Culturgest, E se tudo fosse anmarelo, E.H.Gombrich, Grupo 23, Sílvia Real, Voz do Operário

As milhares de cores que não são amarelo

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Um espectáculo surpreendente! Surpreendente no seu todo e na sua génese! O Grupo 23, nome que pretende ser uma referência paródica ao G20, com o risco de ser daquelas coisas que nunca se sabe bem como serão de facto entendidas ou se o impulso foi bem medido, isso de designações é coisa sempre coisa complicada, é um novo grupo de trabalho sobre artes do palco que reúne sete jovens, dos 11 aos 14 anos, e uma equipa experimentada nos meandros cénicos, dramatúrgicos e pedagógicos, em que se deve destacar Sílvia Real, a alma mater do projecto. Tudo arrancou de um trabalho pedagógico com uma professora da Voz do Operário, Bárbara Ramires, que se aprofundou, ganhou espessura até desembocar em“E se tudo Fosse Amarelo” .

Os acasos nunca são completamente um acaso. Este parte de uma leitura desse livro extraordinário de E.H. Gombrich, Uma Pequena História do Mundo, a edição revista do original que significativamente tinha o título Eine kurze Weltgeschichte für junge Leser (Uma História do Mundo para jovens leitores). Lateralmente refira-se que E.H.Gombrich é um conceituadíssimo historiador de arte. A sua História de Arte, um livro indispensável, não entrou no circuito comercial em Portugal mas foi editada pelo jornal Público em 2005.

É um excelente ponto de partida porque Gombrich tem a liberdade de não apresentar a história como uma sucessão de datas e factos, explicando como se chegou a saber o que aconteceu e coloca sempre a dúvida para que o leitor descubra o que foi realmente importante. Conta Sílvia Real que era uma história da Grécia antiga. O método de Gombrich, seja qual for o facto histórico relatado, dá a liberdade de leitura sem trair os factos históricos. Por essa porta entrou o Grupo 23, levando consigo as reivindicações das crianças aos pais e ao mundo procurando o erro, “não para o apagar mas para o sublinhar”.

Estava encontrada a base para construir um espectáculo em o que se questiona é a liberdade, os limites que as sociedades impõem à liberdade. Quer dizer a liberdade enquanto valor relativo e com múltiplas leituras. Construir um espectáculo em que os jovens actores também são coautores de um discurso ele próprio um exercício de liberdade de aceitação de diferenças entre cada um consigo próprio e com todos.

O resultado, repita-se e sublinhe-se, é surpreendente. Logo a primeira cena dá o tom do que se irá ouvir/ver ao longo de uma hora. Os sete jovens, quatro raparigas e três rapazes, em fila viram-se para o público. Todos de meias excepto o da extrema esquerda,de pés nus. Passam um par de meias de mão em mão até chegar ao de pés nus que as começa a calçar. Simultaneamente todos os outros começam a livrar-se das meias. A diferença passa a ser normalidade. A normalidade implica a diferença. As cenas seguintes desenrolam-se sobre esse pano de fundo. Há uma enorme fluidez na sua ligação e sequência, num espectáculo que é mais coreografado que encenado. Nem todas alcançam a mesma força expressiva. Há momentos bem conseguidos como o da cena que se tudo se suspende a mando de um dos actores para recomeçar no mesmo ponto por outro actor, ou quando mudam de vestuário para se sentarem num sofá na boca de cena para se interrogarem sobre o que aconteceria se tudo fosse amarelo, ou as mortes sucessivas, acontecidas ou tentadas. Os momentos mais conseguidos, as opiniões são variáveis e relativas isso nos é transmitido ao longo de todo o espectáculo e gozam da liberdade que temos, conquistámos e os outros nos concedem, tem uma unidade notável o que provavelmente só é possível pelo espírito de participação colectiva, em todos os seus pormenores, que anima esse grupo de vinte pessoas de idades e formação ou em formação muito diversa.

Uma última nota para a banda sonora, sem menorizar qualquer outro dos efeitos e marcações cénicas todos em plano superior. De Mahler e Messiaen passando por vários trechos jazzisticos, há um intermezzo tocado por quatro dos jovens actores. É uma associação invulgar de violino, violoncelo, contrabaixo e clarinete. Explica-se no programa que, independentemente do grau de saber musical de cada um dos interpretes, cada um tocou um trecho para os outros e a partir desses esquissos foi construída a improvisação do que foi ouvido. Será diferente em cada um dos espectáculos mas, pela amostra, deve resultar cada vez melhor dado o entrosamento entre os músicos. Mais uma vez a liberdade e a diferença.

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O futuro? Depois deste espectáculo na Culturgest, logo se verá, após se ter conquistado este espaço, entusiasticamente ocupado por tantas pessoas, certamente quererão dar continuidade dado o êxito do que depois de experimentado se consolidou num projecto interessantíssimo que foi para lá dos iniciais objectivos pedagógicos, emergindo num espectáculo teatral de excelente gabarito que vai estar em digressão pelo país.

A equipa, coordenada por Sílvia Real, está de parabéns, bem como os sete jovens actores, orgulhosamente sou avô de três deles a Filomena, a Helena e o Vicente, os outros são a Jasmim, a Laura, o Miguel e o Nuno, que desempenharam com grande entusiasmo e em grande plano os papeis que lhes foram atribuídos e que se atribuíram.

Depois de vermos E se Tudo fosse Amarelo fica a certeza que felizmente para muitos, para muitos jovens, o mundo não é um zapping de usar e deitar fora. Que o mundo é um conjunto de saberes que, por mais complexos que sejam, podem e devem ser compreendidos e que essa compreensão evolui permanentemente mudando e afinando a visão e o ponto de vista., num discurso crítico que se inicia quando se é ainda muito jovem.

Que o mundo tem que adquirir liberdade, ainda que sujeita a regras. Uma liberdade que não seja reprimida, de forma violenta ou suave, pelo direito do mais forte à liberdade para impor as suas regras, como hoje se assiste nas cinco partidas do mundo, para defesa de um estado de coisas iníquo em que se quer que tudo seja amarelo ou que mesmo que seja de outra cor seja visto como amarelo.

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