João Abel Manta é um dos intelectuais impares da historografia portuguesa. Artista excepcional e homem de vastíssima e rara cultura, encontra-se com William Shakespeare, um dos maiores poetas ingleses, um dos seus maiores dramaturgos que continua e continuará a ser celebrado nos palcos de todo o mundo, para interpretar situações dramáticas exemplares. Desse encontro, fica o registo de doze desenhos extraordinários que são uma narrativa dramatúrgica, traçam um percurso singular pelo universo shakespereano. Em cada um dos desenhos são oferecidas chaves de decifração que, simultaneamente, mergulham nos meandros mais subtis e mais fundos desse universo para sistematicamente o ultrapassar, remetendo sempre à sua origem. Um desafio sem fim em que o sublime está / é omnipresente.
Cada desenho transporta em si o fascínio de, ao identificarmos um momento de uma obra de Shakespeare, descobrirmos a sua genialidade e a de João Abel Manta, leitor pessoalíssimo do dramaturgo que dificilmente encontrará artista que melhor consiga fazer registo dessas situações dramáticas.
As personagens situam-se em cenários, arquitecturas de espaços que sublinham o momento que esta a ser vivido. Lugares teatrais em que João Abel Manta fixa uma cena de um acto de um drama em que ele, desenhador dessa cena desse acto, é o encenador desse drama, como Ricardo Pais enfatizou: “Claramente localizadas em acto e número estas cenas cristalizam um momento físico que é por vezes ilustrativo, realista(?), outras vezes imobilizado em pose simbólica. Não há legenda ou extractos de diálogo. O autor promove fantasiosa relação com o seu “público”. Refaz em cada desenho o conceito de tempo e portanto de acção. Idealizamos uma totalidade a partir do que nos é dado ver em cada uma das cenas. E o que nos é dado ver está organizado de forma oculta, intrigante. Estes desenhos propõem o seu próprio espectáculo. O Desenhador é o Encenador.” (*)Cada desenho, todos os desenhos, é de um inigualável rigor em que não há lugar para qualquer intrusão lateral, desviante da espessura grave, profunda do que é dado ver. E, no entanto, há neles uma contida desmesura que, enquanto remete para o Shakespeare original, demonstra com uma intensidade e uma emoção matemática que nenhuma das suas obras teatrais é ou será algum dia arcaica. As suas releituras ao longo dos tempos, em particular as nossas contemporâneas, sublinham essa modernidade, a sua ubíqua actualidade que se torna óbvia, quando a mão culta e inteligente de João Abel Manta transpõe nesses doze belíssimos desenhos a tinta da china. Doze cenas de oito dramas shakespereanas, quatro com dois desenhos Romeo and Juliet, Macbeth , Hamlet e Othelo , quatro com um desenho King Lear, Richard II, Henry V e Julius Caeser( *).
São doze cenas-chave que abrem o momento em que a convulsão da tragédia se revela, que demonstram que Shakesperare encontra em João Abel Manta um dos seus leitores notáveis e relevam o fascínio que o dramaturgo exerce sobre o artista. Uma extensa relação criativa , que não se encerra nas fronteiras desta obra, como José Cardoso Pires assinala : “ Poderei deter-me na paixão shakespereana de João Abel por longo tempo. Descobrir a sábia cenografia que enfoca estas personagens – figurino isabelianas aprender-lhes o rigor histórico – melhor o eco que elas enviam para o nosso mundo de hoje, isso é muito mais. Poder, insisto, demorar-me nas mil descobertas que se desprendem continuamente de uma arte intencionalmente trabalhada. (**).
Os personagens delicadamente desenhados em sumptuosas filigranas, em requintados pormenores que claramente se reportam à pintura e ilustração inglesa do século XVIII, são encerrados e libertos em espaços arquitectónicos inquietantes, em que se cruzam e prolongam múltiplos planos num jogo complexo de luz e sombras, labirintos abstractos, lugares que acentuam a expressividade das cenas, a eloquência das falas que gritam no silêncio dos desenhos, os dramas que estão a eclodir.
São doze desenhos a tinta da china que ficam na história de arte num paralelo indissociável da obra de Shakespeare.
Manuel Augusto Araújo
(*) João Abel Manta, Shakespereana, edição Caixa Geral de Depósitos, texto de Ricardo Pais, design gráfico José Brandão, reproduções dos desenhos originais a tinta da china 360×520 mm. Tiragem de 1000 exemplares numerados e assinados pelo autor. Dezembro de 1994
(**) José Cardoso Pires, in João Abel Manta, Obra Gráfica, org. Irisalva Moita, edição dos Museus Municipais de Lisboa/Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992
(*) EM EXPOSIÇÃO HO FOYER DO FÓRUM LUÍSA TODI