Internacional

Eleições gregas: o regresso da política à Europa

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Escultura grega “Laocoonte e seus filhos” (I AC a DC)

A vitória do Syriza na Grécia impõe uma importante mudança nos termos do debate político europeu e constitui, para já, a esperança de que é possível mudar de rumo. Um caminho das pedras de resultados imperscrutáveis.

Porquê?

Porque, em primeiro lugar, rompe com o rotativismo partidário instalado na Grécia e em grande parte da União Europeia, que tem sido conivente com o radicalismo suicida do pacto de estabilidade (deficit e rácio da dívida), que empurrou os países do sul para a beira do caos social. Apesar de todas as pressões e chantagens a que foram sujeitos, os eleitores gregos optaram por um outro caminho.

Segundo. A vitória eleitoral do Syriza gera fortíssimas expetativas. Quão longe poderá ir o impacto das propostas de reestruturação da dívida dos novos governantes de Atenas? Tudo está em aberto neste momento, entre o que poderá continuar ser a inflexibilidade (alemã) das condições a que os gregos estão actualmente sujeitos e a ameaça de não pagamento que os helénicos podem activar.

Terceiro. A Grécia não pode estar sozinha. A já anunciada intenção de realizar uma conferência internacional sobre a dívida pública, deve propiciar uma concertação entre os países objecto de intervenções externas – Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Mas também de França e Itália, que se confrontam com pesados custos sociais resultantes das imposições do pacto de estabilidade. Países onde estão instalados governos socialistas, já sujeitos a fortes contestações e erosões eleitorais e que poderão seguir o destino dos seus colegas do PASOK.

O consenso centrista que permitiu a progressiva dominação da política e dos interesses dos povos pelos interesses financeiros e pela “mão invisível” dos mercados pode estar em causa. As eleições que se aproximam noutros países poderão vir a demonstrá-lo, com significativas alterações de equilíbrio interno. Casos de Espanha, com a afirmação do Podemos (à esquerda), e do Reino Unido e da França, com o UKIP e a Frente Nacional (à direita).

Porque ganhou o Syriza?

Os poderes dominantes da UE, sob determinante influencia alemã, decidiram castigar e humilhar os gregos, forçando o país a uma quebra do seu PIB na ordem dos 25% e a uma taxa oficial de desemprego a aproximar-se dos 30%, criando uma catástrofe social de proporções desconhecidas na Europa em tempo de paz.

Humilhadados e sem perspectivas, forçados à pobreza e à emigração, como também vemos e Portugal, os gregos responderam “dentro do sistema”, com o voto.

Foi a derrocada dos socialistas que mais propiciou a vitória do Syriza. Foi o governo PASOK quem chamou a troika e foram os socialistas quem, como segunda força da coligação com a ND agora derrotada, continuaram a suportar as politicas que tanto dano tem infligido aos gregos.

A coligação Syriza conseguiu constituir-se, sobretudo desde as eleições de 2012, como uma alternativa real e credível para protagonizar a governação. A que não terá sido alheia a sua afirmação clara de quererem ser os protagonistas. E o eleitorado grego, confrontado com a incompetência dos partidos centristas, parece tê-lo percebido.

É relevante o Syriza ter-se coligado com o Anel, um partido da Direita nacionalista? No actual contexto de emergência que se vive na Grécia, em que avulta o previsível embate com os poderes europeus sobre a questão da dívida, posição partilhada por ambos, não parece incompatível e demonstra um primado de pragmatismo que às vezes falta na Esquerda.

As diferenças políticas entre parceiros não deixarão de poder produzir algumas fricções, casos da imigração, relações entre o Estado e a Igreja ou política fiscal. Mas também se sabe o quanto o cheiro do poder cimenta as coisas. E claro que a desproporção de forças entre os parceiros e a fragmentação do espectro parlamentar funcionará a favor do Syriza.

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