Aragon, Artes, Barbara, Bartolomeu Cid dos Santos, Catherine Sauvage, Cultura, Françoise Hardy, Georges Brassens, Geral, Marc Ogeret, música

Não há amor feliz

Hoje é dia de solstício que inicia o Inverno. Um tempo de paisagens frias e vazias, tempo desolação que muito tem sido celebrado em poesia e na música. O mais óbvio é a memória do Winterreise/Viagem de Inverno de Schubert, viagem mais solitária de todas as viagens que percorre vinte e quatro canções onde os sonhos fenecem, as notícias ampliam a amargura e sepultam qualquer esperança. As interpretações desse ciclo de canções sobre poemas de Wilhelm Muller, são inúmeras e excelentes como as de Peter Schreier/ Sviastoslav Richter, Dieter Fisher-Dieskau/ Jorg Demus, Mathias Goerne/ Alfred Brendel, Hans Hotter/ Gerald Moore. Bartolomeu Cid dos Santos, artista maior, homem de enorme cultura, grande amante da música, não podia ficar indiferente ao Winterreise e fez 24 extraordinárias gravuras, uma por cada canção. Um dia alguém cantará a Viagem de Inverno tendo por fundo essas obras de arte, uma celebração das artes.

Mas para assinalar este primeiro dia de Inverno, para o assinalar aceitando que a desolação é a sua marca maior fomos ao encontro de Aragon e de um seu poema que, de certo modo, é invernal, Il n’y a pas d’Amours Heureux. Georges Brassens, esse trovador nosso contemporâneo escreveu e cantou-o como só ele o sabia fazer e quando os textos das canções tinham um sentido e um valor que o tempo tem corroído.

Depois muitos outros cantaram essa bela canção. Traduzir é muito complexo, ainda mais traduzir poemas. Com alguma audácia e não sendo poeta, longe disso, atrevi-me a escrever uma tradução muito livre do poema de Aragon, com a única pretensão de não trair o poeta, sem pretender “escrever” um poema o que só grandes poeras o poderiam fazer.

Aqui ficam registos de vários cantores a interpretar o poema de Aragon com música de Brassens

 

 Nada é definitivo na vida de um homem

Nem a sua força nem a sua fragilidade nem o seu coração

Quando acredita abrir os braços num abraço

A sombra é a de uma cruz

Quando acredita agarrar a felicidade descobre uma ferida

A vida é um estranho e doloroso divórcio

 

Não há amor feliz

 

A  vida é um soldado sem armas

Fardado para outros destinos

De pouco serve acordar cedo

Quando ao fim da tarde se é assaltado pelas incertezas

E dizer as palavras Minha Vida para calar as lágrimas

 

Não há amor feliz

 

Meu belo amor meu querido amor minha tristeza

Estás dentro de mim como um pássaro ferido

Quem nos vê passar nada sabe

Comigo repetem essas palavras que gravo

 E morrem de súbito no teu olhar profundo

 

Não há amor feliz

 

É tarde demais para aprender a viver

Os nossos corações unidos choram noite dentro

Quantos desgostos ultrapassámos para conquistar um arrebatamento

Quantos infortúnios experimentámos para escrever esta pequena canção

Quantos lamentos trocámos para arrancar estes sons de uma guitarra

 

Não há amor feliz

 

Não há amor sem dor

Não há amor que não morra

Não há amor que não seque

Não há amor maior que o teu amor pela pátria

Não há amor que não viva entre lágrimas

      Não há amor feliz

     Mas é esse o nosso amor o amor de nós dois

 

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2 thoughts on “Não há amor feliz

  1. F. Crabtree diz:

    Boa Noite

    Neste solesticio mando-te um abraco. Como calculas a “Viagem de Inverno” toca-me de maneira especial. Estive a ouvir e comparar as varias versoes “Nao ha amor feliz”. Dei o meu voto, algumas interpretacoes tocaram-me mais que outras. Ha uma rapariga da minha idade (exactamente) com quem embirro desde o meu tempo de estudante e a quem chamavamos (talvez injustamente!!!) a Chica Ardida. Adivinhas quem e? Pois que em vozes femininas continuo a preferir Barbara, Catherine Sauvage e, atravessando o Atlantico Nina Simone. Mea Culpa.

    Dorme bem que a noite hoje e longa
    F Crabtree

    • Manuel Augusto Araujo diz:

      Estive para colocar a Nina Simone. Acabei por colocar a Hardy, quase por ser uma curiosidade. Os outros existem todos entre os meus discos. A minha primeira escolha, claro é o Brassens. Dos outrios gosto de todos e, não só por esta interpretação mas por outras, do Marc Ogeret que foi sempre um cantor quase desconhecido. No You tube não encomtrei uma outra cantora que está e estará sempre entre as minhas preferêmcias e que tem vários discos dedicados a poetas, Aragon mas também um excelente com poemas de Villon, a Monique Morelli. O Winterreise é extraordinário, é escrito no último ano de vida dos Schubert, morre mais novo que Mozart! E está lá a marca do drama existencial de Scubert agravado pelo estado precário da saúde. As interpretações variam entre as mais luminosas Schreier / Richter e a mais negra Hotter/Moore. Ouço-as com frequência, além das referidas no post, tenho mais três, o Quasoff, o Pregardien e o Bar. Ouço-as em sintonia com os estados de alma , se é que se pode dizer assim. Sá há outro ciclo de canções que tanto me impressiona, a Canção da Terra do Mahler onde me acontece o mesmo com as váras interpretações que por cá andam. Mas aí não são só os cantores são sobretudo os maestros e a forma como a lêem. São enormes as diferenças entre um Klemperer , um Walter ou um Jochum, por exemplo. Vão buscar os cantores que mais se enquadram com as suas concepções. Um dia escreverei sob O fascínio de ouvir a Ludwig-Wunderlich dirigidos pelo Klemperer, Ferrier-PatzaK/Walter, Baker-King/ Haitink, Merriman-Haefliger/Jochum, Baker-King /Giulini, Torsten Kerl-Meier/Bychkov,King-Fisher-Dieskau/Berstein e ainda outra vez o Walter com a mesma orquestra mas com a Kerstin Thorborg-Charles Kullman e um outro modo de pensar a Canção da Terra. Mas isso quando re ouvir estas diferentes versões que estão sempre ali para mewu comprazimento. A música, não só a música evidentemente, é um mundo inesgotável. isso. Grande abraço

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