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Amigalhaços

CCB

 

O ministro João Soares procura exibir um estilo truculento que é uma forma, pensa ele, de se afirmar aliás num estilo corrente no Largo do Rato. Tiradas em tom operático não faltam. A mim ninguém me cala! A mim ninguém me intimida! A mim ninguém dá lições de democracia! A mim ninguém…voz grossa de cantantes com afinações diversas é o que abunda nos alcatifados corredores cor de rosa.

Na audição Parlamentar sobre cultura fez uma afirmação dura em relação à nomeação do actual Director Geral das Artes declarando que ele nunca nomearia um amigalhaço a poucas horas de terminar funções. Atitude nobre, digna de registo, nem sempre com seguidores tanto no seu partido como nos partidos agora na oposição. Merece aplauso.

Só que dias depois, as mãos ainda quentes das palmas, lá vai um amigalhaço para a direcção do Centro Cultural de Belém. A diferença é de substância. Não se nomeia na porta de saída do governo, nomeia-se na porta de entrada. Aos amigalhaços deve-se garantir da melhor maneira possível o futuro.

Claro que havia todas as razões para demitir e substituir António Lamas na direcção do CCB. Curiosamente a referida por Gabriela Canavilhas na audição parlamentar ao Ministro da Cultura é de todas a menos relevante. A participação ou a ausência da Câmara de Lisboa no projecto do Distrito Belém-Ajuda (distrito porque soa mais modernaço, ressoa ao anglo-saxónico district) é indiferente ao teor de um projecto marcadamente mercantilista, em linha com o que o mesmo António Lamas tinha posto em prática no Parques de Sintra-Monte da Lua. Mais grave no eixo Belém-Ajuda por tender a torna-lo um feudo no todo do Património Cultural Nacional. A agravante era virar as costas à autarquia lisboeta. A questão nuclear é o do centralismo implícito, no mercantilismo explícito, no total autismo em relação a uma Política Nacional do Património. participasse ou não participasse no projecto a Câmara de Lisboa. Era completamente inaceitável no contexto de uma política patrimonial nacional, como referimos em vésperas de António Lamas ser nomeado para o CCB, por ser bem conhecido o projecto e objectivos Estando o projecto em rodagem, a política cultural que o antecipava e que estava a ser prática corrente no Centro Cultural de Belém era a demonstração cabal do descalabro que se anunciava. Transpirava ao mercantilismo mais medíocre por todos os interstícios com efeitos devastadores não só na programação, mas também nas estruturas do CCB.

Era evidente que o Ministro da Cultura tinha que intervir e que a posição de António Lamas era insustentável. A sequência é que em nada abona João Soares. A ausência de qualquer enunciado de linhas mestras, de estratégia política para o sector cultural, que há mais de uma década tem sido maltratado, tanto pelos governos PS, com Ministros da Cultura, como do PSD-CDS com uma Secretaria de Estado quase irrelevante, continuava. Paulatinamente as estruturas, boas, sofríveis ou más, tem sido desmanteladas até aos escombros actuais. Sobre essa situação gravíssima nada de importante é dito ou feito enquanto se multiplicam declarações sobre Vieiras da Silva, Mirós e mais umas tantas tarantelas, sem tocar uma única questão de fundo. São muitas e gravíssimas na sequência dos Prace, Premac e eteceteras, que cercam e assaltam um Ministério, onde se reformularam estruturas sem qualquer racionalidade e sem outro objectivo que não seja o de reduzir custos. O que se vai acumulando é a falta de meios humanos e materiais e uma crescente inoperância.

Na ausência de ideias, multiplicam-se declarações e passa-se das declarações aos actos. O CCB está agora no olho do furacão. Força-se a saída de António Lamas, nem sempre de forma desenxovalhada, apesar de toda a lógica e razão que assistem ao seu afastamento, faz-se entrar em cena Elísio Summavielle, alguém que tem por máximo currículo ser amigalhaço dos tempos da Câmara de Lisboa.  Um amigalhaço todo o terreno, Técnico quase ignoto do IPPC, saltou para a autarquia lisboeta de onde transitou para vice-presidente da DGEMN, onde estacionou até ir para o Ministério da Cultura como assessor de Isabel Pires de Lima. Ficou imparável. Foi nomeado presidente do IPPAR onde além de seguir uma política errática em que se perderam centenas de milhares de euros de fundos comunitários, desmantelou parte da estrutura existente. De galho em galho, foi para presidente do IGESPAR, cargo que exerceu de forma pouco pacífica, até ser nomeado Secretário de Estado da Cultura da Ministra Gabriela Canavilhas. Teve, entre outras ideias brilhantes, a de querer transferir o Museu Nacional de Arqueologia para o edifício da Cordoaria Nacional. Para haver alguma tranquilidade no universo cultural nacional, essas e outras ideias Summavielle sumiram-se por sensatos buracos negros. Caído o governo Sócrates, Elísio Summavielle não naufraga. Pelo contrário, aproveitando o desprezo pela cultura e a fúria concentradora do governo PSD-CDS foi nomeado Director Geral do Património, pelo secretário de estado Francisco José Viegas. Ficava à frente de uma super direcção geral que concentrava várias direcções e outras estruturas. Uma conclusão a retirar. Não há governo, do que era conhecido por arco da governação, que dispense um Summavielle, nem o Summavielle encontra qualquer diferença entre as políticas culturais entre esses governos. É um faz tudo de serviço de quem o quiser.

Agora aí o temos Presidente do Centro Cultural de Belém. Para fazer jus ao perfil traçado pelo ministro Soares “alguém com experiência, bastante mais jovem, com provas dadas, nomeadamente ao nível de responsabilidades públicas”, as provas são abundantes, não se pode esquecer os trabalhos que o jovem Elísio Summavielle realizou nos vários governos PS, PSD, CDS e a inauguração da Praça de Touros de Vinhais, espera-se que esteja por lá uma marmórea placa assinalando tão relevante acto.

Desde que foi nomeado várias foram as entrevistas que o jovem Elísio se apressou a dar empurrando uma carroça de lugares comuns. A mais sumarenta foi “acho que é possível puxar pela juventude e ganhar público para a cultura, é essa a missão do CCB, é essa a missão da Fundação CCB”. Se não fosse o jovem Elísio estaríamos nós e La Palisse sem saber que o CCB tem uma missão cultural. Deveria ter acrescentado uma outra sua máxima que aprofunda o pensamento do ex-ministro José António Pinto Ribeiro, o tal que ia fazer mais com menos. Summavielle vai mais longe, “é possível fazer omeletes com pouquíssimos ovos”. Temos homem! Com um ovo de codorniz vai fazer uma omelete digna de entrar no Guiness. Ficamos à espera.

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