Desportos Mecânicos, Paris-Dakar, Política, Sociedade Pós-Moderna

Paris-Dakar sem Paris nem Dakar

Paris Dakar

Amanhã começa o Paris-Dakar, trasladado do continente europeu e africano para a América do Sul. Tudo uma questão de marca, como quase tudo neste nosso mundo pós-moderno. Mundo mais virtual que real, nada substantivo, que vive do que nos é vendido por verdade e importante, mesmo que não tenha qualquer significado. Como tudo é cinicamente permitido, alimenta-se de eventos, de todas e cores e feitios, ocupando os promotores desses acontecimentos um lugar central na sociedade, lugar equiparável ao do baixo clero na Idade Média. São muitos e diversos os sucessos para fazer circular o sangue perverso nos corpos mórbidos das confrarias que existem, para lhe soprarem vida. São as festas glamorosas, os festivais de música pronta a ouvir e esquecer. As corridas, com ou sem recurso ás máquinas, contra nada. A política esvaziada de sentido praticada por políticos sem ideias nem ética. O quotidiano medido pelo termómetro de uma comunicação social estipendiada.

Um dos núcleos desse fastio são os desportos mecânicos. O circo de corridas de automóveis, motocicletas, camiões, o folclore a eles associado sempre me fizeram alguma impressão. Não consigo perceber o gozo que se obtém a ver na televisão uns carros inutilitários a darem voltas e mais voltas num circuito fechado que serve para muito pouco mais do que acontece naquele momento, desde que chegam até partirem. Talvez a esperança de se assistir a um desastre, sermpre espectacular, que faz voar em estilhas uns largos milhares de euros. Ver ao vivo ainda é mais incompreensível. Seguir um bólide a 200 Kms/hora ou mais, virando sempre a cabeça na mesma direcção deve acabar por provocar dores de pescoço por muitas horas. Talvez o tempo memorizável da corrida. Quem tem dinheiro para todas e quaisquer extravagâncias ainda comprará um ferrari das várias marcas expostos nessas montras, para mostrar estatuto porque não poderá andar a mais de 120Km/h numa autoestrada, velocidade que deixa o motor envergonhado pela sonolência.

Os ralies poderão talvez contribuir para alguns aperfeiçoamentos técnicos nos veículos automóveis. As marcas vendem a ilusão daqueles carros terem alguma coisa a ver com os que colocam no mercado ao nosso alcance. Além da imagem de marca ser a mesma, só muito remotamente um carro que compramos terá relação com aquelas máquinas super preparadas para suportarem, no espaço de alguns dias, um sobreuso que nenhum dos utilitários dos comuns mortais enfrenta em muitos anos de uso.

07_tuaregues_berberes_camelos_dunas

De todos os ralies, o mais extravagante é o Paris-Dakar. Uma maratona a percorrer desertos, atravessar aldeias cujas casas e habitantes ficam submersos pelo som e o pó da areia levantada em turbilhões por sucessivas máquinas trovejantes que as atravessam sem ver mais nada que não seja a meta que fica lá longe, a dezenas,centenas de quilómetros, é de uma crueza brutal. O gasto com a preparação de um só veículo, com os tripulantes, equipa de apoio, combustível, sobressalentes, etc, deve ser o suficiente para alimentar os indígenas durante mais de um ano.

Provavelmente, os custos da organização no apoio médico, por terra e ar, aos concorrentes que se acidentam, também deverá ser o bastante para garantir serviços sanitários mínimos a todas as terras marcadas nos mapas do ralie.

Algumas notícias, pelo seu insólito e barbaridade, causam estupefacção. Numa edição qualquer do Paris-Dakar, a cegueira de um condutor em atingir os seus objectivos foi tal que conseguiu a proeza de, no meio daquela enorme solidão, atropelar e matar um dromedário. Para nós, leigos que conhecemos o deserto por o ter visitado ou simplesmente pela intermediação fotográfica, é um acontecimento que nos deixa atónitos. Como é possível naquela imensidão acertar num dromedário? Só não é caso que provoca riso porque pensamos imediatamente no prejuízo causado a um tuarege ou a uma tribo de tuareges e no pobre animal de passo pachorrento que, de repente, vê um objecto extradeserto atirá-lo pelos ares até à morte.

Com acontecimentos desses, com o rasto de dinheiro cremados no ralie perante populações no gume da sobrevivência, pela poluição provocada, o Paris-Dakar começou a tomar medidas de relações públicas que acalmem os sentidos universais e lhes dão a consolação beatífica que um pecador dos mais contumazes obtém na confissão.

Em 2008, por razões de segurança, dada a instabilidade política em vários países africanos, a prova foi cancelada. Em 2009 foi transferida para a América do Sul. Teve várias versões com base no deserto andino. Coincide com essa alteração as preocupações da organização do Paris-Dakar com situações sociais e ambientais. A América do Sul não é África. Já iam corridas quase quarenta edições, o negócio prosperava a olhos vistos A miséria na América do Sul continua a ser miséria, mas como a miséria é um valor relativo, apesar de tudo há algumas diferenças em relação à miséria da África subsahariana, tiveram um sobressalto social e ambiental.

No “site” oficial do Paris-Dakar 2015, destacam o milhão de dólares que desde 2009, cerca de 170 mil dólares/ano, a organização e os seus concorrentes cooperaram com acções de inserção social, programas de alfabetização, equipamentos informáticos e um abragente e etc. Refere que foram construídos 300 alojamentos de recurso, colaborando com a associação “Un Techo”. Como o total de emissões directas de CO2 está calculado em 15.500 toneladas, a sociedade Paris Dakar paga 460 000 dólares ao projecto ambiental e social “Madre de Dios” desde 2011. Gotas de água nos custos e nos lucros da organização. Considera que isso salda as emissões de carbono e outros danos ambientais colaterais. As consciências ficam tranquilas e podem aventar nuvens de areia dos desertos sem mais questões. No meio desses feitos sociais e ambientais do Paris-Dakar, agora ao som das flautas andinas depois de arrancar dançando o tango, há uma referência a um cidadão do Qatar, Nasser Al Attiyah, que no ano de 2012, abriu os cordões à bolsa para doar mais 100 000 dólares a esse esforço feito pela organização do Paris-Dakar. Quem será esse benemérito tão preocupado com o ambiente e os dramas sociais causadas por essas correrias todo o terreno, quase nos antípodas do seu país? Quais serão as suas relações com os “donos” do ralie, para merecer tal destaque? Mistério que um dia se resolverá. Se calhar, uma hipótese não mais que uma hipótese dada a participação activa do Qatar nos últimos incidentes no Médio Oriente, tão eminente benemérito tem a mesma largueza com as armas que equipam os mercenários que lutam pelo fundamentalismo islâmico depois de terem lutado pela liberdade e a democracia que o Qatar desconhece.

caravan-in-the-desert

Outras são as curiosidades de primeiro plano no Paris -dakar. A adrenalina, o espírito de aventura é vendido aos bocados em pacotes VIP, com um valor que varia entre os US$ 3590 e os US$1590, ou US$250 lugares de bancada para os menos abonados, mas sequiosos da sua dose para assistir às partidas e chegadas, em lugares que dão “acesso privilegiado e direito a momentos de cortar a respiração, à quase intimidade total com o pódio e as mangas de partida”. O programa VIP contempla acompanhamento de proximidade da organização. Deve ser com aquelas meninas em minisaia ou calções, chapéu de sol para os VIP não queimarem as moleirinhas. Também garante momentos de repouso, deve ser para não sofrerem uma sobredose de adrenalina e puderem gozar placidamente a proximidade desses gladiadores modernos a desafiar os limites do triunfo de mais uma das grandes insignificâncias dos nossos tempos, que são a sua falta de sentido e o tédio que alastra.

Advertisements
Standard

One thought on “Paris-Dakar sem Paris nem Dakar

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s