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Um novo mapa da Europa?

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Com a Crimeia a caminho da integração de facto na Rússia, está agora claro que o mapa da Europa está a mudar. O detonador mais recente e porventura mais perigoso foi o da mudança de regime operada a partir das ruas de Kiev, Ucrânia. Mas a porta já tinha sido aberta pela independência do Kosovo (da Sérvia) e o estilhaçar da Federação Jugoslava, patrocinados e forçados pelos poderes ocidentais. Resta-nos esperar pelos próximos episódios.

Há um traço comum naqueles episódios. Contradições internas no bloco de leste foram amplamente rentabilizadas pelos poderes ocidentais, sempre desejosos de enfraquecer a Rússia e tudo fazendo para lhe subtrair as áreas de influência estabilizadas após a Segunda Guerra Mundial. Quando a pressão política e económica não chegou, as forças da NATO encarregaram-se de bombardear Belgrado… uma capital europeia.

Depois da Guerra Fria, a Guerra Fria…

A Guerra Fria tinha terminado com a rubrica de M. Gorbatchov, o lider soviético a quem tinha fugido o controlo do processo de perestroika na URSS. O pacto de Varsóvia tinha-se esfumado e os países que compunham a União Soviética tinham declarado as suas independências. Mas todos continuaram a raciocinar na velha lógica dos tempos da guerra fria, isto é, Rússia igual a comunismo, logo a tudo fazer para a desestabilizar.

Ao fim da União Soviética sucederam-se os anos do enfraquecimento, do desprestígio e mesmo da humilhação russa personalizados pela presidencia de B. Yeltsin. O desmantalemanto da União deixou numerosas populações russas ou russófonas e de outras nacionalidades em “lugares errados”. São os casos dos arménios de Nagorno-Karabakh no interior do Azerbaijão, ou dos russos espalhados por quase todas as ex-repúblicas soviéticas, do Báltico ao Mar Negro passando pelo Caucaso e pela Ásia central. Com situações explosivas, como as da Ossétia do Sul e da Abecásia (na Geórgia) ou a Transnístria (na Moldova). Mas também de povos do Caucaso forçados a permanecer na Federação, como é o caso dos chechenos.

Nos últimos anos e como resultado do processo de concentração de poder operado por V. Putin, apoiado numa certa recuperação económica, a Rússia ultrapassou os anos negros que ditaram o encolhimento da sua importância geoestratégica. À aproximação das fronteiras da NATO, ou perante a sua ameaça, a Rússia respondeu logo em 2008 com a invasão de territórios com importantes concentrações de população russa na Geórgia. Estava então sinalizada a inversão da estratégia russa.

Uma mudança qualitativa

O que agora se passa na relação entre a Rússia e a Ucrânia é de grande magnitude para o equilibrio na Europa. É um facto que a Rússia não pode prescindir da Crimeia – onde se situa desde o século XVIII uma das suas mais importantes bases navais, que lhe permite aceder ao Meditarrâneo. Como é um facto que a maioria da sua população é russófona.

Mas também é um facto que há uma relação histórica muito próxima entre Rússia e Ucrânia. São povos próximos, que partilharam uma história comum que não começou nos tempos soviéticos mas séculos antes. Como concilia-la com um novo poder ucraniano que logo nos seus primeiros dias fez questão de assustar os falantes de russo do país?

Se a Crimeia vier a integrar a Federação Russa – como tudo indica – como ficará a relação e a ligação entre russos e ucranianos? Ganhará a Rússia a Crimeia mas perderá a ligação privilegiada à Ucrânia? E como resistirá a unidade nacional ucraniana às tensões libertadas por nacionalismos radicais ou assustados nos dois (ou três) lados presentes? E como não lembrar aqui a Polónia, potencia desejosa de evocar o seu papel histórico na região?

O Império contra ataca

Pode o poder instalado em Kiev dar-se ao luxo de ser anti-russo ou sequer de não manter boas relações com a Federação Russa? A que preço? O que está em jogo é demasiado para não serem tentadas soluções. Dos interesses económicos – basta olhar para as linhas de transporte de gás que atravessam o país – às ligações históricas entre ambos os povos.

Os riscos são muitos e um dos mais sérios pode ser a própria desagregação do Estado ucraniano – estimulada do exterior, a partir da Rússia (e a Polónia? ), a manter-se a presente conflitualidade, mas também do interior, nomeadamente nas zonas orientais e de maior infuência russófona.

Vendo a sua área de influência significativamente diminuída após o final da URSS, assistiu-se nos últimos anos à tentativa russa de reequilibro. Com o patrocínio das separações da Ossétia do Sul e da Abcasia e agora da Crimeia. Regiões onde há sempre significativas populações russas. O novo poder russo visa agora recuperar a influência e o prestigio perdidos

Sete décadas após a última grande reformulação geo-estratégia da Europa, acumulam-se as situações “pendentes”, numerosas na metade leste do continente, mas também presentes no lado ocidental – Escócia, Flandres, País Basco ou Catalunha.

O ténue equilíbrio que havia na Ucrânia, e de certo modo na Europa oriental, foi rompido … E agora?

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