na Capela Scrovegni-Pádua

 

No ano 2000, entre as várias comemorações que se realizaram para celebrar o 250º aniversário da morte de J.S. Bach, a Academia Bach de Estugarda, com a direcção artística de Helmuth Rilling, um bem conhecido organista, director de corais, maestro que muito dirigiu e estudou Bach, decidiu encomendar a quatro compositores contemporâneos uma homenagem a J.S. Bach com o tema Paixão.

Os escolhidos foram a russa cazaque Sofia Gubaidulina, o alemão Wolfang Rihm, o argentino Osvaldo Golijov e o chinês Tan Dun. A selecção evidenciava a procura de linguagens e estéticas musicais muito diferenciadas, como se veio a verificar com resultados muito diversos. Rihm optou por escrever uma Paixão de Deus, sem referência a nenhuma de Bach, e construiu uma nova com base em magníficos poemas de Paul Celan.

Gojilov escreveu uma Paixão segundo S. Marcos, o que apontava para a desconhecida Paixão que J.S. Bach terá escrito, mas de que se presume ter  perdido a partitura, o que anunciava igualmente uma distanciação em relação a Bach e a um modelo de Paixão. Escreveu essa Paixão viajando entre diversas culturas sul americanas, numa deriva multicultural muito em voga.

Tan Dun escreve uma Paixão de Água segundo São Mateus miscigenando linguagens antigas, algumas mesmo arcaicas, com linguagens contemporâneas, com o evidente propósito de conferir um traço intemporal ao tema da Paixão.

A audição dessas três composições não é, nem poderia ser consensual. Em nossa opinião, que vale o que vale o de um auditor de música sinfónica, ficam longe dos objectivos perseguidos pelos compositores, independentemente da importância que têm no universo musical nosso contemporâneo, sobretudo Rhim e Tan Dun. Algumas são mesmo bastante desinteressantes.

Sofia Gubaidulina, tem uma opção diferente, aliás em linha com o seu percurso que a faz ser uma das melhores e mais celebradas compositoras da actualidade. Escreve uma Paixão segundo São João. Ela explica que procurou solucionar o problema de contar os sofrimentos de Cristo como um drama que fosse uma representação teatral recorrendo aos textos de S. João, os da Paixão de São João e os do Apocalipse. Procura que a intemporalidade da Paixão seja a intersecção entre a significação religiosa, filosófica e estética. Intemporalidade filosófica e estética como o do tempo perdido que é tempo reencontrado em Proust, entre o fim e o principio num poema dos Quartetos de T.S. Elliot “O tempo presente e o tempo passado / são, talvez, presente no tempo futuro / e o tempo futuro contido no tempo passado”. Por curiosidade anote-se que uns trinta anos antes de T.S.Elliot ter escrito messes versos, um poeta seu desconhecido e também desconhecido de Gubaidulina, Fernando Pessoa, pela voz de Álvaro de Campos tinha colocado quase nos mesmos termos essa questãocanto e canto o presente / e também o passado e o futuro/ porque o presente é todo o passado e todo o futuro.

Questão que Gubaidulina, depois de a questionar, resolve estabelecendo um diálogo entre os textos da Paixão e do Apocalipse, sendo a primeira frase do libreto, No principio era o Verbo ,inscrita na Parte 1- O Verbo também a sua última, na secção final a Parte 11-Os Sete Cálices da Ira, entre as quais se vai desenvolvendo esta Paixão: 2- Jesus Lava os Pés aos seus Discípulos; 3- O Mandamento da Fé; 4-O Mandamento do Amor; 5-Esperança; 6-Liturgia dos Céus; 7-Condenação, Traição, Difamação, Flagelação; 8-O Caminho do Gólgota; 9-Uma Mulher vestida de Sol; 10-Jesus Sepultado.

Sofia Gubaidulina constrói esta Paixão utilizando o texto da Paixão de São João para colocar questões que são respondidas por textos do Apocalipse que funcionam como uma reacção aoq que é descrito. As onze partes já referidas dividem-se em dois grandes grupos. De 1  a 7 descrevem-se os acontecimentos que preparam o acontecimento central da paixão, 8 a 11. Uma estrutura que tem semelhanças com processos descritivos dos últimos dias da vida de Cristo até à morte e ressurreição como nos frescos de Giotto, na capela Scrovegni em Pádua, Cimabue na basílica de São Francisco em Assis, Piero de la Francesca na capela de São Francisco em Arezzo ou  Miguel Angelo na capela Sistina em Roma. É uma obra sem pausas e sem personagens pelo que o coro, o Coro de Camera se São Petersburgo (dir. Nikolai Kornev) e do Teatro Mariinsky (dir. Andrei Petrenko) e os quatro solistas, a soprano Natalia Korneva, o tenor Victor Lutsiuk, o barítono Fedor Mozhaev e o baixo Genady Bezzubenkov, são leitores dos textos de São João. As intervenções instrumentais da Orquestra do Teatro Mariinsky de São Petersburgo dirigidos por Valery Gergiev, estabelecem uma relação entre instrumentos e vozes que sublinham o fundo da liturgia ortodoxa que atravessa esta obra sinfónica, com rigor, mas sem se restringir ao seu cânone que exclui liminarmente qualquer som instrumental e só admite a voz e o som dos sinos. essa era a outra questão que a compositora tinha para resolver e com essa opção encontrou uma solução que se entronca com as anteriores , as estéticas e filosóficas.

Na gravação que podem ouvir, nos primeiros quatro minutos a própria Sofia Gubaidulina fala desta sua obra notável.

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One thought on “Uma Paixão segundo S.João Contemporânea

  1. F. Crabtree diz:

    Em Janeiro 2007 em Londres, passei um fim de semana no Barbican Hall que, conjuntamente com a BBC fez uma homenagem a Gubaidolina, com recitais, palestras, etc. A altura falamos longamente ao telefone e apontaste-me muita coisa que eu desconhecia. Obrigada por me recordares Gubaidolina. Vou ouvir o CD que comprei na altura e os que me enviaste.

    Boa Pascoa

    F. Crabtree

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