Cultura, Geral, Literatura

Um Livro de Vez em Quando

ImagemO HUMOR EM CARNE VIVA

Donald Barthelme, considerado um escritor central na literatura pós-moderna, era desconhecido entre nós até a Antígona ter publicado “40 Histórias”. Barthelme escapa a qualquer catalogação.. Deliberadamente multiplica a variedade de estilos e temas, registos e colagens, mordacidade e farsa, enfim todo um arsenal que, em Barthelme, explode em todas as direcções. Mestre do conto curto é desconcertante, mesmo perverso. Surpreende, é sempre imprevísivel. São abissais as diferenças entre narrativas, porque o “barthelismo”, como foi classificado, rasga convenções, perturbando–nos e perturbando os géneros e canones literários. São 40 contos capazes de demonstrar como a ficção pode ser infinitamente manipulada. Se em “A tentação de Santo António” a estrutura clássica é assumida, em “Sindbad” ou “Acerca do Guarda-Costas” a sobreposição de imagens, a fragmentação das falas narradas, só no fim fica esclarecida ou acrescenta uma perplexidade abrupta. As suas histórias são estonteantes, quase sempre hilariantes. Como quando os porcos-espinhos invadem a universidade, o que alarma o reitor porque era “impossível matricularem essa quantidade de porcos-espinhos numa universidade de uma hora para a outra” e porque o curso de Vidas Alternativas já tinha gente a mais, ou em “Chablis” onde cenas da vida conjugal são satirizadas para revelarem a sua importância na sobrevivência desse estado. “No Museu Tolstoi” e “A Fuga dos Pombos do Palácio”, manchas gráficas e desenhos integram-se no corpo do texto. “Frase” são nove páginas sem um único ponto final, nem sequer quando o texto termina, para o leitor percepcionar o fluir da consciência. De figuras históricas como Tolstoi, Klee ou Freud ao Barba-Azul, piratas, fadas, porcos-espinhos, guarda-costas, maridos e mulheres, todas são sujeito das acções mais inopinadas: “Ah, eles divertiram-se imenso a fazer os exercícios, e nós dissemos-lhes para baixarem o traseiro enquanto rastejavam por baixo do arame, o arame era feito de citações em cadeia, Tácito, Heródoto, Píndaro…” (em A Experiência Educativa)

*publicado no GUIA de EVENTOS de Setúbal

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