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Contra as Políticas de Gosto

magritte

Ontem, Dia Mundial do Teatro, num debate público, dos muitos que se realizaram pelo país, houve quem defendesse a existência de uma política de gosto, como quase um paradigma a ser seguido pelos poderes central e local. Tinha uma nuance, defendia uma política de gosto contra uma política de bom gosto.

É uma questão que surge com alguma frequência, que merece ser debatida.

Qualquer política de gosto, de bom gosto, de mau gosto, de gosto assim ou assado, inquina sempre qualquer política cultural que deve sobrevoar, ignorar qualquer política de gosto.

Os exemplos, a experiência bem o demonstram.

Um entre muitos exemplos. É uma política de gosto que determina, na sua origem, a programação do Teatro de São Carlos, impondo um modelo em que era dominante a ópera italiana de divertimento e representação, que acabou por se alargar ao Teatro Nacional e Normal, tramando a reforma iluminista de Garrett. Por essa política de gosto, com um fundo ideológico evidente, mesmo as primeiras representações de Wagner no Teatro de São Carlos, são cantadas em italiano e em estilo italiano. O que apesar disso, provocou um imenso debate. A música de Wagner, mesmo subvertida desse modo, não permitia a exibição de números vocais em que se apreciava mais a voz, as acrobacias da voz, o bel canto, que o conteúdo dramático, apesar da extrema exigência do repertório wagneriano. É também essa política de gosto que, em grande medida, explica porque no Teatro de São Carlos, tão rapidamente se passou dos barrocos para os românticos, sendo os clássicos tão tardiamente executados, como aconteceu com Mozart. Uma política que só foi definitivamente banida quando João de Freitas Branco assumiu a sua direcção.

Uma política de gosto é sempre corrosiva de qualquer política cultural. Sartre, nos anos cinquenta verberava as políticas de gosto, que desembocam sempre, visível ou encapotadamente, no gosto ou não gosto, sem base em análises estéticas, artísticas e sociológicas fundamentadas. Di-lo, em Qu’est-que la Literature de forma mesmo desabrida: “só a minha empregada de doméstica é que gosta ou não gosta de um romance”.

Um dia, Lopes-Graça foi publicamente confrontado com a obra de Mahler. Era conhecida a distância que o compositor tinha em relação aos românticos. Não desmentiu o que o separava dessa corrente musical, de compositores como Brahms, Lizst, Bruckner, Mahler. Citou as invectivas de Romain Rolland no Jean-Christophe, a Brahms. No fim envolveu-se numa longa e esclarecida dissertação sobre o que distinguia as interpretações de Mahler por Bruno Walter, Otto Klemperer, Hermann Scherchen, Dimitri Mitropoulos. Ficou evidente que Lopes-Graça, não gostando de Mahler, reconhecia a sua importância até ao pormenor de questionar as várias formas de o ler musicalmente. A apreciação de uma obra estava acima e além de qualquer política de gosto.

Nenhuma política cultural poderá estar sujeita a políticas de gosto. As políticas de gosto contaminam a produção de cultura enquanto instrumento de progresso da humanidade para a condicionarem como instrumento de distâncias e distinções.

A cultura, soma do fazer e do saber fazer, é sempre uma transição entre o que existe e o que se transforma seja na natureza ou no espírito dos homens. Transição constante e variável entre regulação e crescimento espontâneo por força do trabalho que a diversifica e aprofunda. Cultura é ainda um instrumento de dominação da natureza e/ou da humanidade numa sociedade que se apropria dos frutos do trabalho, de todos os frutos do trabalho, do mais banal cordel ao mais complexo poema, para deles fazer merca­dorias. Apropriação que é trave mestra do sistema de produção capitalista que aprofunda o divórcio entre o homem e a natureza, o homem e seus semelhantes, entre o homem individual e a sua individualidade. Onde a alienação corta transversalmente toda a actividade humana.

Alienação que se aprofunda gravemente quando se sujeita a cultura às oscilações do gosto. Gosto, políticas do gosto que se abismam sempre numa deriva tardo-romântica, esteticista e decadente, nos labirintos das modas, em contraponto com as concepções materialistas e racionalistas.

Italo Calvino, nas Seis Propostas para o Próximo Milénio, está sempre a questionar, directa e indirectamente as políticas do gosto, como entre muitos outros, o já tinham feito Adorno ou Walter Benjamin.

Políticas culturais não se podem sujeitar a políticas de gosto, contra o nosso próprio gosto. As políticas culturais não se podem balizar por um canon, que é o que acaba sempre por ser estabelecido por uma política de gosto. Têm que ir mais além com o objectivo de combater um gosto médio, imposto sobretudo pelos meios de comunicação social,  que nos assalta a cada esquina, promovendo  o olhar dis­traído, o ouvido distraído, a cabeça distraída que o zapping pelos média vai insidiosamente instalando. É cada vez mais necessário e urgente construir uma cultura, feita de culturas onde circulem as ideias de solidariedade e participação, onde se lute pela transforma­ção da vida e emancipação do homem, contra o discurso dominante do fim da história, por considerarem que já não se pode encarar o seu fim no sentido marxista de transformações radicais ou mesmo significativas quanto à forma de organização e de vida da sociedade humana, do fim das ideologias leia-se fim do marxismo, porque a burguesia capitalista, envergonhadamente, nunca se assumiu como uma ideologia, do fim da política, leia-se fim da política ideológica, marxista por perca definitiva do horizonte utópico.

É urgente promover políticas culturais que  lutem contra a danação de ficarmos amarrados a caminhar num espaço vazio onde tudo pode acontecer mas nada é decisivo. É urgente trazer a cultura, na sua multiplicidade e comple­xidade, para a arena da luta social e política contra o discurso domi­nante da competitividade a qualquer preço submetida aos ditames do mercado e da moda, das políticas de gosto.

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