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Urgências… no S.N.S. – resposta a um Amigo

URGÊNCIA

Caro Jorge Seabra,

Li com muito interesse a carta que enviaste para publicação no jornal Público, sobre um tema candente suscitado pelos intermináveis tempos de espera e outros episódios ocorridos no Serviço de Urgência do Hospital Amadora-Sintra, neste Natal de 2014.

Dás-lhe o título “Urgências…” e dizes a certa altura, não podendo eu deixar de sorrir, que “Quando os ministros da Saúde começaram a salvar o SNS, estrangulando-o e instalando a precariedade, foi preciso contratar médicos de fora, escolhendo-os entre os conhecidos com qualidade. A questão é que terminado o turno iam-se embora sem reuniões nem planeamento, com o ensino mandado às urtigas. Agora, só se podem contratar empresas”…  

Finalmente, tiras por “Conclusão: o Estado paga fortunas às empresas e há falta de médicos. As Urgências não funcionam ou funcionam mal e passaram a ser encaradas como um corpo estranho sem ligação ao Hospital ou aos Serviços. Tudo piorou.”

Acho eu, que esta desresponsabilização dos Serviços Hospitalares de Internamento, pela organização e supervisão completa do trabalho médico realizado na Urgência, tortuosamente imposta por decreto, há-de causar na alma sensível de muitos de nós, mais maduros, que exerceram a Medicina antes de 1979, que assistiram ao dilúculo e viveram o apogeu do SNS, muita revolta e algum azedume que não conseguirão (nem quererão) ocultar.

Como é sabido, a manobra insere-se na velha visão estratégica de desarticulação do SNS recorrendo à “empresarialização” dos Hospitais na forma tentada das “S.A.” de 2002, o ano da conversão de 32 Hospitais do SNS em Sociedades Anónimas.

Mandavam, nesse tempo, os mesmos que, agora, estão no poder e que, ao que vemos, não esqueceram esse ponto da agenda de então, hoje adornada com requintes neoliberais.

A coisa não resultou lá muito bem porque depois o Correia, embora concordando com o Filipe, implementou as EPEs, não fazendo logo ao SNS o que os outros pretendiam fazer-lhe, mas também não saindo de cima…

Daí que, pensaram, não sendo possível (para já) os Hospitais Públicos “virarem empresas”, que ao menos as “empresas” pudessem invadir o múnus hospitalar do SNS, apropriando-se da sua “carteira de clientes”, processo que é já hoje notável em internamentos, operações cirúrgicas realizadas, urgências asseguradas (?) e em breve, perspectivam, assim será também na formação pós graduada.

O “estado mínimo” na saúde avança a passo firme! Já se vislumbra essa situação “ideal” de um Estado pagador a um Privado prestador que presta (mesmo que não prestem…) os cuidados de saúde ao preço e nas condições que quiser.

É que, ao que parece, nem sequer se trata de “travestir” o SNS de tipo, dito, Beveridgiano num outro tipo, dito, Bismarckiano, trata-se, isso sim, de recuar mais de 100 anos e tomar de Ricardo Jorge a inspiração com que criou, em 1900, os “Serviços de Saúde e Beneficência Pública” suportados pelo Estado para tratarem pobres e indigentes, sendo o resto da população assistida em clínica privada!

Por mim, não consigo (nem quero) ocultar o azedume, mas também penso que é saudável e poderá ajudar a abandonar o caminho desastroso ora seguido, se se transformar o azedume em ironia.

Um abraço

RPR

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