Actual do Expresso, Artes, Balanço Música 2014, Cultura, Jorge Calado, Música Sinfónica

UM BALANÇO DO ANO MUSICAL PARVOIDE

Claudio Abbado, um dos grandes maestros de sempre que nos deixou em 2014

O balanço de Música Sinfónica, Actual/Expresso de 27 de Dezembro, termina com “ uma nota positiva a duquesa de Cambridge revelou, na sua recente visita a Nova Iorque, que o príncipe Georges, de dezassete meses, gosta de música sinfónica.” Seria uma ironia, até com bastante picante, não fosse o tom do restante texto que torna essa nota credível colocando aquele cômputo no nível indigente das revistas glamorosas.

Num balanço de um ano musical não deixa de ser extraordinário que cerca de um terço seja ocupado com obituários e só em mais ou menos um quarto haja referências de facto relevantes: “a Orquestra Sinfónica do Porto se afirmar com uma programação digna. A Música da Gulbenkian regressou ao Grande auditório (bem ) renovado, mas parece ter perdido algum público. A Casa da Música presta atenção à música do nosso tempo ( parabéns a Unsuk Chin), e os Músicos do Tejo continuam activos. Estrearam-se óperas de Eurico Carrapatoso e Vasco Mendonça e a Naxos grava música portuguesa.” È tudo, deixando-nos ficar curiosos por saber qual a música portuguesa que a Naxos está a gravar. Quem tem essa informação deve ter outras de interesse como que música portuguesa está a ser gravada, quando se prevê o lançamento do disco ou dos discos, para estarmos atentos.

Tirando isso, o texto volta ao tom Caras/Nova Gente com que fecha. Uma referência a Pinamonti, elogiado largamente para o fazer vitima da intriga que qualquer português sofre, o não poder celebrar contrato com entidades públicas quando se tem uma dívida com a Segurança Social que ascende a dezenas de milhares de euros. Qual o passe de mágica, o truque rasca que permitiu à OPART fazer um contrato de consultoria fora da lei com esse senhor? Isso o articulista não esclarece enterrando a falcatrua debaixo de “uma programação de qualidade após meia dúzia de anos de vergonha”. Com ou sem qualidade, ninguém tem qualidades acima da lei. Amigos, amigos trapaças à parte.

A seguir o tom piora. Começa por largar um dogma: “a política contamina as artes”. Pode contaminar mas alguma vez a arte não teve a ver, de forma directa ou oblíqua, com política, religião ou sexo, mesmo quando se afirmava ou afirma ter como único e exclusivo objectivo explorar a forma expurgada de qualquer conteúdo? Haja senso.

Claro que era gato escondido com rabo de fora, trombeteando a chegada da Nau Catrineta com histórias de aparvoar. Georgiev é “compincha de Putin”. Estão a ver o malandro “compincha de Putin” em vez de ser compincha do prémio Nobel da Paz Obama, que já bombardeou sete países, que apoiou e co-financiou os combatentes da liberdade que lutavam pela democracia na Síria, liberdade e democracia que agora praticam activamente no Califado Islâmico, com o amigo norte-americano a assustar-se, mas sem razão para ficar surpreendido. Quem acalanta ovos de serpente não pode alegar surpresas. Por ser “compincha de Putin” “há artistas, (Mattila, por exemplo) que se recusam a trabalhar com ele”. Ele há artistas que os têm no sítio!!! Se calhar já estiveram em Itália a ser aplaudidos por Berlusconi, ou nos EUA a cantar e a conviver com Bush e Cheney, enquanto em Guantanamo verdugos às suas ordens torturavam sem que isso provocasse uma nota em falso a esses artistas. Coerência acima de tudo, nada de trabalhar com esse maestro sem vergonha. Para o quadro ficar completo a “A. Netrebko sofre opróbrio de ter doado um milhão de rublos à ópera de Donetsk e de ter sido fotografada com a bandeira separatista da Ucrânia.” Não querem lá ver a serigaita da russa a apoiar os russos e as populações russófonas do leste da Ucrânia? Devia é de ter ido a Kiev cantar e comover-se com as declarações de Petro Poroshenko, que tem por aliados de demo liberais a nazis confessos :“Nós teremos nossos empregos. Eles [os habitantes do Donbass] não terão. Nós teremos nossas pensões. Eles não terão. Nós cuidaremos das crianças, do povo e dos aposentados. Eles não. Nossas crianças irão para escolas e infantários. As suas esconder-se-ão em buracos nas caves (por causa das nossas bombas). Isto é exactamente como venceremos esta guerra até que se submetam” Isto é, vamos torná-los famintos, aterrorizá-los, matá-los. Actua em conformidade como se assistiu no massacre de Odessa, como lê em vários relatórios dos insuspeitos inspectores no terreno da OSCE, que registam os inúmeros e continuados crimes de guerra cometidos pelo exército ucraniano, as milícias nacionalistas, um eufemismo ocidental para não lhes chamar o que são nazis, e os mercenários da Blackwater, que combatem os separatistas.

Tenhsa vergonha Jorge Calado!!! Envergonhe-se, se ainda lhe resta alguma!!!

Provavelmente, de um ano para o outro os celebrados  Anna Netrebko e Valery Georgiev vão começar a ser ostracizados, com criticas a assinalar a sua perca de qualidades a caminho da banalidade. Serão críticas sisudas e empertigadas acima de qualquer suspeita política. Cá estaremos para ver e ler. Sem ênfase alguma, sem adjectivações, o articulista ainda tem uma linhas para registar que o lobie judaico pressionou o Met de Nova Iorque, e conseguiu que as transmissões da ópera “The Death of Kinghoffer” de John Adams, fossem canceladas. Coisa de somenos, por ser habitual na pátria da democracia.

Como balanço de uma ano musical o Actual ficou ao nível, exceptuando as referências escassas citadas que no contexto até ficam desajustadas, dos tablóides mais medíocres.

Façam-me um favor! Façam-me uma surpresa!! Façam-me uma revelação!!! Digam-me que aquilo caiu no Actual do Expresso por empastelamento tipográfico. Que aquele Jorge Calado é homónimo do outro Jorge Calado. Que este Jorge Calado, ultramontano e intelectualmente sofrível, não mais se fará passar pelo outro e nem sequer é seu sósia.. Que o Jorge Calado habitual está de boa saúde, não sofreu nenhum acidente incapacitante, e volta para o ano.

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