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Jordi Savall, Cultura e Cidadania

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Amanhã a Catalunha vai votar se quer ser um Estado Independente. Um novo país independente ou um país estado independente federado com a Espanha, as duas perguntas são :“Quer que a Catalunha seja um Estado?” E, em caso afirmativo, “Quer que esse Estado seja independente?”, ou permaneça com o estatuto actual que, em resultado dessa consulta, tudo aponta não ser igual ao que vigora. As aspirações catalães à independência são muito antigas. Basta lembrar que em 1640, a Espanha confrontrou-se com duas lutas pela independência, Portugal e Catalunha. Não podendo acorrer eficazmente aos dois lados, um no extremo ocidental outro no extremo oriental da península Ibérica, a monarquia espanhola saiu derrotada em Portugal e vitoriosa na Catalunha.

Esta semana esteve em Portugal um catalão que é um dos grandes músicos de sempre, Jordi Savall. Um catalão convicto que vai votar esteja onde estiver como afirmou. Para lá dos concertos, sempre memoráveis, Jordi Savall, falou com a comunicação social. Uma conversa interessantíssima, que deve ser lida.

O seu pensamento sobre a música, sobre a prática da música, composição e interpretação, recusa liminarmente a arte pela arte, afirmando que “quando a música é só estética, acaba-se em Auschwitz”. Está em linha com Walter Benjamin(*) e todos os que defendem a arte em conflito e unidade com a sociedade. A sua autonomia e a sua dependência dos momentos históricos em que se realiza. Jordi Savall afirma a importância da arte e da cultura como valores de cidadania, dando à música um papel central. “A música é que dá sentido ao ser humano”(…) sem a música não nos poderíamos entender, ela dá sentido às palavras”. O contrário dessa música de consumo, internacional nos sentimentos e anglo-saxónica na forma, pronta a usar e a esquecer, que inunda a comunicação social, com relevo para a rádio e a televisão. Sublinha “as músicas populares que são as que melhor definem a história de um povo e as que têm mais emoção”(:..)músicas que sobreviveram ao esquecimento e ajudaram os povos a sobreviver isso é o que lhes dá força e beleza ainda hoje”. Fazem parte da cultura dos povos. Esse saber e saber fazer, de que a arte é parte importante, sempre em luta contra a alienação da democracia espectacular, o totalitarismo mais acabado, um modo de repressão de fachada democrática, que as atira para o esquecimento, as apaga nas estantes das ultra minorias sonoras.

Jordi Savall explicou as razões da recusa em receber o Prémio Nacional da Música, atribuido pelo Ministério da Educação, Cultura e Desporto. A recusa nada teve a ver com a situação que se vive na Catalunha mas com uma razão de fundo que têm tudo a ver com as políticas culturais. “Foi para dizer em voz alta o que sempre disse: Espanha não se preocupa com a música, com os músicos, não trata do seu património musical. Há falta de interesse”, (…)“Quando me atribuíram o prémio fiquei contente. É um prémio bonito, e ainda vem acompanhado por 30 mil euros, mas depois pensei como posso aceitar o prémio de pessoas que durante anos se esqueceram da música?

Uma lição de dignidade e coerência aos que por cá não se importam de receber prémios em silêncio envergonhado ou com discursos ditos civilizados por quem anda a destruir conscientemente a cultura ou a ser seleccionado e condecorado por um Presidente da Republica que foi primeiro ministro de um governo que censurou Saramago e João César Monteiro, que negou a pensão à viúva de Salgueiro Maia e a concedeu a pides/dgs Enfim, cada um é como quem é, a tentação comendadora de ter o brilho de uma medalha ao peito é muita, embora seja uma decisão bem mais fácil, se não apagarem a memória, que a de Jordi Savall. Maria Teresa Horta fê-lo. Alexandra Lucas Coelho, também o fez de outro modo, ao receber o prémio da APE, com discurso contundente.

Regresse-se a Jordi Savall, à música, a Espanha. Assinale-se o referendo catalão, com a forma possível com o enquadramento de uma lei herdada do franquismo. Ouçam o sempre extraordinário e surpreendentre Jordi Savall que, com Montserrat Figueras, fundou os grupos de música antiga La Capella Reial de Catalunya, Le Concert des Nations e Hespèrion XXI, referências no mundo musical.

(*)Fiat ars—pereat mundus, diz o fascismo que, como confessou Marinetti, espera da guerra a satisfação artística da percepçãoi transformada pela técnica. Trata-se vsivelmente da consumação da arte pela arte. A humanidade que antigamente , com Hopmero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, tornou-se objecto dfe contemplação de si-própria. A alienação de si próp+ria atingiu o grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. È assim a estetização da política praticada pelo fascismo. O comunismo responde-lhe com a poplitização da arte.

A Obra de Arte na Época da sua Possibilidade de Reprodução Técnica, Wlater Benjamin, in A Modernidade, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, edição e tradução de João Barrento, Assírio e Alvim, 2006

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3 thoughts on “Jordi Savall, Cultura e Cidadania

  1. Fernanda Paixao dos Santos diz:

    lindissimo tambem o album “Istambul” de tradicao sefardita e Armenia.Sei que foi gravado ao vivo em Fevereiro de 2009, Recomendo.

    Saudacoes outonais

    Maria Crabtree

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  2. Pingback: Jordi Savall, Cultura e Cidadania | O Retiro do Sossego

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