capitalismo, Ciência, Geral

Darwin e os pimentos

PIMENTOO Instituto Europeu de Patentes cedeu à Syngenta, empresa suíça de produtos químicos e sementes, a patente do pimento sem sementes. Neste sentido, recomendo a eliminação dos pimentos da dieta mediterrânica para não agravar os encargos com a alimentação. Imaginem-se em casa a saborear uma boa caldeirada com amigos e bate-vos à porta o delegado da SPA, o representante do INPI, um agente da ASAE ou da PSP ou qualquer outra autoridade – “O senhor não pagou os direitos autorais pelo uso de pimentos nessa caldeirada. Vou ter de interromper o almoço, autuá-lo e levar comigo o tacho”.

É de génio! Façam contas. Receber royalties de todos os restaurantes e lares com fogão. Tentar registar a patente do sal marinho passa a ser o desígnio da minha vida.

Tudo isto poderia ser parte de uma obra do teatro do absurdo se não fosse dramaticamente verdade. Não se trata sequer de mais uma mutação que a engenharia genética tenha proporcionado à indústria alimentar ou de um qualquer transgénico. É uma planta proveniente de cruzamentos normais e, portanto, naturais na agricultura. Pese embora nunca façam notícia, são registados cada vez mais alimentos. O acesso à produção e, consequentemente, ao consumo de alimentos monopoliza-se. Mas já não estão em causa apenas a detenção ou a industrialização dos meios de produção, a actividade agrícola intensiva, a sobre-exploração, o abuso de químicos, ou as redes globais de distribuição e comercialização de alimentos. O capital já está a montante desses processos. As mais valias geram-se, desde logo, em insólitos e inexplicáveis direitos autorais. Além de ilegais. Uma patente, em qualquer parte do mundo, representa uma invenção. Sem ela não há registo, nem direitos de autor.

Neste contexto, como se demonstra a invenção de uma planta já existente? Como se comprova criação quando constatamos apenas diversidade biológica, resultante do processo de descendência e da adaptação gradual e selecção natural?

O interesse do capital sobrepõe-se, não só à condição humana e às necessidades da população mundial, como também a um século e meio de conhecimento científico. O registo da patente do pimento, em boa verdade, deita por terra a Teoria da Evolução das espécies que o naturalista Charles Darwin elaborou e comprovou em meados do século XIX.

Não há verdade científica que resista à infindável obsessão do modelo capitalista pelo aumento do lucro. Nem os pimentos resistem.

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