Lei de Murphy, saúde

IDA AO DENTISTA ou as minhas aventuras na saúde

DentistaIr ao dentista é desagradável. Porque se perde imenso tempo, fazem-nos sabe-se lá o quê dentro da boca e o que temos como certo em cada visita é uma conta gorda no final e a necessidade de marcar nova consulta, porque há sempre casos urgentes nos molares superiores, onde a nossa vista não alcança.

Para que o tempo flua mais rapidamente, há anos que defendo a instalação de ecrãs no tecto do consultório, que poderiam passar videoclipes dos Modern Talking, filmes do John Wayne ou imagens surpreendentes que facilitassem o imperativo de manter os maxilares bem abertos. Mas logo que me deito constacto que apenas se mantêm as lâmpadas alogénias, que ferem os olhos e têm como único efeito servir de lembrete para a marcação de consulta de oftalmologia.

No gabinete do dentista o tempo assume um compasso africano e embora a consulta dure apenas meia hora, parece-nos que demorou a tarde inteira. O desconforto ganha força durante a intervenção porque vai crescendo uma tensão na coluna, sempre à espera daquele momento em que a lima nos pica no final do canal provocando uma dor aguda, ao que o dentista questiona “Doeu” e faz uma pausa de dois segundos antes de prosseguir, como se isso resolvesse o problema.

Logo que inicia a intervenção são-nos pendurados uma parafernália de instrumentos na boca. Um que faz pi, outro que aspira e mais alguns que não faço ideia para que sirvam. Às vezes desconfio que o dentista me pendura um cabide com o seu sobretudo na boca. Em seguida transforma-nos o peito num estaleiro, onde deposita ferramentas e prepara argamassas. Mas a ida ao dentista é igualmente um exercício humilhante quando nos indica para bochechar a boca e os lábios estão de tal modo anestesiados que só conseguimos babar. Com esta imagem sempre presente, a primeira coisa que faço é segurar no guardanapo. Mas o que mais me incomoda é a obsessão dos dentistas pelas radiografias. Para tudo tiram RX. Põem-nos a segurar na chapa e saem de fininho para fugir às radiações. Depois olham, à distância, para a imagem no computador e continuam os afazeres sem dizer palavra. Fico sempre sem saber o resultado e saio sentindo-me como se tivesse passado por Chernobyl.

Há dias fui ao dentista. Após breves minutos a passar os olhos pela revista Hola de Fevereiro de 1968, que anunciava o nascimento de Filipe de Borbon, fui chamado. Era a terceira sessão de uma desvitalização. No final tentei perguntar ao médico se três sessões para uma desvitalização são por uma questão clínica ou uma política de incentivos à economia local, mas como estava anestesiado, tudo o que consegui foi babar-me. Valeu-me ainda ter o guardanapo.

Todo o ritual da consulta foi, invariavelmente, o atrás descrito, mas com uma nuance. Após cerca de 15 minutos de intensa brocagem, e quando me preparava para perguntar ao dentista se tinha encontrado petróleo, o silêncio instalado permitiu-me distinguir claramente a música “Lady in Red” no som ambiente. Ocorreu-me a Lei de Murphy “se alguma coisa pode correr mal, então é certo que correrá mal” e pensei isto bateu no fundo. Engano meu. A assistente, embalada pelo som, quase me aspira as amígdalas, ao mesmo tempo que inicia um empenhado dueto com o Chris de Burgh. De imediato veio-me à memória a Lei de Clark “Murphy era optimista”.

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2 thoughts on “IDA AO DENTISTA ou as minhas aventuras na saúde

  1. Nuno, para cúmulo da loucura, resta dizer que, ainda assim, podes considerar-te um privilegiado por ir ao dentista. Um verdadeiro luxo burguês num país onde a saúde oral nunca pareceu fazer parte das preocupações do sns. Pelos preços praticados aquilo é escultura e não medicina.

    • Nuno Marques diz:

      Ainda não tinha olhado pela perspectiva artística. Às vezes escapam-me certas dinâmicas da arte contemporânea.
      Genericamente refere-se a desvalorização da saúde oral, mas a razão é justamente o custo que acarreta, porque, como dizes, está à margem, vá-se lá entender porquê, do serviço nacional de saúde.
      Também estou convencido que viver numa zona costeira acelera a detioração dos dentes, por causa da salitre;)

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