Geral, Jazz, música

Charlie Haden, um contrabaixo para a história do jazz

Charlie Haden, morreu sexta-feira em Los Angeles, aos 76 anos. É um dos maiores contrabaixistas da história do jazz.
Foi um dos músicos mais eclécticos do jazz, indo das formas mais clássicas às experimentações que abriram novos caminhos a esse género de música, sem nunca se render a estereótipos, nem se acomodando a estandardizações.
Iniciou a sua carreira de músico com Hampton Hawes, um dos mentores do bebop, enquanto frequentava a Westlake College of Music, onde se encontrou com Paul Bley e Art Pepper.
Poucos anos depois fez parte, com Don Cherry, trompete e Ed Blackwell, bateria, do Quarteto de Ornette Coleman, sax alto, que virou o jazz do avesso. Célebres os álbuns The Shape of Jazz to Come e Free Jazz, A Collective Improvisation, em que dois quartetos tocam em simultâneo, duas longas performances.

Participaram nessa gravação nuclear do nascente free jazz, além dos citados Eric Dolphy, clarinete baixo, Freddie Hubbard, trompete, Scott La Faro, contrabaixo e Billy Higgins, bateria. Parceiros que ficaram para a vida e para história do jazz na exploração dos sons de vanguarda.
.As suas parcerias no jazz multiplicaram-se. Integrou com Dewey Redman (sax) e Paul Motian (bateria) o célebre quarteto americano de Keith Jarrett. Tocou com muitos outros destacados músicos de jazz como Jack DeJohnette, Hank Jones, Kenny Barron, Jan Garbarek, Geri Allen, Chet Baker, Enrico Pieramunzi ou Gonzalo Rubalcaba. Andou pela chamada música de fusão com Egberto Gismonti ou Pat Metheny. Experimentou outras músicas com Rickie Lee Jones (Pop) ou Carlos Paredes com quem gravou em 1990 Dialogues.

Aliava o fulgor instrumental à militância política. Revolucionário com o seu instrumento, revolucionário nas suas opções políticas. Com Carla Bley fundou a Liberation Music Orchestra que, no seu primeiro disco celebrou a Guerra Civil de Espanha e, mais tarde, em The Ballad of the Falhem, de novo impulsionado pelo afã de experimentação e o compromisso político de esquerda, toca La Passionaria e Grândola de José Afonso que cruza com o tema da palavra de orden O Povo Unido jamais será Vencido.

A primeira vez que veio a Portugal, em 1971 no 1º festival de Jazz de Cascais, integrando o quarteto de Ornette Coleman, introduziu o tema Canção para Che, o que já era uma provocação à ditadura, dedicando-o aos Movimentos de Libertação de Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde O Pavilhão de Cascais, primeiro sem quase acreditar no que ouvia e depois a perceber perfeitamente o protesto, aplaudiu freneticamente.
Charlie Haden, contaria mais tarde no programa Democracy Now, que só tinha decidido vir a Portugal, exactamente pela oportunidade que teria de fazer um protesto público contra o fascismo e o colonialismo. Não perdeu essa oportunidade pondo o pavilhão em polvorosa, aplaudindo e gritando palavras de ordem pela liberdade e contra a guerra colonial.

Charlie Haden foi preso pela PIDE. Por intervenção do adido cultural dos EUA, foi colocado na fronteira. Só voltaria a Portugal depois da Revolução do 25 de Abril para tocar na Festa do Avante! num célebre concerto. Voltaria, com diversas formações, para integrar os programas do Jazz em Agosto na Gulbenkian e novamente Cascais.

O último disco que gravou com Keith Jarrett, editado em Junho deste ano, foi premonitoriamente intitulado Last Dance.

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One thought on “Charlie Haden, um contrabaixo para a história do jazz

  1. Fernanda Paixao dos Santos diz:

    Acabo de ler o obituario no ” The Independent” e recordo a ultima vez que o ouvi no Royal Festival Hall com Keith Jarrett. Parece-me que te enviei o programa na altura. Assim o espero

    Vou agora OUVIR o teu blog.

    Um abraco

    Fernanda

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