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HERBERTO HELDER 1930-2015

Era muito jovem quando conheci Herberto Helder, em 1961. Deu-me o seu segundo livro, A Colher na Boca. No ano anterior Luís Pacheco tinha publicado na Contraponto O Amor em Visita. Ainda o comprei ao Pacheco, antes de se esgotar. Foi um deslumbramento que cresceu poema a poema até ao seu último poema publicado na Morte sem Mestre.

herbertocolher

A colher de súbito cai no silêncio da língua.

Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos

puros. E sei que não é uma flor aberta

ou a noite cercada de águas extremas.

Paro por esta monstruosa,

ingénua força. de uma morte.

– A colher envolvida pelo silêncio extenuante

da minha, boca, da minha vida.

Que faço? Bem sei como se alimenta um homem,

e tímido e arguto

alimenta a sua. irénica inspiração solar,

a inocente astronomia

de ossos e estrelas, veias e flores

e órgãos genitais –

para que tudo se construa docernente,

com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados,

sorrindo fixamente como as crianças na lírica, ‘

tenebrosa densidade da carne.

A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo,

casto; ponderado – por certo

de uma beleza confusa e evocativa.

Eis: sou um homem que instante a instante

ganhava um sabor de perene

sentido, uma duração de sombra extasiada,

laboriosa, inclinada. no grave centro

  1. primavera – a sombra

das minhas mãos.

A colher  subia como um instrumento da criação,

firme subia nos dedos

como que invocando, unindo os fragmentos

do espirito,

a mímica na sugerida integridade

da pessoa

colocada na. doce integridade do tempo.

Mas pare. Cai no silêncio da língua

a colher que era-quem sabe?-música,

intimidade, sinal fortuito

de uma. essência, de um génio interior.

O puro roer devagar roerá

a colher na mão e a boca na. colher,

e no sangue imóvel o pudor da imagem onde

coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam

assimetria festiva e sagaz das invenções.

–Cai

no s11ênc1o da llngua a colher tao brusca.

Herberto Helder é uma voz extraordinária e rara do grande e sublime mistério que é a poesia, porque, como ele escreveu, nada pode ser mais complexo que um poema/organismo superlativo absoluto vivo/apenas com palavras/apenas com palavras despropositadas/ movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes/nada mais que isso, /música,/e o silêncio por ela fora

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