Media, Política, Revelações

A Bailarina Equilibrista

CFAA última opinião expelida por Clara Ferreira Alves no idóneo semanário do regime, que me escuso a partilhar, não é apenas um texto extenso e fastidioso cuja leitura, por penosa, poderia ser adoptada como sanção, pela justiça, em substituição do trabalho comunitário. É um exercício que revela a essência de quem o escreve, as suas características, o seu estilo, o seu caracter. Só é digno de nota, e por isso este comentário, o facto de tanta e tão boa e inteligente gente se ter surpreendido e indignado com o mesmo. Surpreendem-se porque não supunham que a estimada dama carregasse tantos preconceitos primários e porque a entendiam como uma pessoa de esquerda. Indignam-se pela evidente desonestidade intelectual expressa.

Não me julgo mais avisado que os demais, mas em nada me surpreende CFA. Irrita-me apenas a arrogância. Ela é apenas igual a si própria. Quem a lê ou ouve e crê tratar-se de uma comprometida mulher de esquerda, sempre pronta a colocar-se do lado dos mais frágeis e a denunciar os abusos, muito se engana. Veja-se a contestação mordaz com que foi pontuando o governo PSD/CDS, ao longo de quatro anos, para agora encarrilhar a defesa férrea na sua manutenção, após a derrota. Tal como todos os outros comentadores de direita que proliferam pelas estações de televisão em Portugal. Outro exemplo foi a firme reprovação pela condenação mediática de Sócrates para, dez minutos depois, lançar as mais infundadas acusações contra o mesmo, em idêntico exercício. CFA é uma boa comunicadora, capaz de segurar a atenção do espectador ou leitor, de seduzi-lo, de manipulá-lo. Discorre fluentemente em língua portuguesa. Mas é inconsistente, incoerente e contraditória. Afirma com veemência sobre o que ignora. Opina sem conhecer. E, mais tarde, como em mágico passo de dança, diz o contrário.

Tem um certa elegância e graciosidade, mas não deixa de ser uma bailarina do comentário profissional. E, como adora ouvir-se, confia em demasia na sua capacidade retórica, pelo que fala sobre tudo e sobre todos, mesmo sem estudar os assuntos. Senhora de um ego incomensurável, está sempre certa e segura, por oposição a todos os outros. É a versão feminina do professor Marcelo no comentário, com um toque cavaquista no que respeita à ausência de erros e de dúvidas. CFA é uma direitinha que sempre estará do mesmo lado. Pontualmente segura umas bandeirinhas caras à esquerda, porque lhe permite conciliar-se com a sua consciência e lhe confere um ar mais jovem e modernaço. Arroga-se socialista, mas tem vivido e convivido tão bem com o PS como com o PSD – foi directora da Casa-Museu Fernando Pessoa pela mão de Santana Lopes, cuja boa relação quase a levou à direcção do DN. Escreve e bota faladura nos media do amigo Pinto Balsemão. É exímia equilibrista, uma espécie de sempre em pé. Faz gala da sua independência, o que pode parecer verdadeiro aos mais incautos, pois lança farpas àqueles de quem é, aparentemente, próxima, mas notem que só o faz quando a amizade se extravia. É desleal, pois cospe nos pratos onde come, todavia apenas quando já nada há que comer.

No texto aludido não é grave que assuma o seu anticomunismo, que é sincero e natural. O que não é aceitável é a leviandade com que aponta o dedo e acusa e a desonestidade intelectual com que analisa e reescreve a história e inúmeros acontecimentos, confundindo convenientemente factos e acções, e profere inegáveis afirmações sobre a vida e o pensamento de terceiros, procurando lançar, com manifesta cobardia, deploráveis sombras sobre destacadas figuras da história contemporânea. Mas, coincidência das coincidências, já falecidas e, portanto, incapazes de se defender ou negar os impropérios.

Neste contexto, destila com superior sapiência sobre os pensamentos mais íntimos de Sofia Mello Breynner e Mourão-Ferreira, Cezariny, Nemésio e Natália Correia, Saramago e Cunhal, entre outros, num desfile alucinante marcado por vivências de tal modo traumáticas que confunde a UEC com o MRPP e não consegue esconder um acentuado ódio pela intelectualidade portuguesa de vanguarda dos anos 70 e 80, pós revolução. Possivelmente não foi aceite no meio, talvez até desconsiderada. Creio que a psicanálise explicará facilmente esta sua atitude venenosa e amarga. Tamanho egocentrismo e preconceito levam a empolgantes excessos, como é habitual nesta criatura, que no texto, entre muitas outras alarvidades, chega a denunciar que em Portugal a Pop Art não existiu enquanto expressão artística ou movimento, nos anos 60 e 70, por causa do PCP. Deduzo eu, numa análise simplista, que o facto de em ¾ deste período o país estar sob a mão de ferro de uma ditadura fascista e, no restante quarto, em processo revolucionário, em nada explicam o fenómeno

O pensamento, o modus vivendi e a natureza de classe de CFA são, estruturalmente, de direita. De cada vez que se cavem trincheiras estará na primeira linha de defesa do status quo. É uma pseudo fidalga que intrinsecamente odeia a populaça e se está nas tintas para os seus interesses. Tudo o resto são fait divers, medos, inseguranças, necessidade de se fazer notada, de uma personagem arrogante, presunçosa e contrafeita.

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One thought on “A Bailarina Equilibrista

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