História

Vasco Gonçalves, o Silenciado

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Agora que muita poeira assentou destas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril vale a pena reflectir sobre o muito (ou pouco) que se recordou ou disse sobre o 25 de Abril. Longe de mim pôr em causa tudo o que foi feito por uns e por outros num esforço que se deverá louvar. Confesso que não ouvi nem vi tudo o que se fez sobre esse dia que está gravado no coração e no pensamento de milhões de portugueses, mas houve alguém que foi praticamente esquecido nesse turbilhão de reposições, de entrevistas e coisas que tais.

E, por isso, saio à liça em sua defesa: Vasco Gonçalves.

Ele está bem vivo em muitos e muitos portugueses que sabem o quanto foi valoroso esse militar de Abril, traído até mesmo por camaradas do MFA que não deixaram de usar métodos ínvios para o afastar do poder.

Certamente que todos aqueles que o recordam na sua forma simples de explicar o complicado e, sobretudo, na sua luta pela melhoria das condições de um grande maioria de um povo amordaçado, explorado e brutalizado por um regime que não poupou todos os que se ergueram firmes contra ele e abnegadamente lutaram e esclareceram, perdendo vidas por morte, desemprego, emigração, por afastamento daqueles que amavam e que sob torturas cruéis também morreram.

Vasco Gonçalves, o único 1º ministro a quem o povo trabalhador tratou simplesmente por Vasco, por companheiro Vasco, naqueles tempos em que sonhar o impossível era uma realidade a concretizar.

Quero aqui recordá-lo e prestar-lhe a minha singela homenagem ao homem simples, generoso, coerente e leal. Ao político, ao estadista, ao militar faço uma vénia de genuína admiração. Recordo aqueles momentos tormentosos provocados pela grande burguesia apeada do seu poder a resistir, a provocar dificuldades e a gerir a contra-revolução logo iniciada em 25 de Abril por um general de luneta que pouco tinha de revolucionário no sentido mais amplo do termo e, muito menos, no sentido mais estrito.

Vasco Gonçalves não foi esquecido e nunca o será, porque um dia o silêncio que o rodeia terminará e será sempre lembrada a sua contribuição para que o Povo Português tomasse nas suas mãos o seu destino e realizasse as conquistas revolucionárias que ficaram gravadas na Constituição de 1976, uma das constituições mais progressistas do mundo ocidental.

Foi caluniado, difamado, traído e um dos elementos do MFA quis mesmo prendê-lo de uma forma pouco leal sendo impedido de tal por Costa Gomes que respeitava Vasco Gonçalves e conhecia bem o homem que ele era.

Ler o livro resultante da entrevista feita por Manuela Cruzeiro –  Vasco Gonçalves – um general na Revolução ajuda-nos muito a compreender a tortuosidade daqueles tempos, os responsáveis pela contra-revolução, a falta de lisura, as contradições, a mesquinhez, as mentiras de tantos e tantos que anos volvidos continuam a tentar fazer crer que não tiveram responsabilidades na evolução da Revolução dos Cravos até ao que assistimos pelos dias de hoje.

Percebi melhor o que fica implícito na entrevista que Carlucci deu ao Expresso e que Demétrio Alves comentou aqui, na Praça do Bocage.

A Vasco Gonçalves, que concretizou lutas e reivindicações antigas dos trabalhadores, ficámos a dever-lhe a criação do salário mínimo e das condições que possibilitaram essas conquistas que foram o 13º e o 14º salários, isto é, os subsídios de férias e de Natal.

Sobre o pretenso caos económico no ano de 1975, porque é importante dar-se a conhecer o estado da economia portuguesa (bem mais saudável, afinal do que a doentia, leucémica economia a que nos levaram os governos PS e PSD com ou sem CDS com as sua políticas internas e de submissão aos interesses do capitalismo internacional, nomeadamente alemão, com a entrada na UE) cito partes do relatório da missão da OCDE a Portugal, em 15 de Dezembro de 1975:

« Parece ser opinião virtualmente unânime em Portugal que houve um catastrófico declínio na actividade económica no segundo semestre de 1974 e durante o ano de 1975…pode ser encarado como injustificado optimismo sustentar que, embora a situação seja muito fluída no principio de 1976, a economia portuguesa está surpreendentemente saudável…. Para um País que recentemente passou por reformas sociais, um mar de mudanças na sua posição no comércio externo e seis governos revolucionários nos últimos 19 meses, Portugal goza, inesperadamente, de boa saúde económica. Se o produto real caiu claramente em 1975, o declínio não foi precipitado.

A melhor estimativa é a de uma diminuição de três por cento no produto interno bruto(PIB).Em comparação com outros países da OCDE, a experiência portuguesa não parece ser muito pior do que a média. De facto, o desempenho da sua economia foi extremamente robusto quando as incertezas políticas de 1975 são levadas em conta. Em comparação, o declínio de PIB em 1975, nos Estados Unidos, foi de cerca de três por cento, na Alemanha Ocidental, próximo dos quatro por cento e na Itália quase quatro e meio por cento.»

E cito Vasco Gonçalves: «Aquilo que para os autores do relatório era surpreendente não o era para os responsáveis pela política económica dos governos provisórios. Foram precisamente as medidas de apoio às empresas para continuidade de produção e a garantia dos postos de trabalho, as mudanças estruturais, as nacionalizações da banca e dos seguros, dos sectores básicos da produção, das comunicações e transportes, a reforma agrária, a participação dos trabalhadores, as melhorias salariais que salvaram a nossa economia do colapso.

O parecer deste relatório foi confirmado por outra missão do MIT, que se deslocou a Portugal nos primeiros meses de 1976. O parecer mostra como eram falsas e tendenciosas as considerações sobre o estado da economia portuguesa feitas no Documento dos Nove

(citações a partir do livro Vasco Gonçalves- um General na Revolução, p.137)

 

A História far-se-á, porque com o tempo, os “pudores”, as cumplicidades, os mútuos favores trocados desaparecerão e surgirá límpida a verdade.

Ou como Saramago escreveu no livro Companheiro Vasco, p. 434:

«Esses dias que a História (a tal que para todos nós há-de olhar a frio) pesará numa balança, que gostaria de sonhar incorrupta. Se assim for, o seu outro nome será justiça, e esta será o sinal mais certo de que a escreverão filhos de trabalhadores e não os servos de pena e raspador que a burguesia usava pagar para justificar, desde a escola, o seu domínio

Além disso, o “Mundo pulará e avançará”.

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