EUA, História, PCP, Política

O 25 de Abril e a CIA

CIA 1 cravos de abril

 

 

 

 

 

Frank Carlucci foi entrevistado na sua mansão perto da Casa Branca. Saiu ontem no Expresso. No preciso dia em que comemorámos o quadragésimo aniversário do 25 de abril.

Ex-embaixador em Portugal, para onde veio em dezembro de 1974, foi agente da CIA e seu Diretor. Mais tarde chegou a Secretário da Defesa dos EUA.

Treinou golpes no ex-Congo Belga e teve sucesso: Patrice Lumumba foi assassinado em janeiro de 1961 com Carlucci por lá como agente encoberto da CIA.

Depois de acabar como operacional, dedicou-se explicitamente aos negócios: desde o grupo Carlyle à Westinghouse, passando pela General Dynamics, pela CB Real Estate, até à “portuguesa” EuroAmer, neste caso associado ao Albarran (um dos que incitou as “massas” ao ataque à Embaixada de Espanha).

Trata-se de um exemplar representante do imperialismo norte-americano e dos interesses capitalistas mundiais.

Às perguntas jornalísticas respondeu com pistas interessantes, isto apesar da notória preocupação em não deixar rasto em coisas mais delicadas. Manha pura com 83 anos de requintado treino. Ah! E sempre modesto: Julgo que foi exagerado ( o seu papel na contrarrevolução).

Deixam-se, para reflexão, algumas das ideias expostas pelo ex-conspirador.

Acerca da relação dos EUA com a ditadura: Os EUA não precisavam do antigo regime (o de Salazar e Caetano)…mas Nixon estava muito agradecido a Portugal, devido ao uso da Base das Lages durante a Guerra do Médio Oriente.

Sobre o papel contrarrevolucionário da hierarquia católica portuguesa: Os padres da aldeia são muito importantes. Recebem ordens dos superiores, mas não recebem instruções, entende? E isso relaciona-se com a natureza conservadora do povo português, o amor pela Igreja e o medo do comunismo.

Sobre o papel da NATO na evolução da situação: Testemunhei no Congresso e pedi dinheiro para a Brigada portuguesa…trouxemos novos equipamentos para Portugal…tínhamos como objetivo voltar a profissionalizar a estrutura militar portuguesa.

Sobre Vasco Gonçalves: não sei se ele era controlado, mas certamente simpatizava com a União Soviética.

Sobre os partidos portugueses: Os três partidos democráticos, PSD, PS e CDS-PP, tinham que trabalhar juntos.

Sobre o apoio financeiro a Mário Soares: quando foi eleito primeiro-ministro aprovámos um grande empréstimo…fornecemos muito apoio moral…a maior parte do apoio financeiro veio do SPD alemão…(perante a insistência do jornalista sobre dinheiros para o líder socialista, acabou por acrescentar)…não quero ir por aí, prefiro referir-me ao grande empréstimo.

Acerca do seu envolvimento na preparação do ataque à Embaixada de Espanha: São acusações frívolas… (e sobre Artur Albarran, envolvido no ataque, e seu posterior sócio)… já terminaram as relações há sete ou oito anos.

A propósito do papel do PCP: Acredito que se os comunistas têm sido mais inteligentes e a sua liderança um pouco semelhante à de Enrico Berlinguer, teriam conquistado o poder…Álvaro Cunhal era pouco português.

Sobre a crise socioeconómica, a atual insatisfação dos portugueses e “uma eventual convulsão social”, diz: O canal de escape da insatisfação será as eleições

Fiquemos por aqui quanto às citações.

Muito haveria a rebater mas caberá ao leitor refletir sobre o que elas significam.

Contudo, é interessante discorrer um pouco mais sobre esta última tirada: O canal de escape da insatisfação será as eleições!

É assim que indivíduos como este, parente próximo dos atuais governantes portugueses, dos grandes acionistas e de administradores económicos e financeiros, pensam a democracia: é bom a malta ir às eleições para desabafar, para descomprimir, ficando tudo na mesma e desde que os seus interesses e a exploração se mantenham intocáveis!

Segundo o figurino que defendem e propagandeiam, a liberdade e as eleições serão boas, se e só se, servirem os interesses dos mercados capitalistas. Caso contrario acaba-se com elas. A História está recheada de exemplos que o comprovam, desde o Chile até à Ucrânia e à Venezuela.

Não é nova esta conclusão, mas causa sempre desconforto e irritação.

Muitos dos que acreditam e desejam a democracia que vislumbrámos no 25 de abril, cansados de tantas malfeitorias e ataques sociais, chegam a desesperar.

Como lutar por uma democracia que signifique desenvolvimento económico, cultural, social, para além dos direitos, liberdades e garantias fundamentais?

Como se poderá acabar com este jogo viciado por carradas de desinformação, de alienação e de medo, cujo resultado é sempre mais e mais desfavorável aos trabalhadores, estudantes, desempregados e pensionistas?

Muitos são levados, num mecanismo de compreensível desalento, a pensar em instrumentos radicais.

Outros refugiam-se numa real ou aparente indiferença, pensando que não há solução porque os políticos e as políticas são todos iguais.

Esta maleita social, fruto da alienação e do medo, também não é nova.

Já no séc. XIX, era identificada como grave problema por Antero de Quental (1842-1891), Filósofo e Poeta da Geração de 70, nas suas Prosas da Época de Coimbra:

“Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, (…).
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto … é triste, mas compreende-se (…) .                                                                                 Mas, quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade,(…) para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações – a liberdade!”

Também Gramsci dizia que “A indiferença é o peso morto da História. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte na qual frequentemente se afogam os entusiasmos mais esplendorosos.”

A indiferença sociopolítica é gerada e alimentada por quatro fatores fundamentais que vão variando de intensidade consoante se esteja num regime autoritário/ditatorial ou num regime “democrático” ocidental:

A)   Medo, coação e proibições variadas;

B)   Asfixia económica dos trabalhadores, desempregados e pensionistas e limitações à sua liberdade de ação e opção;

C)    Alienação dos cidadãos transformados em consumidores acríticos da propaganda dominante (direta e indireta)

D)   Condicionamentos culturais (individualismo, consumismo, etc.,)

Nos regimes autoritários o primeiro fator está maximizado.

No regime em que vivemos, em que o sistema eleitoral é apenas uma peça encenada para perpetuar no poder os detentores dos meios de produção e do capital financeiro, não há, de facto, liberdade e democracia. Por isso não se resolverão os graves problemas que sufocam os povos.

Independente do sistema eleitoral usado para preencher as assembleias legislativas nacionais, e, como sabemos, existem cerca de uma dúzia, a realidade confirma que, no fundamental, o comando fica sempre nas mãos da burguesia.

Nos sistemas de maioria simples (à pluralidade dos votos) ou de voto alternativo, muito usados nos países anglo-saxónicos, talvez se possa afirmar que aquele desiderato fica facilitado. Por isso mesmo eles gostariam de o impor como formato único eleitoral, não obstante algumas arrelias (Zimbabwe, Sudão, Nigéria, Birmânia, etc.,) .

Mas, mesmo nos sistemas de listas de representação proporcional (usado em Portugal e em mais metade dos países europeus), de representação proporcional personalizada (Alemanha, Itália, Hungria, Bolívia, Venezuela, México, etc.,), de voto único transferível ou, ainda, no sistema de voto paralelo, conhecem-se os resultados.

Quando os resultados não são convenientes para as forças capitalistas, e independentemente do sistema eleitoral utilizado, usam a força do golpe militar ou paramilitar, precedido de massivas campanhas de desinformação, sabotagem e desacreditação contra as maiorias eleitas. E quando isso não é imediatamente possível, fazem uso de criminosos e prolongados bloqueios, além das mais variadas sanções económicas, tentando vergar os povos.

Mas, então, que fazer? Rejeitar votar? Abdicar de participar nos atos eleitorais? Condenar por igual o sistema de partidos? Passar a dizer que só os “cidadãos independentes” é que são bons? Recorrer à luta armada, à sabotagem e ao bombismo?

Está comprovado política e historicamente que tudo isso não são soluções políticas para o tipo de questões que temos em cima da mesa.

Sem se pretender formular teorias ou receitas definitivas, nem para isso haveria capacidade –mas lendo os clássicos e analisando a própria realidade portuguesa, onde elas estão delineadas – parece poder dizer-se que:

  1. O povo (massas populares organizadas), é o agente fundamental e determinante das grandes rupturas históricas.
  2. Não há formulas mágicas e fáceis para alterar o estado das coisas, e a alternativa real às políticas seguidas nas últimas três décadas envolverá sempre dificuldades e sacrifícios. A diferença está na utilidade a medio prazo para os trabalhadores.
  3. Sem a participação intensa, direta (física) e continuada desse povo organizado não há democracia autêntica, assim como é determinante o papel de elites livres, esclarecidas e comprometidas com os interesses coletivos. A utilização das novas tecnologias não basta para resolver os problemas. São uma faca de dois gumes que é necessário usar com sabedoria.
  4. A participação em atos eleitorais, votando e concorrendo, é vital para as forças que lutam pela democracia vista num sentido amplo. Não existe uma sociedade civil por um lado e o Estado por outro. O Estado resulta da relação entre classes sociais e, também quando se vota, se opta em termos de classe.
  5. A existência de um Poder Local Democrático e de um Movimento Associativo organizado e atuante são insubstituíveis para o funcionamento democrático e para o desenvolvimento.
  6. O reforço qualitativo e quantitativo dos sistemas educacionais, científicos e culturais, numa perspetiva de os libertar progressivamente da propaganda dominante e do “pensamento único” disseminados através de poderosas e sofisticadas redes, é elemento fundamental para o médio prazo.
  7. O Movimento Sindical é nuclear na luta por melhores condições de vida para os trabalhadores, na batalha contra a tirania do capital e, também, para a preparação de alternativas políticas futuras.
  8. As ideias não se transformam em força revolucionária apenas em função do seu mérito intelectual. Têm que ser assimiladas e tomadas como suas pelas massas populares.
  9. O exercício precoce do poder, numa base de partilha interclassista de responsabilidades no Estado, sem estarem criadas condições perenes e sustentáveis dos pontos de vista político e social, mesmo quando invocado a propósito da necessidade de mitigação imediata do sofrimento infligido ao povo, pode revelar-se letal para a construção das verdadeiras soluções a médio e longo prazos.
  10. A unidade na ação das forças políticas e sociais que defendem, de facto, os interesses dos trabalhadores, dos desempregados, dos pensionistas e idosos, dos intelectuais, dos quadros técnicos e científicos e dos pequenos empresários, constitui um meio para estribar a governação do futuro e um instrumento valioso de oposição e preparação de alternativas.
  11. Não sendo condição suficiente, constitui um fator fundamental para fazer oposição às malfeitorias dos predadores que se instalaram no poder político e económico em Portugal, alterando para melhor tudo o que for possível e preparando soluções democráticas avançadas para o futuro, a existência de um partido ligado firmemente aos interesses dos trabalhadores e do povo, e com um projeto de sociedade alternativa. Felizmente esse partido existe, vivo e atuante, sempre aberto à melhoria qualitativa e quantitativa, também eleitoral: é o PCP.
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4 thoughts on “O 25 de Abril e a CIA

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  2. Anónimo diz:

    Acho que a democracia direta em Portugal ainda poderá ser uma solução. Não precisamos que ninguém nos oriente ou governe, ou seja, que de decida por nós(povo). Mas provavelmente teria que se educar as pessoas politicamente, moralmente, para o bem do país e não para o bem individual para todo o povo vivesse na igualdade. Vejam o exemplo da Suíça, é rara a notícia negativa, até digo mal se ouve os exemplos da Suíça.

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    • jose ramos diz:

      A suiça absorve o dinheiro já lavado dos off-shores e doutros congéneres.Preparar ao educar o povo que só está conectado com a TV PRÓS FUTEBÓIS E TELENOVELAS, DEMOCRACIA DIRECTA ? O QUE É ISTO? NÃO precisamos de ninguem? mas que raio o que seria se isto fosse uma realidade, quantos dia ou horas sobreviviamos ?

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