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Derrotas virtuosas e vitória de Pirro

 

A falta de alternativas que soassem credíveis aos eleitores levou a coligação de direita a ter sido a força política mais votada nas eleições legislativas. Mas, não haverá grande dúvida, trata-se de uma vitória de Pirro que, a prazo, provocará a implosão da casa.

Cerca de três milhões de eleitores portugueses declararam-se contra a política neoliberal e austeritária imposta pelo PSD/CDS. Apenas um milhão e novecentos mil portugueses acreditam que a PaF faz bem. Os dois partidos da coligação perderam setecentos mil votos. Só.

Qualquer partido ou instituição que não tenha isto em consideração não estará a respeitar a vontade democrática.

Quem procure desculpar-se com questões formais de natureza institucional ou se refugie em rigorismos ideológicos para obviar à formação de um governo que permita os pensionistas respirarem, aliviar os trabalhadores e as classes médias, relancar a economia produtiva, reganhar a esperança no país, o controlo efectivo do descalabro financeiro e acabar com o regabofe privatizador, pagará caro, mais cedo que tarde.

Um novo ciclo político é possível, havendo condições para impedir que uma parte significativa das políticas mais antissociais e neoliberais prossigam. O que não será condição suficiente para inverter a tendência para o desastre em que persistem os funcionários europeus do capitalismo. Do selvagem e o da mão invisível.

Outra  questão foi a manifesta incapacidade do PS para conseguir captar o descontentamento da população.

Esta realidade, bem ponderada, não será de admirar porque, mais do que demérito de António Costa, estão anos de ambiguidade e insistência em práticas políticas de direita. É natural que as pessoas prefiram um original pimba a uma cópia manhosa de hinos da liberdade.

A grande oportunidade seria volver virtuosa esta derrota através da procura de caminhos para um realinhamento do PS com a sua matriz socialista, olhando à sua esquerda.  Isso não será, contudo, muito expectável, se tivermos em conta as primeiras declarações feitas que parece apontarem para a viabilização do governo de direita, rejeitando qualquer solução de esquerda antes mesmo de serem discutidas as condições.

O que parece interessar à direção do PS caberia no período de um ano ou dois, rearrumando a casa, assando a PaF em lume brando e apontando para um acto eleitoral intercalar, no qual poderia ficar à frente.

O BE esteve bem no seu novo registo: a nova direção varreu a eira e malhou, certeira, no cereal. Veremos se o fabrico dá pão ou pãozinhos de leite.

A CDU, sempre trabalhadora, honesta e quase, quase competente, foi vítima do medo, da desinformação e de um voto útil de novo tipo, não obstante todos os esforços feitos. A sua dificuldade para transformar força social, razão e simpatia em pecúlio eleitoral, mais uma vez se notou. No entanto, a verdade é que atingiu todos os objetivos anunciados: subida de votos, deputados e percentagem.

Estes factos, que são positivos, não podem satisfazer completamente quando se sai do pódio. Claro, a peleja eleitoral não é apenas uma corrida, mas no final soube a óleo de fígado de bacalhau: faz bem mas calha mal.

Aqueles primeiros minutos de pasmo perante os écrans televisivos causaram mossa, até porque as espectativas tinham subido alto. Também por culpa de umas sondagens que, em geral, não estiveram mal e foram simpáticas durante meses.

Repare-se que, função do que se diz e mostra nas televisões durante o impacto inicial, hoje e durante muito tempo haverá portugueses a acreditar que a abstenção desceu ou que o Livre elegeu um deputado.

De facto, ainda não foi desta que as justas coisas ditas e as laboriosas propostas feitas chegaram e passaram, neste campo de ação focada na política legislativa e governativa, às camadas da população ideologicamente desconfiadas, manipuladas por milhares de horas de lixo tóxico televisivo (não só político e eleitoral). Mas, apesar disso, avançou-se.

E, sobretudo, reforçaram-se as condições para o progresso das forças que, como a CDU e o PCP, pugnam  por formas de legislar e governar que busquem desenvolvimento equitativo, coerente, sustentável  e justo, não cedendo às governanças, golpaças, oportunismos e a terceiras vias tortuosas.

Os que têm convicções e sabem que a vida é uma luta constante já estarão, de novo, de olhos postos no futuro.

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One thought on “Derrotas virtuosas e vitória de Pirro

  1. Francisco Teixeira diz:

    Sabe bem ler um artigo em que nos revimos na interpretação dos factos, na análise e nas conclusões. Para quem pensa, sente e olha a realidade à margem da intoxicação mainstream isso tornou-se uma oportunidade rara. Tanto mais quando escrito com tamanhas imagens de recorte literário.

    Exemplo: para caracterizar e perspectivar a interessante “deriva” de programa e atitude do BE o Demétrio basta-se com duas frases: “a nova direcção varreu a eira e malhou, certeira, no cereal. Veremos se o fabrico dá pão ou pãozinhos de leite.” Brilhante.

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