Actual do Expresso, Alexandre O'Neill, Anticomunismo, Clara Ferreira Alves, GOVERNO PSD-CDS, José Cardoso Pires, José Fonseca e Costa

RIR NUM DIA EM QUE O AR ESTÁ MAIS LEVE

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Hoje o ar está mais leve! Há a certeza de um acordo entre o BE, o PCP, o PVE e o PS, que sustenta a possibilidade real de um governo que inverta as políticas de direita que nos últimos anos tem andado a vender o país a retalho com todas as consequências políticas, económicas e sociais de todos conhecida. O ar está mais leve, apesar das enormes dificuldades que se irão enfrentar.

Empurrado por esse ar leve comprei o Expresso, não pelo seu conteúdo que não tem surpresas, melhor sem grandes surpresas, mas porque, passe a publicidade, estou interessado na iniciativa em relação à edição sobre Fernando Pessoa. Pese a desigualdade dos estudos insertos em cada um dos livros é uma iniciativa a assinalar..

Eis que, logo na primeira página, encontro uma chamada de atenção para um artigo inserto no interior: Clara Ferreira Alves: Anticomunista, obrigada!

Pensei que fosse o título da sua rubrica habitual, Pluma Caprichosa, uma denominação pedante.

Puro engano. Essa sua participação habitual centrava-se em Fonseca e Costa, recentemente falecido, um dos cineastas portugueses mais marcantes da história do cinema português, a que se fez até hoje e a que se fará no futuro. Além de ser um realizador notável, era um homem de cultura e um conversador fascinante com quem dava gosto conviver.

Essa crónica é encimada por um sublinhado que convém reter: Com o amor que tinha pela literatura, era amigo de O’Neill e de Cardoso Pires, cujos livros filmou como ninguém.

Aqui temos uma afirmação, o ter filmado como ninguém livros de O’Neill, deve figurar ao lado das de Filomena Mónica quando registou a estreia da Mãe Coragem de Brecht no Teatro Nacional Dona Maria, quando este estava ardido e em reconstrução e os celebrados Concertos para Violino de Santana Lopes. A História da Cultura fica sempre enriquecida com estas descobertas. Infelizmente já não terei oportunidade de perguntar ao Zé Fonseca e Costa, nem ao Alexandre O’Neill qual o livro ou os livros passados a filme. Imagino os comentários sempre certeiros e irónicos do O’Neill sobre o livro que não escrevera e o Zé Fonseca tinha filmado, que certamente muito nos divertiriam, ao Sá Nogueira e a mim, que regularmente nos encontrávamos para café matinal na já desaparecida Peterman.

Adiante! Fui à procura de tão magna declaração. No ambiente de cruzada que se vive, dar espaço especial a essa plumitiva ladrilhada de lindos adjectivos, espécie de Mafalda suburbana envolta em tules culturais que deambula, por todos os passeios públicos reais e virtuais deste Portugal três sílabas de plástico, feira cabisbaixa, remorso de todos nós, deveria ser coisa que se lesse, mesmo com as dificuldades que se adivinhavam.

Lá encontrei as duas páginas de Anticomunista, Obrigada! A saltar à vista duas grossas filas de formigas negras na vertical, entre colunas. O PCP sufocou todos os desvios à sua norma. Até aqui nada de novo, nem original. Escreve o que escrevem todos os da sua trincheira. Sou anticomunista por razões históricas e temperamentais. Uma novidade. Razões históricas na linha da anterior citação. Agora temperamentais! Isto promete. Teria encontrado sei lá em Jung, Lacan os fundamentos para esse grito de alma?

Fui ler, com a perspectiva horrorosa de desbastar duas páginas. Enganei-me. Logo nos primeiros períodos tropecei com esta pérola, claro que nada de pérolas verdadeiras: Sou ou não sou anticomunista? E se for? A questão não é meramente ideológica., é existencial. É, por assim dizer, teológica. Cheguei à conclusão depois de muito matutar, de que sou anticomunista. Chegado aqui, mais ou menos uma dezena de linhas, dei-me por elucidado e dispensado de ler as muitas linhas do resto do texto que tanto tinha motivado as gentes do Expresso.

Sem necessidade de muito matutar, um raio de luz iluminou-me. Sempre me fizera impressão, cada vez que me cruzava nas pantalhas com a dita personagem, o seu ar que tinha um não sei quê de freira da canção de Brassens, a devassar prazeres terrenos entre cambraias com remorsos Santa Teresa d’Ávila que não chegam para travar os  impulsos, louvando deus por lhe dar fé anticomunista em enlevos tão pouco confessáveis que acabam por cravar mais um espinho na cabeça de Cristo, helás, já tão carregada de espinhos que devia dispensar o acréscimo de mais aquilhões.

O Cristo que a Clarinha deve lá ter por casa é um mártir ao pé do de Grünewald! São os resultados de tantos matutanços para chegar a uma conclusão que já era antes de ser.

Depois do ar mais leve desta manhã não tinha qualquer expectativa de o fechar com pantagruélicas gargalhadas.

( escrevi e editei este texto antes de ler o do Nuno Marques que, gabo-lhe a pachorra, leu a CEA por inteiro. Os leitores do blogue que me desculpem, a Clarinha não é assim tão importante, obviamente ela é capaz de achar o contrário,, que mereça dosi textos mas como as abordagens são bem diferentes, embora coincidam no essencial, decidi mantê-lo)

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