Política

Saída? E limpa?

O guião requeria um final feliz para os protagonistas instalados no poder em Portugal e na UE. Por isso o final do memorando de entendimento com a troika foi classificado como “saída limpa”. Quanto à sua relação com a realidade, é como se a melodia que nos dão a ouvir não correspondesse às notas escritas na pauta.

Primeiro.

Porque foi forçada pelos nossos parceiros europeus, com a Alemanha à cabeça, mais preocupados com as respetivas situações nacionais que com a propalada solidariedade. Uma saída sem “a rede” de um “apoio cautelar” – coisa que, aliás, também nunca se percebeu o que seria.

Desde há tempos que era previsível a indisponibilidade europeia – já o tinha sido aquando da “saída limpa” irlandesa. O que induziu o Governo a constituir uma reserva financeira que dará para um ano, dizem P. Coelho e M. Luís Albuquerque, com o país a suportar elevados custos em juros para manter a “almofada financeira”.

Uma saída assistida seria ainda a confissão de um falhanço que a troika não quer ver e cuja responsabilidade também não quer assumir.

Segundo.

Apesar da recente evolução positiva de alguns indicadores, nomeadamente a inversão da quebra do PIB, que se prolongou por dez (!) trimestres, e da taxa oficial de desemprego, a situação económica e financeira mantém-se em estado crítico.

No final do ano passado a contracção total da economia reportada ao final de 2010 era de 5,83% e a taxa oficial de desemprego, então cifrada em 16,3%, estava 5,5% acima da verificada três anos antes. Isto é, mais 273 mil e trezentos desempregados! E mesmo à luz dos critérios do pacto orçamental atente-se no rácio da dívida que se situa próximo dos 130% do PIB.

Terceiro.

A mesma ganancia do “efeito de manada” que conduziu os mercados financeiros a cobrarem altas taxas de juro à dívida pública portuguesa em 2011, está agora a conduzi-los a valores historicamente muito baixos. Não só para a dívida portuguesa como para as de todos os outros países sob “resgate”. Mesmo que as agências de rating continuem a classificá-las de lixo…

Há pois um momento de acalmia nos mercados da dívida soberana que ninguém sabe quanto tempo durará.

Quarto.

“O país está melhor” dizem algumas luminárias do Governo, apesar de haver hoje muitos mais portugueses a viverem muito pior que antes do “ajustamento”. O desemprego aumentou massivamente. A emigração aumentou massivamente. As falências aumentaram massivamente. Os imigrantes estão de regresso aos países de origem.

A pobreza agigantou-se e as filas para a sopa do Sidónio avolumam-se enquanto diminuem os apoios sociais a desempregados e outros sectores vulneráveis. Fecharam-se serviços e impuseram-se taxas elevadas. Venderam-se importantes activos estratégicos nacionais por meia dúzia de patacos. E mais se perspectiva – até a água.

Quem pode, ou a isso é obrigado, emigra. Nomeadamente jovens com formação superior – coisa de partir o coração. E o país envelhece ainda mais rapidamente do que antes!

Quinto.

O trabalhador foi e continua a ser a principal vítima. O “ajustamento” foi feito à custa de um “enorme aumento de impostos” (Vítor Gaspar dixit), sobretudo sobre os rendimentos de trabalho. Mas também pelo desinvestimento em amplas áreas de interesse público, de onde se destacam os cuidados de saúde e conexos.

Os trabalhadores do sector público, nomeadamente os das Administrações Públicas, os reformados e pensionistas foram (e são) dos mais flagelados com sucessivos cortes de salários e de pensões. A que numa clara manobra demagógica juntaram, para os funcionários públicos, o aumento de horário de trabalho, assim ampliando o efeito de perca de rendimento. Sem a intervenção corretora do Tribunal Constitucional teriam também eles teriam engrossado as filas de cidadãos às portas dos Centros de Emprego.

Mas, como já se percebeu, esta será a mesma carne para canhão que, tal como tantas vezes no passado, será utilizada para brilharetes governamentais em vésperas das eleições que se aproximam. Por isso dizem alguns em tom jocoso que deveriam haver eleições todos os anos.

Sexto.

O “resgate” acaba no dia 17 de Maio! O “resgate” continua no dia seguinte…

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2 thoughts on “Saída? E limpa?

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