CDS, Geral, PCP, Política, União Europeia

O VOTO, UMA ARMA DO POVO

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Com a aproximação do dia 25, crescem os apelos ao voto útil no Partido Socialista. Os do costume, com os argumentos do costume. Uma sopa requentadíssima que procura negar o que as evidências dos últimos quase quarenta anos demonstram de forma inequívoca. Entre os programas e as promessas eleitorais do PS há um abismo que nunca foi ultrapassado. O PS sempre governou à direita, sozinho ou coligação com os partidos de direita. Para ocultar essa evidência esbraceja, invectiva o PCP por não lhe dar apoio, por criticar as suas práticas. Sem um pingo de vergonha acusam-no de se colocar ao lado da direita. Como virgens ofendidas, metem no mesmo saco as críticas de esquerda do PCP com as críticas de direita do PSD e CDS. Como virgens libertinas recusam sempre alianças com a esquerda e rebolam-se na mesma cama da direita. Com o despudor habitual, nesta campanha eleitoral já foram vários os discursantes que deram voz à cassete. De António José Seguro a Francisco Assis, de António Costa a Manuel Alegre.

A ladainha repete-se. Em quase todos os comícios, alguém aponta o dedo à esquerda da esquerda, agora Partido Comunista Português e Bloco de Esquerda que, de mão dada com a direita, o PSD e CDS, derrubaram o governo do Partido Socialista. Uma falácia que, sem honra, propalam, fazendo esquecer, querendo fazer esquecer, que o PS, depois de governar à direita, com o apoio da direita (quem é que votou a favor dos PEC 1, 2 e 3?) nunca deu um passo, nm se moveu uma polegada para a esquerda. Que queriam? Que não conseguindo o apoio do PSD e/ou do CDS para o PEC 4, esse apoio fosse dado por quem sempre se opôs aos PEC’s? Por quem sempre apelou, com a esperança de haver algum eco em orelhas moucas, para a formação de um governo de esquerda? Só porque havia o risco, como veio a acontecer, de o governo ser assumido pelo PSD-CDS? Haveria diferenças, claro que haveria. Nunca seriam diferenças substanciais. O caminho para o 24 de Abril, entenda-se um 24 de Abril democrático, uma espécie de florescimento da defunta primavera marcelista com cravos cor-de-rosa, cravos brancos e cravos vermelhos sem cheiro ou de papel, seria mais longo, mas não deixaria de ser percorrido, como nunca deixou de ser percorrido nestes quase quarenta anos de governos constitucionais, falhados os golpes spinolistas com os mais escabrosos e diversos aliados.

Ouvir um Manuel Alegre gritar estentoricamente, proclamando ao vento que passa, que o voto no Partido Comunista é um voto inútil. Um voto em quem, no dizer dele, se aliou à direita para derrubar o virtuoso governo de José Sócrates, faz-nos lembrar o outro Manuel Alegre que, sobre o golpe de 11 de Março, dizia que “para uns foi um golpe da extrema-direita para outros do KGB” mas ele “não estava em condições de dizer ao certo o que tinha sido”. Não estava? Não está?Não sabia? Não sabe? Talvez, talvez…mas sabe que foi com a bênção do Partido Socialista que o general golpista foi recompensado com o posto de marechal e o cargo de Grande Oficial das Ordens. Há que haver memória, mesmo sem exigir decência. Essa gente que se diz de esquerda usa e abusa da falta de memória. Com isso procura reescrever a história. Com isso procura ganhar votos. Essa é a dura e veraz realidade de uma esquerda que não é esquerda mas uns canhotos serôdios que afinam o palavreado em tempo eleitoral, para enganar quem julga que eles vão na realidade mudar alguma coisa de substantivo! São uns seguidores de Don Fabrizio, Príncipe de Salina: “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma”. Nunca fica tudo exactamente na mesma, nem se confunde o vazio, o populismo comicieiro, a rasquice trauliteira da dupla Rangel-Melo, apoiada pelo insuportável estilo farsante de Portas e de um Coelho saído de uma cartola de ilusionista de zarzuela a travestir toda a realidade mesmo a mais evidente, com os socialistas que desfilaram nestes quinze dias de campanha sem debater a Europa, muito menos a Europa Connosco, com indisfarçável taquifagia governamental. Não os confundir com quem nos torna a vida insuportável mas não nos interessa, obriga a criticá-los duramente, verificando e antecipando a sua convergência objectiva com os partidos do governo ou não fossem eles os partidos do arco da troika, com políticas assim ou assado. O que torna intoleráveis os queixumes calímeros sobre “a coincidência de ataques aos socialistas pela direita e os comunistas”. Uma vigarice intelectual, crime que compensa e não está previsto no código penal. Sabem tão bem, como qualquer um, que entre as críticas de uns e as críticas de outros ao PS existe um oceano de diferenças. Enquanto entre as políticas da direita e as de um partido que se diz de esquerda e socialista as semelhanças são mais que muitas.

As jeremiadas dos socialistas intensificaram-se com a proximidade da abertura das urnas, mas foram bem matutinas. Logo a seguir ao 25 de Abril um ex-embaixador saltou a terreiro a fazer apelo ao que ele diz ser o voto (in)útil. Num post intitulado “Carta a um Amigo” dá conselhos trôpegos, com a mesma cantilena: “O primeiro é dentro de cerca de um mês, o segundo, infelizmente, deve ter de esperar mais uns tempos. Queres um conselho: vota bem! Vota em quem tenha uma possibilidade real de mudar a vida aos portugueses, não em quantos apenas servirão para aumentar os decibéis do protesto, mas não irão ter o menor papel na decisão dos caminhos do futuro. És livre, claro, de votar em quem quer fazer sair Portugal do euro e até da União Europeia, o que somaria mais empobrecimento àquele que os portugueses já têm – e que só defendem esta insensatez pela confortável certeza de que nunca ascenderão ao poder para a poder executar.”

Embora este seja um argumento recorrente nos dirigentes socialistas e sua corte, fica-se boquiaberto com um pensamento tão quadrado, tão formatado. Lendo-se o blogue, o escrevente muitas vezes vê os males do outro lado do vidro, mas age como uma mosca que bate contumazmente no vidro sem capacidade para encontrar caminhos para o ultrapassar. Sair do euro não é possível? Claro que é! Somava empobrecimento àquele que os portugueses já têm? Essa é de quem fala sem saber do que fala e por isso, como o Cavaco, raramente tem dúvidas e quase sempre tem certezas! Entrar e alinhar com o euro é que foi um erro que estamos a pagar caro, muito caro! Agora, já há muita gente que o defende abertamente, depois do Partido Comunista Português o ter defendido desde a primeira hora. Nem sequer pensar, nem sequer colocar essa possibilidade é que é, dito de uma maneira cordata, insensatez. Como é insensatez, mesmo estupidez, acreditar que com a saída da troika (mais uma historieta para ludibriar papalvos) o problema da dívida está resolvido e não é necessário reestruturá-la como, lembre-se mais uma vez, o PCP defendeu desde o primeiro momento. Agora muitos renderam-se a essa realidade, fingindo-se inovadores, como se nunca tivessem ouvido falar em tal hipótese. Mesmo a saída da CEE não deve ser assunto tabu, como querem os ferrenhos europeístas, em nenhum dos seus estados membros. Mesmo para a Alemanha que actualmente é o quero posso e mando da CEE, como se têm visto e que a sra Merkel confirma com estardalhaço quando, mesmo antes de eleições que supostamente iriam ter um peso decisivo na escolha do presidente da União Europeia, já decidiu quem ele será e como partilhará poderes.

Enfim…

A questão de fundo é que não é um acaso essa indiferenciação entre esses partidos, em Portugal e noutras partes do mundo. Os partidos do chamado arco da governação são partidos que fazem uma demagógica apologia da democracia, tanto mais quanto menos a sua realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Há uma cada vez maior indiferenciação ideológica e programática entre partidos ditos de esquerda e partidos de direita. Esses partidos reduzem a sua acção, medem a sua representatividade, pelos resultados da competição eleitoral. Isto quando a democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como os fundadores da social-democracia proclamavam. A indiferenciação tende para o modelo bipolar norte-americano. A realidade, a crua e dura realidade, que uns escondem e outros disfarçam, é que esses partidos deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores. Existem como uma finalidade em si-próprios. Representam interesses económicos que lhes dão apoio variável. Perderam os princípios. São ideologicamente indefinidos. Confinam a sua actividade à conquista do voto. Esse é o grande retrocesso que vivemos nestes tempos complexos de esvaziamento político-ideológico, mesmo que se limite a democracia à democracia formal, que está a ser progressivamente pauperizada. Leiam-se os programas. Ouçam-se os discursos. Soletrem-se as promessas. Fechadas as urnas, vai tudo esquecido na contagem dos votos. As práticas sujeitam-se às regras dos chamados mercados, um delicioso eufemismo para nomear o grande capital financeiro.

Votar no PS é votar bem? É votar mal, acreditando que em quem se votou vai ter papel importante nas decisões do futuro e que esse futuro coincidirá com o canto das sereias eleitorais! Essa gente, tanto dos partidos de direita como os da canhota, obedece a interesses que lhes são ditados pelos megapólos financeiros internacionais e seus apêndices nacionais que os manipulam. São prolongamentos do aparelho de Estado ao serviço do capital.

Não se está a dizer que é a mesma coisa votar nuns ou noutros, mesmo que entre uns e outros as parecenças sejam cada vez maiores. Mas votar no Partido Socialista e julgar que se está a votar contra o PSD-CDS ou é masoquismo ou nostalgia serôdia por um socialismo dito democrático há muitos anos fechado a sete chaves numa gaveta perdida. É um voto praticamente inútil.

Votar à esquerda é o voto que interessa a quem tem sofrido com estas políticas que nos últimos quase quarenta anos tem corroído as conquistas sociais, económicas e políticas do 25 de Abril. É mostrar, de forma clara e inequívoca, que o voto é uma das armas do povo. Não é a única. A democracia política não se limita às estreitas fronteiras das regras formais do Estado, nem essas regras se sobrepõem às regras que definem a identidade e o espaço de luta que a esquerda ocupa na sociedade. Que está longe de se esgotar nos momentos eleitorais.

Votar à esquerda é o voto útil. O voto na esperança, no futuro. É mesmo votar com a esperança, mesmo que esmaecida, de os socialistas que ainda acreditam na democracia política, que não se revêm em espúrias terceiras vias ou coisas similares, que ainda acreditam no que resta das conquistas de Abril e no que é possível recuperar, imponham um outro caminho a este Partido Socialista para que, finalmente, faça/ponha em prática o que promete e nunca cumpre. Só assim a direita, o PSD e o CDS serão verdadeiramente derrotados.

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