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A Páscoa é dos momentos das liturgias cristãs que são mais inspiradores da música. A morte, o período que a prepara, o sofrimento imposto pela crucificação e a ressurreição, são particularmente marcantes no imaginário. Provocam o surgimento de belíssimos trechos musicais que não deixam mesmo os mais convictos ateus que amam música, indiferentes ao sublime artístico muitas vezes alcançado. Nos diversos ritos cristãos, como em anos anteriores temos dado nota, a Páscoa é celebrada com uma intensidade e espessura musical inigualável.

Na liturgia católica romana, durante as três noites da Semana Santa, quinta, sexta e sábado, as luzes extinguem-se para dar lugar às trevas que se dissiparão com a ressurreição. Há um apagamento progressivo das luzes até às trevas totais. A tradução musical desse sucesso começou por ser corporizado pelas Lamentações de Jeremias, que são um belo e patético trecho, inscrito no Antigo Testamento. Uma meditação sobre a destruição do Templo de Jerusalém é um poema em que cada verso se inicia por uma letra do alfabeto hebreu. Há numerosas versões polifónicas das Lamentações de Jeremias que foram progressivamente substituídas pelo Lamenti barroco, embora Heinichen, mestre capela de Augusto da Saxónica as tenha recuperado num belíssima oratória barroca. Os Lamenti barrocos, em que se distinguiram, Caríssimi, Cesti, Frescolbaldi, Vivaldi entre outros, têm antecedentes na Renascença, nomeadamente com Lassus, Maissano, Palestrina.
Em França os Lamenti foram adaptados ao “gosto” dominante na corte, juntando ao rigor declamatório uma particular ornamentação. Surgem as Lições das Trevas que tiveram em Charpentier, Couperin, Delalande, Brossard os seus mais lídimos intérpretes.
Couperin consegue uma particular beleza com o ritmo musical sublinhando o ritmo das frases latinas, uma estrutura das frases musicais que torna o conjunto particularmente sedutor. Pelos escritos de Couperin sabe-se que terá escrito nove Lições das Trevas, mas até hoje ainda só são conhecidas três, podendo as outras estar irremediavelmente perdidas.
Uma ou duas vozes de sopranos ou contratenores, são acompanhadas por música de órgão e viola de gamba, num quase milagre escrito pela mão deste compositor poético e contemplativo.

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5 thoughts on “Música de Páscoa/Lições das Trevas

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  3. Pedro Mota diz:

    Reblogged this on A Matéria Humana-Human Matter(s) and commented:
    Eu, como ateu, não posso deixar de reconhecer a extraordinária riqueza da produção artística, sobretudo na música e nas artes plásticas, mas também na literatura, inspirada pela religião. em especial pela pagã grega e pela cristã mas também pela indu. Mesmo que um dia a fé desaparecesse teria-nos deixado tesouros de expressividade, imagens, sentimentos ideias e mitos imperecíveis pela sua contribuição para a sensibilidade plástica e pela sua capacidade de evocação dos grandes problemas e questões que sempre o Homem se pôs. Penso nas tragédias gregas, nas catedrais góticas (obras de arte totais), nas grandes obras pictóricas do Renascimento, Maneirismo e Barroco, na música sagrada de Bach, de Mozart e de Olivier Messiaen, entre muitas outras coisas.

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  4. Pingback: Música de Páscoa/Lições das Trevas | Ícaro e a Utopia Real

  5. Pedro Mota diz:

    Eu, como ateu, não posso deixar de reconhecer a extraordinária riqueza da produção artística, sobretudo na música e nas artes plásticas, mas também na literatura, inspirada pela religião. em especial pela pagã grega e pela cristã mas também pela indu. Mesmo que um dia a fé desaparecesse teria-nos deixado tesouros de expressividade, imagens, sentimentos ideias e mitos imperecíveis pela sua contribuição para a sensibilidade plástica e pela sua capacidade de evocação dos grandes problemas e questões que sempre o Homem se pôs. Penso nas tragédias gregas, nas catedrais góticas (obras de arte totais), nas grandes obras pictóricas do Renascimento, Maneirismo e Barroco, na música sagrada de Bach, de Mozart e de Olivier Messiaen, entre muitas outras coisas.

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