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Quem ganhou as eleições?

 

TVQuem ganhou estas eleições presidenciais? A televisão!!! Três candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Tino de Rans são, desigualmente e de modos diversos, produtos da comunicação social, com a televisão a ocupar um lugar central. Comunicação social, com a televisão na linha da frente, que é a ferramenta importante da construção ideológica da realidade que molda e inquina o pensamento.

É a situação actual que vivemos, que se iniciou nos anos 60, anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do Estado se começa a alterar substancialmente passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada, o que paradoxalmente é desmentido quando a situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, conhece um agravamento. Que teve em Maio 68 o seu momento fundamental. Uma situação pós-revolucionária que incorpora as tendências positivas do desenvolvimento capitalista que seria superado pela organização autogestionária das forças produtivas sem alterar a relações de produção. Uma revolução sem revolução nem revolucionários. Fábrica de provocações frustres que, na sua forma mais radical, procura assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Situação complexa e contraditória onde o Estado nação foi progressivamente transferindo alguns dos seus poderes fundamentais, como o poder de declarar guerra ou de cunhar moeda, a perca de centralidade e capacidade de comandar as esferas económicas, políticas e culturais. Em que se alarga a superfície global onde se vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. Hoje miséria e riqueza extremas tocam-se com geografias alteradas. Situações que ainda há cinquenta anos eram do 3º mundo existem no 1º Mundo, e em áreas qualificadas do 3º Mundo surgem imagens e poderes do 1º Mundo. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista. Uma época nova que se começa a ser mais nit a partir dos anos 70 com o fim da equivalência do dólar – ouro, a primeira grande crise do petróleo, a definição da paz nuclear. Quando se começa a reconhecer que é difícil ou mesmo impossível garantir o desenvolvimento capitalista com os instrumentos de regulação soberanos internos, dentro dos espaços – nação. Instrumentos de regulação económica como o Banco Mundial ou o FMI, que eram projecções da potência norte-americana, adquirem um carácter supranacional de regulação do desenvolvimento mundial. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo. Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em nome da racionalização e da modernização da produção, está-se a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica que se impõe com violência crescente e multiforme. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento e do lucro. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e a dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística que atravessa fronteiras.

Com extrema agudeza Mário Perniola avalia a situação actual “as imagens ficam dotadas de fortíssimo impacto emocional, interagem com as da moda, do cinema, da televisão, da internet, do grafismo, da publicidade do design, dando lugar a um imaginário social caracterizado pela provocação. A procura de novidade e do efeito, perseguida por si-próprias, implica também uma rápida usura e obsolescência das imagens, que devem ser continuamente substituídas por outras dotadas de maior força de impacto ou características capazes de despertar a atenção.”

É a categoria espectáculo, ao serviço do pensamento dominante do capitalismo no seu estado terminal, anunciada por Guy DeBord e os situacionistas, “em que o espectáculo é a parte principal do tempo vivido no exterior da produção” (Guy Debord). Quer dizer, na vida das sociedades contemporâneas, de toda a vida das sociedades contemporâneas, as relações de produção e a luta de classes daí decorrente, está subordinada às relações de sedução, numa sociedade aprisionada pelo simulacro e a simulação. O objectivo é transformar de forma sólida, o real em representação falsa, em generalizar a alienação. O espectáculo é “a nova do engano (…) a impostura da satisfação (…) a materialidade da ideologia” (idem) a promover a apatia das consciências, a generalização da mistificação, a operacionalidade da indiferença.

As sociedades contemporâneas estão contaminadas pela vertigem da informação que distorce a realidade e molda as opiniões, que mede a democracia pela diversidade dos produtos que se alinham nas prateleiras das montras reais e fictícias. Confluem essas imaterialidades e essas materialidades para criar a aparência de que se privilegia a diferença e, até pelo excesso de oferta, que se incentivam programas e pensamentos independentes quando de facto se constrói um sistema totalitário e dirigista. “A omnipresença mediática faz dos indivíduos seres passivos, despojados e manipulados” (idem) e procura-se reduzir o mundo a um reality show, em que o individuo perdeu a sua individualidade em favor de uma imagem que compõe em função das cameras que o estão a filmar segundo estratégias que se traça para ganhar ao adversário.

A arma maior é a sedução e o mundo político actual usa-a à velocidade da luz. O marketing político programado e descarado, não explica tudo nem esgota o que estará sempre além dele, mas é o buraco negro que vai engolindo e pervertendo as democracias e alimentando vorazmente a política espectáculo, pauperizando o debate de ideias até as reduzir, se possível, aos sound bites. A outra face dessa medalha é a personalização da política que veicula o narcisismo dos políticos. A semente foi lançada nos EUA, em que o narcisismo se tornou num dos temas centrais da vida americana, leia-se a Tirania da Individualidade de Richard Sennett e que tem a sua raiz no star-system cinematográfico. Narcisos à medida e por medida das sociedades estranguladas pela comunicação social, com a televisão em destaque.

Parece um retrato catastrófico, um labirinto a que ninguém escapará ao Minotauro. Não será ao verificar que as massas populares, o público desse espectáculo, não é uniformemente passivo nem ingénuo. É um quadro geral que se tem agravado, que deve ser bem analisado e medido para que as lutas políticas tenham sucesso e se reflictam na áspera luta ideológica que, em todos os azimutes, tem que ser travada.

Estas eleições presidenciais são paradigmáticas. Toda a campanha eleitoral e a imagem que dela se espelhou nos media, os resultados eleitorais são o termómetro dessa realidade em que a sombra da indiferença, vejam-se os números da abstenção, alastra perigosamente. A televisão, sobretudo a televisão foi o grande vencedor. Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Vitorino Silva o Tino de Rans, são por vias muito diferentes que vão da intervenção política e da sua presença continuada por critérios jornalísticos e editoriais com alvos bem definidos aos programas dos gouchas, júlias, gabrieis e teresas guilhermes, todos eles concorrentes para a edificação de um imaginário, a tal realidade que não é real, mas uma construção ideológica e a visibilidade dos personagens dentro desse imaginário. Os outros candidatos, vivendo em satélites, com órbitas mais próximas ou mais distantes desse universo e independentemente da sua qualidade e da justeza das suas ideias, tiveram que fazer prova da sua existência.

O discurso do vencedor e toda a sua campanha são exemplares, sempre em linha com uma imagem elaborada em dezenas de anos em que polvilhou de açúcar e canela, vaselinou as políticas neoliberais que são o palco do seu pensamento político. Proclama, com o hino nacional em som de fundo, a pacificação de plástico do radicalismo político, à esquerda e à direita, para que se mude a forma para não mudar nada ou nada de substantivo. Um Leopardo à escala portuguesa que nem aspira a ser lince da Malcata.

A luta vai continuar, a linha de horizonte não se enxerga, .as armas são extremamente desiguais o que torna mais urgente e necessária a análise destas eleições e dos resultados eleitorais. É a grande batalha contra um estado de coisas que quer impor a ideia de que não há alternativa e que nem é possível sequer pensar que é possível pensar uma sociedade outra. Uma ideologia que, quando não tem necessidade de recorrer à força, abraça com um abraço de urso prsa obrigar a vestir um delicado, sedutor e colorido fato, sempre actualizado pelas últimas tendências da moda, que é de facto um colete de forças que destrói as grandes finalidades históricas e a transformação da vida e da humanidade.

 

 

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8 thoughts on “Quem ganhou as eleições?

  1. Rosalindo Silva diz:

    O PCP teve, com Edgar Silva, o pior resultado de sempre em presidenciais. O resultado é escasso, acima de tudo, quando se compara com a excelente prestação da candidata do Bloco de Esquerda. O demérito pode ser atribuído ao candidato, que ficou aquém de captar metade do eleitorado da CDU nas legislativas, mas não pode deixar de ser atribuído ao discurso de protesto que a campanha escolheu, com o PCP a sublinhar os seus aspectos identitários e a demarcar-se de tudo e todos (nomeadamente do governo PS) em vez de se associar à possibilidade de construção de uma política comum de esquerda. O medo de se deixar confundir com os outros teve como recompensa um castigo eleitoral.

  2. Jorge diz:

    Mesmo sem discorrer muito sobre um certo parafraseado que tem tanto de intelectualmente arrogante como de completo vazio, poderei dizer que, neste texto, poderíamos substituir o primeiro e e o antepenúltimo parágrafo pelo problema das “fraldas descartáveis no processo do aquecimento global” e tudo continuaria a fazer “sentido”. É um daqueles textos que serve para tudo.
    Mas, além de não acrescentar uma única linha que permita “solucionar” o problema que aqui tenta colocar, faltou-lhe o argumento central para resolver o que se propõe “explicar”: Quem ganhou as eleições?. Para responder a isso é incontornável fazer igual exercício sobre quem as perdeu e encontrar as causas internas sem que se fique apenas pelos fantasmas externos dessa mesma derrota.
    Sei que dará muito jeito ao argumento (mais desculpa que argumento) incluir na sua tese todos os “vencedores”…. mas fica por explicar o facto de não existir qualquer critério sério que lhe permita encaixar a Marisa Matias no perfil ou, a encaixar-se, deixar de fora Edgar Silva.
    Nenhuma dúvida sobre o papel da Comunicação social e o uso dessa mediatização por parte do candidato Rebelo de Sousa ou Vitorino Silva…. já Marisa… só lá está porque também foi uma “vencedora” e se lá não constasse a explicação só poderia ser outra….
    … E lá se ía o argumento!

    • Manuel Augusto Araujo diz:

      Claro que está longe de ter percebido a preocupação central que atravessa e motivou o texto. Independentemente das derrotas ou das vitórias eleitorais, que são importantes mas não resolvem a questão de fundo que está subjacente ao seu comentário e o contamina. Mesmo que a esquerda tivesse obtido uma vitória nestas eleições o que, repito seria importante, na situação actual a ideologia de direita está triunfante. E a esquerda deve perceber isso e perceber que essa vitória tem fundas repercussões futuras. O lado positivo é ter a importância de recolocar a questão de que de facto existem diferenças entre esquerda e direita e que há esquerdas e direitas, o que tem sido negado com contumácia pela direita e mesmo por alguma esquerda. As vitórias e as derrotas políticas da esquerda não devem ocultar essa vitória ideológica, como algumas esquerdas pretendem fazer acreditar com inquietante miopia vitimada por triunfalismos. O seu comentário vai por essa encosta abaixo. Há que distinguir vitórias e derrotas políticas de vitórias e derrotas ideológicas. Provavelmente para si são as tais fraldas descartáveis. Não são e os mais estruturados e lúcidos elementos do centro direita percebem-no. Por maioria de razão toda a esquerda o deve perceber. Infelizmente não é isso que acontece.
      Excluir a Marisa? Porquê? É ter um arguelho nos olhos e nos ouvidos com que se lê, ouve e vê a comunicação social. Basta fazer uma estatística simples sem sequer fazer uma análise dos conteúdos. Não é de agora. É desde que o Bloco de Esquerda surgiu. Muito discuti isso com o Miguel Portas que considerava isso essencial e criticava, até com alguns argumentos razoáveis mas quanto a mim insuficientes e alguns pouco aceitáveis, os impactos das estratégias de comunicação do BE e do PCP e as suas consequências, o que acaba por iludir uma clara e continuada discriminação do PCP.
      Quanto à adjectivação que usa sobre os argumentos do *post” só me provocam um salutar riso! A ignorância e a insustentável leveza do argumentário não faz o meu género. O que é lamentável, até amgustiante, é você não perceber que mesmo que a esquerda tivesse vencido estas eleições, obrigando a uma segunda volta e confirmasse essa vitória na segunda volta, o texto seria praticamente o mesmo. Mais uma demonstração que a direita é vencedora, por enquanto, da batalha ideológica.

  3. e soares diz:

    Excelente texto. Há países com presidentes donos de clubes de futebol e artistas contadores de larachas na tv. Os donos da comunicação social-lixo trabalham afincadamente para isso por todo o mundo, embora na terra ianqui as coisas sejam mais controladas: os presidentes subjugam-se na recolha prévia de fundos, isto é, chega a presidente quem os milionários querem em eleições que são um espectáculo deprimente.

  4. josé almeida diz:

    é tão bonito ler o azedume de um comunista depois de uma derrota (derrotíssima) eleitoral. um abraço caro augusto e, claro, os meus pêsames pelo fraco resultado do edgar

    • Manuel Augusto Araujo diz:

      José Almeida só publico o seu comentário para que sofra vergonha pública! A sua estupidez é excessiva, claro que tem lugar garantido no reino dos céus, junto dos outros pobres de espírito. É evidente que não leu o0 “post”, nem isso lhe seria exigido. Um parvo será sempre um parvo e o tempo nada altera ao assunto como o Georges Brassens bem cantou. Não tenho, ao comtrário de você, uma concepção futebolistica tanto da ideologia como da política. Uma derrota política não é uma derrota ideológica e a ideologia dominante, mesmo que fosse conjunturalmente derrotada politicamente, não significa que fosse derrotada e que não continue a ser dominante.Isso você não percebe nem conseguirá perceber. Azar ou não azar seu daí o seu comentário que é semelhante e tem a mesma raiz dos comentários que se plantam na A Bola, O Record, O Jogo. Uma circunstÂncia intransponível de quem aparentemente tem uma cabeça semelhante aos outros mas na realidade tem uma espessura óssea que reduz a massa cinzenta a uma pequena noz. Se conseguisse ler o teor de todo o “post# perceberia sobre o que quiz refletir que está muito para lá dos resultados eleitorais. Provavelmente não o leu na sua totalidade. Seria um esforço excessivo para quem tem vistas tão curtas e se masturba tristemente com os resultados de que em quem votou. A dimensão da situação actual ultrapassa-o e nunca a perceberá. Não perco nem perderei mais tempo consigo. Fica o seu comentário aprovado, por esta vez, para vergonha sua. Coisa que naõ deve ter nem sequer entender.

      • Paulo Rato diz:

        Rigoroso o artigo. Adequada a resposta, sem a hipocrisia da “boa-educação”, que impede muita gente de chamar os cornúpeto pelos nomes. Sim, infelizmente a estupidez convive muitíssimo bem com o “pensamento dominante” e há que lhe responder com eficácia, coisa que não vejo acontecer, nos “media”, sobretudo na TV, quando, toldados por ideologias básicas e mal digeridas, alguns imbecis entronizados em cargos políticos, partidários ou não, e lugares de “comentação” disparam asneira que ferve e o seu oponente se fica pelo retomar da “razão”, em vez de os desmascarar…

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