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Música para um dia de Inverno luminoso

uma canção de Glinka por Nina Dorliac

Sviastoslav Richter, quando ainda era um desconhecido no ocidente, começou a acompanhar a soprano Nina Dorliac. Casaram e quando Richter morreu, Nina só lhe sobreviveu uns meses. Os recitais protagonizados pelos dois foram inúmeros. Poucos ficaram registados discograficamnte e são praticamente impossíveis de encontrar, havendo um com canções de Debussy que é notável. A razão da falta de registos discográficos também se deve a muitos desses recitais terem sido realizados sobretudo por toda a União Soviética, de Moscovo a Vladivostok, com Richter a tocar em pianos improváveis, com nomes saborosos como Outubro Vermelho, mas de qualidade duvidosa, o que nunca o fez recusar um concerto. Este genial pianista, com Benedetti e Lipati, atrevo-me a classificá-los como os mais marcantes dos últimos séculos desde que o piano começou a ocupar um lugar central na música, com interpretações que serão dificilmente superáveis, não tinha nenhum dos tiques de vedetismo que muitos outros pianistas também notáveis, exibiam exuberantemente. Se repararem nos videos que estão no You Tube, em Richter não há gestos teatrais, piscadelas cénicas. ausência de pautas para exibição desnecessária de memória. Richter repudiava esses exibicionismos. afirmava que eram sequelas do romantismo que punham a tónica nessa espectacularidade em vez de se concentrarem no rigor pela música escrita.. E todo o mundo musical conhecia que ele quando ouvia outro instrumentista não precisava de pautas para apontar notas falhadas ou truncadas. Quem assistiu aos seus recitais a solo, como os que fez numa digressão em Portugal já com uma idade assinalável mas senhor de todos os seus imensos recursos, não pode deixar de notar que a sua preocupação era com a música. Uma luz a incidir sobre a pauta, o pianista quase na obscuridade. As luzes só se acendiam quando agradecia os aplausos sem excessos. No entanto, poucos como ele olhavam para a floresta da pauta para que todas as árvores fossem presentes, para que a unidade e o esplendor da floresta ficasse sublinhado. Outra das características é que são poucas, quase nenhumas, as suas gravações em estúdio, refira-se as 5 sonatas para cello e piano de Beethoven que gravou com Rostropovitch, porque considerava que era o calor humano de tocar em público, o risco que qualquer acyor corre quando esté em palco. que valorizava as interpretações e não o andar a apagar e colar notas para corrigir falhas, como outros seus pares faziam. Clausulava mesmo nos contratos que fez com várias editoras, nunca foi artista exclusivo de nenhuma nem realizou nenhuma integral das composições para piano de algum compositor, que se no futuro gravasse essa música com uma interpretação que considerasse muitissimo melhor, a gravação existente sairia do mercado. A sua genialidade e rigor eram de tal ordem que uma vez quando lhe perguntaram porque não tocava uma certa obra de Debussy, disse que não o fazia nem faria porque nunca a conseguiria tocar melhor que Benedetti. Humildade raríssima num universo povoado de super vedetas. Só comparável com Emil Gillels, outro enorme pianista, o primeiro pianista soviético a tocar no ocidente e a tocar de tal maneira que ganhou um concurso em que o segundo classificado foi o já referido Arturo Benedetti Michelangeli, o que deixou meio mundo boquiaberto porque pensavam que a grande escola musical russa tinha sido destruída pelo poder soviético. O assombro foi tal que os críticos musicais inquiriram Gillels sobre o que consideravam um fenómeno, uma raridade, um caso único. Ficaram ainda mais espantados quando Gillels, também com enorme humildade lhes disse que se achavam que ele era um pianista excepcional esperassem até ouvir Richter. No mundo actual invadido pela fabricação constelações de estrelas em todas as profissões dos cozinheiros, perdão chefs, aos costureiros, desculpem fashion directors, essa turbamulta de famosos que invadem o quotidiano e o alimentam de mundanidades ocas, é bom recordar estes génios que desprezavam o “Star-System”, uma das rodas dentadas essenciais do mercado neo liberal, do pós-modernismo do capitalismo terminal.

Ouçam Nina Dorliac e Sviastoslav Richter, descubram esta soprano quase desconhecida.

 

 

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3 thoughts on “Música para um dia de Inverno luminoso

  1. Pingback: Um canção de Glinka por Nina Dorléac e Sviastoslav Richter – Matéria Humana – Pedro Mota

  2. Fernanda Paixao dos Santos diz:

    BOM DIA MANUEL

    Obrigada por este magnifico acordar. Conhecia e admirava Richter mas desconhecia a soprano. Fica assinalada para estar bem atenta.

    Para meu gosto Michelangelo posava de mais e cheguei a ouvi-lo de olhos fechado porque a afectacao e o lencinho branco para passar nas teclas irritava-me. Mas por tanto o apreciar confesso que ate passei a habituar-me…

    Saudades
    Madrinha

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