Política, Setúbal

Ainda a propósito do Forte de Albarquel*

Forte-da-AlbarquelÉ feio. Digo-o assim para não dizer que é política e moralmente desonesto o que muitos escreveram e disseram sobre o Forte de Albarquel.

Veja-se como o fez, com particular gravidade, nas páginas deste jornal, Costa Ferreira, militante do PSD e, também vereador substituto na Câmara Municipal de Setúbal.

Com uma simplicidade que deixa qualquer um estupefacto, tentou criar uma realidade virtual, resumida numa narrativa simples, mas cheia de buracos. Resumidamente, Costa Ferreira defende que se o Forte da Albarquel foi cedido ao Município de Setúbal isso se deve à exclusiva vontade do Governo do PSD, porque a autarquia, essa, nem estratégia tem para salvaguardar o património.

O primeiro buraco nesta estranha narrativa é o conveniente esquecimento de que é esta autarquia a entidade que, preocupada com o património do concelho, decidiu exercer o direito de preferência na compra do Quartel do Onze, que o Estado deixou degradar e se preparava para alienar a privados. O mais curioso é que a autarquia comprou o quartel ao Estado para, imediatamente a seguir, entregar de novo aquele património ao Estado para aí se instalar uma escola de hotelaria. Será aqui que houve falta de estratégia? O engenheiro Costa Ferreira poderá, certamente, responder…

Outro buraco desta narrativa é o que se encontra quando se recorda que foi a autarquia que se substituiu ao Estado nas obras do Convento de Jesus, assumindo a parte que competia ao poder central nestas obras para que o monumento não se degradasse mais e tivesse, de facto, uma utilização condizente com o seu importante estatuto e história. Isto para não falar dos edifícios onde estão instaladas a Casa da Baía, a Casa da Cultura e da recente aquisição da Casa das Quatro Cabeças, esta também em processo de recuperação. Serão estes outros casos de falta de estratégia?

Olhemos então para o maior buraco da narrativa do militante do PSD. Defende Costa Ferreira que foi por ação do Governo que foi cedido o Forte da Albarquel e que os setubalenses “não compreenderiam que a Câmara Municipal de Setúbal não interagisse pela positiva, gerindo a situação e servindo os seus interesses”, ou seja, não seria compreensível que a autarquia não aceitasse tão generosa oferta do Governo PSD. Não se trata aqui de uma questão de saber o que apareceu primeiro − se o ovo, se a galinha − porém é importante que se esclareça o Eng. Costa Ferreira que os contactos entre a Câmara Municipal de Setúbal e o Ministério da Defesa Nacional, todos bem documentados e passíveis de serem comprovados pelas duas partes, remontam já a 2010, governava o PS.

Significa isto que a autarquia andou cinco anos, discretamente, em negociações com o Estado para a cedência do forte e para analisar outras situações de património militar existente no concelho. E finalmente conseguiu, em 2015, que fosse aprovada a cedência, a única possibilidade, já que o edifício se situa em domínio público marítimo, o que, perante a lei, impede a sua alienação.

Houve vontade, persistência e competência e, claro, estratégia. Só assim foi possível garantir este resultado final, que permitirá que, depois de recuperado o edifício, o espaço seja integralmente gerido pela autarquia para usufruto de todos.

Costa Ferreira, desinformado, vem agora dizer-nos que foi o atual Governo que desbloqueou a situação, e é verdade, mas omite que este era um processo que já vinha de outros governos, que não o seu e que é a gestão CDU no Município de Setúbal a principal responsável por uma estratégia de defesa e valorização do património que tem impedido a degradação e o abandono a que sucessivos governos tem vetado o património histórico no nosso concelho.

Na ânsia de recolher louros que não lhe pertencem, pôs-se em bicos de pés, mas acabou por cair nos seus próprios buracos. E isso é profundamente lamentável.

(Imagem)

*Texto publicado na edição de hoje do Jornal O Setubalense

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