Cultura, Geral, Literatura, Livros

Um livro de vez em quando

 

 

anoiterodaNoite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé.”

O que acontece ao amor quando irrompe por num cenário de conflito, objecto de reportagem jornalística? O que acontece ao trabalho jornalístico quando é invadido pela paixão? No romance, a cronologia é subvertida pela geografia dos lugares por onde, Ana e Leon, protagonistas da história de amor narrada por Ana, transitam por urgências e exigências profissionais. O cenário é Israel e Palestina. O sucesso a morte de Arafat, as ressonâncias antes e depois.

Nessa geografia real, os mapas da paixão vive de encontros de intenso enamoramento erótico e de desencontros em que as distâncias são preenchidas por sms e e-mails, discurso amoroso da era digital. As cartas de amor são ridículas ou não seriam cartas de amor, escreveu Pessoa. Os e-mails e sms não escapam à vulgaridade. “Isto está mesmo a acontecer-me? Um folhetim de cordel, uma opereta” (…) “A realidade é sempre má ficção” regista com violência Ana. Sabemos, logo na primeira página do romance, que a paixão entre Ana Blau, jornalista catalã, sem relacionamento conhecido e Leon Lannone, também jornalista, belga, casado, com três filhos, família a viver em Bruxelas tinha chegado a seu termo. “Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece”, Leon tinha desaparecido há quatro anos. A história persiste para lá desse desaparecimento. A história procura fazer sobreviver a história de amor entre reportagens, narrativas de viagens, sms e e-mails com canções de Brel, Sigur Rós, Leo Ferré, versos de Elliot, Kavafis, citações do Gilgamesh, Lawrence Durrell, Dylan Thomas. Ver Saraband de Bergmann, ouvir um concerto dirigido por Barenboim em Ramallah, com a sua orquestra de jovens israelitas e palestinianos. Um arquipélago de referências.

Um belíssimo romance de amor, onde duas geografias, a real e a da paixão, obstinadamente se cruzam. Onde nos reconhecemos em fragmentos, neste ou naquele incidente do trânsito amoroso, como se o tivéssemos vivido num outro ponto do mapa.

“Há sempre qualquer coisa que está a acontecer. qualquer coisa que eu deva resolver, eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho. porquê não sei, mas sei que essa coisa é que é linda.”

 

_publicado no Guia de Eventos de Setúbal/ Julho-Agosto 2014

Anúncios
Standard

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s