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Nem um minuto de Solidão

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Ao contrário de um dos seus romances nucleares “Crónica de uma Morte Anunciada”, onde Gabriel Garcia Marquez pretende demonstrar que a prostração provocada por um fluxo inacreditável de coincidências funestas induzem a inquietante verificação que a fatalidade nos torna invisíveis, o fim da estrada da vida de Gabo, esperado desde os anos 90, por vezes mesmo anunciada, desde que se retirou praticamente da vida pública, deu-lhe e continuará a dar-lhe, ainda maior visibilidade e maior visibilidade à sua obra, com destaque para os “Cem anos de Solidão” o romance que o tornou mundialmente conhecido como mestre do realismo mágico, um dos traços distintivos da literatura da américa latina.

Gabo desistiu de cursar direito para se tornar, em 1948, jornalista actividade que descreveu como “uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo da cacha, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.”

Jornalista em vários países, vivia na Cidade do México, exilado da sua Colômbia natal, quando faz as suas primeiras incursões literárias escrevendo guiões para o cinema, até que em 1960, publica o seu primeiro livro de ficção, “Ninguém Escreve ao Coronel”, retrato dos ditadores que nessa altura dominavam o panorama político da América central e do sul, obra que se tornaria uma referência da literatura latino-americana mas que só conheceu circulação universal depois de em 1967 ser editado um dos seus romances mais conhecido  “Cem Anos de Solidão”.

“Cem Anos de Solidão” são um século de uma solidão concreta, dura, pesada que passa de geração para geração da família Buendía, os Arcádios e  os Aurelianos que se envolvem em revoluções, inventos, corrupções, amores na casa grande e na senzala, . Família Buendía que corporiza a identidade da América Latina, tendo como instrumento narrativo o realismo mágico. É exatamente nesse ponto que se destaca a prodigiosa imaginação do autor que sabe como ninguém construir a realidade por meio do inverosímil. Os acontecimentos e os personagens extraordinários que se vão sucedendo em “Cem anos de Solidão”, malabaristas com seis braços, um ancião de quase duzentos anos que venceu o duelo de serpentes, o padre que levita a 12 centímetros do chão, a mulher que come areia, os filhos que nascem com rabo de porco, vão-se imprimindo num continente que se constrói na base de perversões, depravações, imoralidades. Corrupção que se vai apurando de geração para geração dos Buendía, até que na terceira Arcádio, é eleito presidente da Câmara de Macondo, cargo que exerce com grande favorecimento próprio. De tal modo que, anos depois, quando o coronel Aureliano Buendía examina os títulos de propriedade, encontra registadas em nome de seu irmão todas as terras que se avistavam da colina de seu pátio até o horizonte, inclusive o cemitério. Nos onze meses de seu mandato Arcádio havia arredondado a sua conta bancária e alargado os seus territórios, não apenas com o dinheiro dos tributos mas mesmo com o que cobrava do povo pelo direito de enterrar seus mortos nas terras de José Arcádio, da segunda geração Buendia.

A Companhia Bananeira que se instala em Macondo, simboliza a face mais visível da inserção da América Latina no capitalismo mundial com a terra a ser explorada pelos seus poderosos vizinhos norte-americanos, vigilantes e prontos a intervir, directa e indirectamente, para protegerem os interesses económicos dos grandes monopólios dos EUA que exploram as matérias-primas do resto do continente, até esgotar os seus recursos. Aos ciclos de decadência sucedem os ciclos de euforia, mantendo todo um povo preso às amarras do subdesenvolvimento. Um observador arguto como García Marquéz não deixou de estar atento ao problema: “Macondo estava em ruínas. Nas imensas poças d’água das ruas restavam móveis despedaçados, esqueletos de animais cobertos de lírios colorados, últimas recordações das hordas de aventureiros que fugiram de Macondo tão atarantados como haviam chegado. As casas levantadas com tanta urgência durante a febre da banana tinham sido abandonadas. A companhia bananeira desmantelara suas instalações. Da antiga cidade cercada só restavam os escombros”.

 “Cem Anos de Solidão” anuncia também o fim da família Buendia, quando as previsões do cigano Melquíades são decifrados pelo filho bastardo de Meme (da quinta geração) com Maurício Babilónia: Aureliano Babilónia (da sexta geração). A maldição da família Buendía, é que duas pessoas dessa mesma família não poderiam ter filhos juntos, pois estes nasceriam com alguma deformidade. José Arcádio Buendía e Úrsula eram primos. Aureliano Babilónia teve um filho com Meme sem saber que esta era sua tia legítima. Concretiza-se a previsão do cigano: a criança, Aureliano (da sétima geração), nasce com um rabo de porco e morre devorado por formigas. A árvore genealógica da família, a árvore dos senhores da terra das américas, “era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”.

A perpetuação no poder, descrita por interposta família Buendía, tão comum nos regimes autoritários, vulgaríssima numa américa de ditaduras e regimes plutocratas, é outro tema que García Márquez não deixa escapar. Os Buendía, entre liberais e conservadores dão sempre apoio ao ”governo conservador, com o apoio dos liberais, estava reformando o calendário para que cada presidente ficasse cem anos no poder.”

O realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez traça o retrato mais concreto de uma realidade continental que só nos últimos anos, apesar de constantemente ameaçada pelo seu poderoso vizinho do norte, vai sendo modificada.

Se “Cem Anos de Solidão” lhe dão notoriedade mundial, os outros seus livros são obras literárias notáveis como “Crónica de uma Morte Anunciada”, Amor em Tempos de Cólera”, “O general no seu Labirinto”, “A Aventura de Miguel Litin no Chile” “ Os Funerais da Mamã Grande” ou o seu último romance “Memórias das minhas Putas Tristes”, entre outros e uma espantosa biografia “Viver para Contar” onde a sua terra natal quase se confunde com Macondo e quase reencontramos muitos dos personagens que vão surgindo nos seus livros.

Com Gabriel Garcia Marquez o realismo mágico atingiu o seu alfa. Fez escola desde o fabuloso romance que é “Cem Anos de Solidão”. Escola que ultrapassou as fronteiras da América Latina e se tornou universal.

Muito justamente foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura em 1982.

Gabriel Garcia Marquez foi também um activista político. Obrigado a exilar-se da sua Colômbia natal acusado de ter relacionamento e dar apoio aos guerrilheiros foi, desde sempre, um apoiante dos movimentos de esquerda e revolucionários na américa central e do sul. A sua amizade com Fidel de Castro e o apoio ao regime cubano é bem conhecido e teve várias formas de expressão pública que, como sempre, se querem agora branquear, numa altura em que as lutas pela libertação de países do continente americano enfrentam as mais diversas sabotagens a começar pela campanha de desinformação de que são alvo desde o primeiro momento. Se não fosse o estado precário da sua saúde desde os anos 90. Gabriel Garcia Marquez seria o primeiro desmenti-los.

A sua extraordinária obra literária não lhe dará um minuto de solidão. Terá sempre em qualquer parte do mundo um leitor a ler um dos seus romances.

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3 thoughts on “Nem um minuto de Solidão

  1. Pingback: Nem um minuto de Solidão | O Retiro do Sossego

  2. Fernanda Paixao dos Santos diz:

    Boa tarde Manuel Augusto,

    Ontem, ao sair para ver finalmente “Le Passe” de Asghar Farhadi, vi a noticia da morte de Gabriel Garcia Marques. Tenho pena que tenha morrido, depois de sobreviver ao cancro mas, para mim o mais tragico e um homem que ao longo dos anos se apoiou e tanto escreveu sobre a memoria acabar por sucumbir a Alzeimers. Hoje “The Independent” traz um magnifico obituario e tambem um ou dois artigos que te aconselho.

    Por Londres, em material de Pascoa, ha hoje um “Envagelho Segundo S. Joao” em St Johns Smith Square (esgotado) e amanha um “Messias” no “Foundlings Museum” transmitido em directo pela BBC 2. Assim ouvirei/assistirei.

    Boa Pascoa com ovinhos, pintainhos e coelhinhas.

    Saudades de Londres

    Maria Crabtree

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