Geral

Ainda O Gosto e as Artes

chagall

Um “post” é um espaço exíguo e no “post” anterior várias questões foram secundarizadas pelas do gosto quando o foco principal deve ser a da arte enquanto criação e fruição.
O importante, o essencial é como a arte nos faz humanos e como os humanos se transformam com a arte. Parafraseando Marx num belíssimo texto sobre a formação dos sentidos humanos, sublinhe-se que a música não faz nenhum sentido para um ouvido não musical, um olho não educado é cego para a pintura, uma representação teatral ou uma obra cinematográfica, por mais excelente que seja, não existe para quem não tem as ferramentas para a decifrar. Nenhuma dessas obras de arte
não é nenhum objecto, porque o meu objecto só pode ser a confirmação de uma das minhas forças essenciais, portanto só pode ser para mim assim como a minha força essencial é para si como capacidade subjectiva, porque o sentido de um objecto para mim (só tem sentido para um sentido correspondente a ele) vai precisamente tão longe quanto vai o meu sentido, pelo que os sentidos do homem social são outros sentidos que não os do não-social; somente pela riqueza objectivamente desdobrada da essência humana é em parte produzida, em parte desenvolvida, a riqueza da sensibilidade humana subjectiva – um ouvido musical, um olho para a beleza da forma, somente em suma sentidos capazes de fruição humana, que se confirmam como forças essenciais humanas. Pois não são só os 5 sentidos, mas também os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor, etc.), numa palavra, o sentido humano, a humanidade dos sentidos, apenas advém pela existência do seu objecto, pela Natureza humanizada”.– Marx, Manuscritos Económico-Filosóficos, Oeuvres, t. III, pp120-12, Mega, Moscovo.

Há aqui outra questão de fundo. Para um homem submetido a preocupações de sobrevivência, o mais belo espectáculo não tem qualquer significado. No limite para um homem a sofrer a miséria, nem sequer o pão que lhe mata a fome, adquire forma ou gosto, é um combustível para o manter vivo. Pelo que, obviamente, a luta pelos direitos económicos e sociais é essencial para a realização de uma política cultural. São lutas inseparáveis, faces da moeda.
Retornando à esfera das artes e das culturas, há um outro ponto a sublinhar e discutir, o que distingue a arte, as práticas artísticas, das culturas artísticas que, embora tenham entre si tangências e secâncias, não são sinónimas. A relação intima que se estabelece entre a arte e a cultura artística é decisiva para a formação dos sentidos que é um trabalho, não só da arte e da cultura artística, mas um trabalho de toda a história da humanidade, desde os tempos mais longínquos até aos dias de hoje. Essa também uma das teses centrais de Marx, nos já referidos Manuscritos Económico-Filosóficos. Teses que continuam actuais e são nucleares na análise das conexões e interacções entre a produção e a recepção artística. Ou para citar mais uma vez Marx,
“ A produção não fornece apenas materiais às necessidades, fornece, também, necessidades aos materiais. Quando o consumo sai da sua rudeza primitiva perde o carácter imediato – se nele permanecesse, seria o resultado de uma produção mergulhada ainda na rudeza primitiva – e é, ele próprio, solicitado pelo consumo como causa excitante. A necessidade dele se manifesta é criada pela percepção do objecto. A obra de arte – tal como qualquer outro produto – cria um público capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto a produção não cria somente um objecto para o sujeito mas também um sujeito para o objecto” – Marx Fundamentos da Crítica à Economia Política, vol II,pp.246-247, Anthropos, Paris

Tudo isso exige trabalho político, para tornar exequível uma política cultural, uma política de democratização da cultura em que devemos reter uma tese de Manuel Gusmão: “ a democratização da cultura não é tanto a democratização do acesso à fruição cultural mas sim um processo de democratização estrategicamente orientado por um objectivo principal,- que é a democratização do acesso à criação cultural.
A democratização do acesso à fruição tem um papel muito importante, mas apenas um papel e um valor instrumentais.”

O que Manuel Gusmão, como marxista que é, põe em causa é a divisão social do trabalho em que o trabalho artístico ou científico se torna único, e unicamente produzido por artistas e cientistas. “Democratizar o acesso à criação cultural” é exigir que a sociedade crie condições para que todas as pessoas possam encontrar o Picasso ou o Miguel Ângelo, a Madame Curie ou o Einstein, o Shakespear ou o Brecht, que trazem dentro de si, mesmo que nunca sejam Picasso, Einstein ou Brecht. Poderem desenvolve-los livremente, mesmo que nunca os venham a ser. Estarem suficientemente libertos da estreiteza do seu desenvolvimento profissional e da dependência da divisão do trabalho. Numa sociedade sem classes não há pintores, cientistas, músicos actores, há homens que, entre outros e entre outras coisas, também fazem pintura, escrevem, produzem ciência, são actores. Opções que a sociedade lhes proporciona para lhes fazer descobrir o ser, a individualidade humana que há dentro de si. Entre esses homens aparecerão os insubstituíveis Mozart, da Vinci, Lavoisier, Erza Pound.

Nesta visão, nesta concepção, o gosto, a política do gosto ficam definitivamente enterradas. É um dos assuntos que mais largamente tem sido debatidos, de fporma directa ou oblíqua, nas últimas décadas, com as mais diversas focagens, por pensadores tão diferentes, com abordagens tão diversas de Steiner a della Volpe, de Eco a Williams, de Luckas a Jameson, de Lefebvre a Perniola, de Adorno a Argan. Muitos mais se poderiam citar. Até mesmo Álvaro Cunhal, a quem as artes e a estética muito interessavam, invectivou quaisquer políticas de gosto ou a apreciação da obra arte por critérios onde o gosto interviesse. Poder-se-á fazer uma pedagogia do gosto, não mais que isso.

Em Portugal, depois dos acidentes referidos no “post” anterior, houve quem quisesse implantar uma Política do Espírito, que emergia de uma política do gosto. Foi António Ferro, personagem a ter em conta, que deve ser estudada. Ele e Duarte Pacheco eram, por assim dizer, fascistas esclarecidos. Um morreu de desastre de automóvel, outro numa gaiola dourada para onde o atiraram. António Ferro assim que se sentou na cadeira do Secretariado Nacional de Propaganda, tentou traçar o quadro de uma Política do Espírito, na base de uma política do gosto. Montou uma bem coordenada propaganda do Estado Novo. Vampirizou todas as iniciativas que considerou boas para os seus objectivos, sem se deter no quadrante político e/ou estético de que eram oriundas. Desde logo foi combatido pelos mais retrógados e reaccionários apoiantes da ditadura. São célebres as diatribes de um ogre, Ressano Garcia, presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes. As suas ideias modernistas eram fortemente combatidas. António Ferro era um homem hábil. Para sobreviver renegou a sua obra literária. Sempre com o objectivo de promover e proteger o Estado Novo teve iniciativas consideráveis. A invenção, com Leitão de Barros. das Marchas Populares tem o propósito de normalizar as associações e colectividades, focos de resistência política e cultural ao regime, impulsionadas por homens como Bento de Jesus Caraça.
A exposição do Mundo Português, onde foi procurar a colaboração de artistas e arquitectos conhecidos opositores ao regime, despoletou enormes controvérsias, mau grado o seu êxito. Uma delas foi provocada pelo pavilhão do Brasil que tinha como obra de pintura principal O Café de Portinari, uma nota extremamente dissonante da harmonia estética da representação seleccionada pela ditadura de Getúlio Vargas. Era uma pedrada pela evidência simbólica, onde figuram as representações que irão povoar a obra de Portinari, com referência óbvia a um passado esclavagista e colonial que, no essencial permanecia, com seus lavradores, com seus negros e mestiços, com suas monoculturas agrícolas, que serão sempre presentes no universo da sua produção pictórica. Uma obra insuportável para os próceres fascistas portugueses. António Ferro ficou com o destino traçado, apesar das conciliações que procurou. Um exemplo disso é o Monumento aos Descobrimentos. Numa base modernista desenhada por Continelli Telmo, foram colocadas as esculturas academizantes, embora de um academismo competente, de Leopoldo de Almeida. Um equilíbrio impossível
.

Que as políticas do gosto e suas sequelas fiquem definitivamente sepultadas com essa derradeira tentativa. Esteja-se atento aos novos e sofisticados armamentos que tentam impor o gosto por práticas de marketing, estudos de mercado, cotações das artes e todo uma arsenal, por vezes muito bem dissimulado, que surge de formas inesperadas contaminando a prática artística, seja criação ou fruição.

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