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SADE, O DIVINO MARQUÊS

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Faz hoje, 2 de Dezembro de 2014, 200 anos sobre a morte de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade. Em Paris, uma grande exposição temática no Quais Branly,organizada por Annie Le Brun, que se assume como uma sadiana ferrenha, assinala esse duplo centenário. Sade  “era um vanguardista visionário fora do seu tempo –estava para lá de muitos tempos vindouros ao da sua própria existência – ,infernante, sem dúvida, o senhor marquês de Sade vivia à revelia das leis e dos costumes, mais libertário que revolucionário, filósofo e panfletário, escritor ‘vasto’ e polivalente, possuidor de fervilhante imaginário mais do que exclusivo praticante dos sugestivos e radicais quadros que (d)escrevia, jamais oportunista, por excessivas que fossem as suas divagações e os seus conceitos.” escreve António Loja Neves, em Sade Divino,Diabólico, num excelente artigo publicado no Actual do Expresso do passado sábado.

Sade foi vitima de si-próprio acabando por ser maltratado por leituras superficiais, mesmo folclóricas. O que aqui nos Interessa-é o lado,o carácter político da sua obra que Pasolini utilizou com grande saber em Saló ou os 120 Dias de Sodoma, um filme perturbante que dá dimensão política às perversões que Sade designa como paixões, das paixões simples às complexas, desencadeadas pelo perverso como Sade o descreve nos 120 Dias, que afecta sujeitos que são classificados como “criminosos de luxúria” que se entregam à “morte por devassidão”. Bataille, referido por ALN, comenta Os 120 Dias de Sodoma dizendo: “Ninguém, a não ser que seja surdo termina os Cento e Vinte Dias de Sodoma sem estar doente. E o mais doente é certamente aquele a quem esta leitura enerva sensualmente.” Pasolini sublinha até ao limite esse mau estar doentio com cenas de uma intensidade insuportável, que conta a história de um grupo de jovens que, nessa região da Itália , último reduto de Mussolini, durante o outono europeu de 1944 são selecionados por quatro dirigentes fascistas para serem o objeto de uma série de torturas e experimentos sádicos, ao longo de 120 dias. Um filme que é uma leitura intencional do Sade político.

Sade que viveu a Revolução Francesa, primeiro como activo actor depois como vítima acabando por ser condenado á morte de que escapa em última instância, estabelece a tese de que na Revolução há um período de explosão colectiva que desarmadilha todas as transgressões, onde tudo é possível, enquanto as instâncias morais, religiosas e políticas do regime anterior se esvaziam, abrindo caminho para a libertinagem que estava submersa nessa sociedade decadente . A desagregação sobrevive paradoxalmente à desagregação, integrando-se no processo de recomposição social. É aqui que Sade se separa da Revolução, de Marat. Danton e Robespierre que tinha proclamado no processo do rei: “Quando uma nação foi forçada a recorrer ao direito de insurreição reentra no estado natural em relação ao tirano. Como poderia ele invocar o pacto social? Ele aniquilou-o. A nação pode conservá-lo ainda se, no que diz respeito aos cidadãos, o achar proveitoso, mas a tirania e a insurreição têm como consequência o rompimento total com o tirano, têm como consequência constitui-los reciprocamente em estado de guerra. Os tribunais, os processos judiciários são feitos para os membros da cidade.”

Sade demarca-se desse discurso de Robespierre contrapondo o discurso do Cavaleiro Dolmancé, na Filosofia de Alcova (*) num encarte com o título: “Franceses, mais um esforço se quereis ser Republicanos”(**). Sade questiona. Tribunais? Processos judiciários? Vós que vos revoltaste contra a iniquidade porque, para vós a iniquidade era ser excluídos da prática da iniquidade, revoltando-vos contra a iniquidade, haveis renascido através da iniquidade, pois mataste vossos senhores, como vossos senhores haviam matado Deus na sua consciência. Para vós, a justiça, a não ser que reentreis na servidão, só pode consistir na prática comum da iniquidade individual. É essa a tese que Sade quer demonstrar no referido panfleto.

São dois capítulos, um sobre a religião, outro sobre os costumes. No primeiro Sade, dedica-se a socavar a sociedade teocrática do antigo regime, afirmando que o cristianismo deve ser rejeitado porque as suas consequências sociais são imorais, só o ateísmo pode garantir uma base ética à educação nacional, pelo que desenvolve uma curiosa argumentação: “Ensinai-lhes a prezar as virtudes de que mal se falava dantes e que, sem as vossas fábulas religiosas, bastam para a felicidade individual. Fazei-lhes sentir que essa felicidade consiste em tornar os outros tão felizes quanto nós próprios o desejamos ser. Se assentardes estas verdades sobre quimeras cristãs como tivestes a loucura de fazer, mal os vossos alunos tiverem reconhecido a futilidade de tais bases farão desmoronar o edifício e tornar-se celerados, julgando que a religião que derrubaram lhes proibia que o fossem. Fazendo-lhes sentir, pelo contrário, a necessidade da virtude, unicamente porque a sua felicidade depende dela, serão honestos por egoísmo, é essa lei que rege os homens, será sempre a mais segura de todas.”

Princípios de um materialismo positivista que se resolve no livre jogo das paixões, como postula no segundo capítulo. Tornar os outros felizes como nós próprios “não é amar o próximo como a si mesmo” porque isso é contra as leis da natureza e “só ela deve dirigir as nossas leis” Quais são essas leis para Sade? A comunidade das mulheres para os homens e dos homens para as mulheres. Dos filhos para os torna instrumentos da devassidão. Acabar com a família, claro com a excepção que a confirma o incesto. A República, segundo Sade, deveria consagrar esse estado de coisas. A imoralidade da vida na antiga monarquia devia ser consagrada pela República. A calúnia, o roubo, a violação, o incesto, o adultério, a sodomia (prática sexual central para Sade porque indiferencia os sexos) não deviam ser sancionados porque “a insurreição não é um estado moral; deve, portanto, ser o estado permanente duma república. Assim, seria tão absurdo quanto perigoso exigir áqueles que devem manter a perpétua agitação imoral da máquina que fossem seres morais, porque o estado moral de um homem é um estado det ranquilidade e de paz, o seu estado imoral é um estado de movimento perpétuo que o aproxima da insurreição necessária, na qual é preciso que o republicano mantenha o governo de que é membro”.

Sade, com esta visão de uma sociedade em estado de permanente imoralidade apresenta a sociedade como uma utopia do mal, introduzindo na sociedade um movimento perpétuo, num estado de imoralidade permanente, num estado criminal permanente, que a conduz fatalmente para a sua destruição. Ultrapassar Ni Dieu, ni Maitre para perverter o instinto político, o instinto de conservação da colectividade. Essa é a moral do libertino em Sade que caminha para a sua própria destruição, praticando a monstruosidade, a perversão integral que tens os seus mestres que se reconhecem entre si e escolhem os seus discípulos. Moral libertina que em Sade se distingue da imoralidade tradicional da literatura libertina que o é por se encerrar em círculos marginais à sociedade. Sade, no pólo oposto, introduz a licenciosidade no mundo quotidiano, no próprio núcleo das instituições, na vulgaridade do quotidiano, generalizando a libertinagem. A transgressão torna-se num movimento perpétuo que percorre a banda de mobius infinitamente para conservar a sua energia. Há-de corroer a sociedade até a fazer desaparecer num buraco negro que a engole e com ela todas as perversões. Mesmo o ateísmo proclamado por Sade é uma máscara que usa por comodidade acabando por o desacreditar tanto como desacreditou a religião. Essa uma das muitas originalidades de Sade, um iconólatra de si-próprio que daqui a vários séculos continuará a ser discutido. Honra e desonra do Divino Marquês.

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(*) A Filosofia de Alcova / Marquês de Sade, 2ª edição Edições Afrodite, tradução de Manuel João Gomes, capa e ilustrações de Martin Avilez ( a 1ª edição foi apreendida, o editor Fernando Ribeiro de Mello, António Manuel Calado Trindade, Herberto Helder, Luiz Pachecoi e João Martins Rodrigues foram arquidos num processo julgado no Tribunal Criminal de Lisboa)

(**)Págs 183 a 245 da edição mencionada

As ilustrações foram seleccionadas da edição em referência

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