Geral

Há vidas assim

CHORO-011

Fernanda permanece de pé, colada ao chão, alheia a tudo o que a rodeia, com pensamentos a encalhar em recordações que a perturbam e que por descuido ainda não estão arquivados em gavetas do seu passado.

Apesar de não querer revê, de modo fugidio e em velocidade acelerada, todas as vicissitudes por que passou nos últimos três anos; falta de trabalho, de comida, atrasos no pagamento da renda… e tantas coisas mais. Uma lágrima furtiva escapou-se-lhe dos olhos e deslizou ao longo da cara.

Os sonhos guarda-os num saco de plástico, de baixo da cama, junto a outras tralhas que, desde então, aí permanecem esquecidas.

Sente-se cansada, quase por terra, vencida.

Tem a noção de que não anda a descansar o suficiente – as noites mal dormidas não têm conta – e as últimas atribulações da vida estão a tornar os pensamentos imperfeitos, nebulosos, tal como acontece a qualquer aguarela deixada à chuva.

Adormecer, num sono sem sonhos, embalada num qualquer devaneio que a arrede das angústias que tanto a atormentam, é o que mais queria. Na angústia não há dor. A dor é uma entidade que se localiza e se combate. A angústia, pelo contrário, não se localiza, alastra-se a todo o corpo e é tão ou mais dolorosa que a dor… e só o tempo a amaina.

Há muitas vidas assim… e há quem não queira ver.

Advertisements
Standard

2 thoughts on “Há vidas assim

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s