Artes, Elena Ferrante, Geral, Literatura

Um livro de vez em quando

Elena ferrante

Anatomias da Vida Real

Ninguém sabe quem é Elena Ferrante. Em entrevistas escritas revelou que nasceu em Nápoles, viveu fora de Itália, agora não se sabe onde, que fez Estudos Clássicos, traduz, com outro nome evidentemente, é mãe, sem se ficar a saber de quantos filhos nem o seu sexo. Esse denso mistério torna Elena Ferrante, na mais desconhecida de todos os escritores nossos contemporâneos mais conhecidos, até porque alguns dos seus romances já foram transpostos para o cinema o que amplifica sempre a obra literária.

Crónicas do Mal de Amor, julgo ser o seu primeiro livro traduzido para português, antes de uma extraordinária tetralogia sob o título geral A Amiga Genial, recentemente editado, falta o último livro.

São três as crónicas que se albergam neste livro. Todas seguem um princípio que é o norte da escrita de Ferrante, como escreveu numa das suas raras entrevistas: gosto de escrever histórias em que a escrita é clara, honesta e em que os factos, os factos da vida normal prendem extraordinariamente o leitor. Ferrante tem a particular qualidade de, com uma escrita despojada, de uma enorme clareza e aparentemente simples, descrever as situações quotidianas dos seus personagens desesperados pela opacidade em que se envolvem julgando estar debaixo da luz, caminhando em curvas labirínticas quando julgam ir em linha quase recta. Os personagens de Ferrante acabam por estar sempre a viver em estado de emergência, no fio da navalha da coerência, seja lá o que isso for, para conseguir sobreviver à vida que é sempre um quebra-cabeças, um puzzle em que faltam sempre peças ou em que mesmo que se encontrem todas as peças e o puzzle pareça acabado, o que se acaba por descobrir é a sua incompletude.

Adquire assim a escrita clara e honesta de Ferrante uma radicalidade que vai da origem das situações até à sua conclusão, ainda mais visível quando os seus narradores são femininos, falam dos filhos e estes da maternidade. Um bisturi a cortar sem complacências as vidas ditas normais.

(texto publicado no Guia de Eventos de Setúbal, Janeiro/Fevereiro)

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