Geral

Abraço do urso e os cantos de sereia

 

Por que razão, diversos anticomunistas universitários (na atualidade fica mal ser primário) , desde o Barreto ao Pulido Valente, passando pelos Baldaias da desinformação, estão tão preocupados com a manutenção da pureza e fidelidade do PCP aos seus ideários marxista e comunista, esconjurando-o na hipótese de cooperar, com maior ou menor participação direta, numa solução política que passe pela viabilização de um governo de iniciativa do PS?

Por que motivo vêm agitar o papão do “abraço do urso”, dizendo que um partido comunista “verdadeiro” nunca deverá aceder ao poder pela via democrática e parlamentar, porque isso significaria o seu fim?

De facto, Carrilho, Marchais, Berlinguer e muitos outros, em diversas latitudes e com diversos estilos, falharam, erraram, traíram e fizeram falir perspectivas de mudança para os respectivos povos.

Mas, pergunta-se, o tempo, as condições históricas e as circunstâncias sócio-políticas não mudam?

Será que, em 1974, o PCP não deveria ter assumido, como assumiu, responsabilidades governativas? Teria sido melhor ficar fora, “puro”, na rua, defendendo as massas, como então propunham os “revolucionários” do MRPP e da UDP (alguns deles, hoje, sólidos alicerces do edifício do capital)?

E houve algum problema político e ideológico com o “adiamento” do tema NATO, estando como estávamos em plena guerra fria, acabadinhos de ver mais uma das criminosas intervenções do imperialismo no Chile?

É certo que se vivíam, então, tempos revolucionários.

Mas, o atual dramatismo socio-económico, os brutais ataques à soberania  portuguesa e o regresso a um tempo de grande tensão internacional com o espectro guerra a espreitar em várias esquinas, não contêm os ingredientes que impõem a adoção de opções excepcionais?

Uma vez, em 1993, Mario Soares, disse-me, durante uma presidência aberta, que achava dever repetir-se no governo da nação, aquilo que então ocorria no município da capital. Depois, bem-disposto (estávamos depois do almoço, sem tempo para sesta) acrescentou: até porque seria a melhor maneira de condicionar e diminuir o PCP!

Naquele tempo, e nas condições então vividas, teria sido errado corresponder a tais cantos de sereias oportunistas. E, esse quadro, manteve-se até agora.

Mas, hoje, incompreensível seria considerar apenas a hipótese “ficar fora”, estagiando nas caves de uma espécie de socialismo vintage.

Os riscos são grandes e não se sabe como as coisas vão ficar, mas, dar o corpo ao manifesto, é já prova de grande coragem, lucidez e determinação em servir o país. Ao contrário de outros, não se vislumbra, na disponibilidade manifestada pelo PCP, nenhum resquício de vontade vã de protoganismo estéril.

O tratado orçamental, bem como este € bipolar e imposto, hão-de acabar, fique isso escrito num papel ou não fique. Eles se encarregarão da auto-destruição.

A razão profunda para o nervosismo e pavor da direita, patentes nas manifestações de ódio dos escrivães de turno, está em saberem que o esboçado entendimento pode perspetivar uma diminuição significativa da taxa de exploração, e representar a possibilidade de um pouco de desafogo para quem trabalha, um pouco de esperança para os desempregados, um pouco mais de sossego para os pensionistas e reformados! Mas um pouco para eles será sempre demais.

É por isso que os representantes das mais-valias, dos lucros especulativos e da privatização universal apelam às virtudes ideológicas do PCP, dizendo: sejam coerentes, fiquem fora da área do poder legislativo e, sobretudo, do executivo!

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