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O meu primeiro contacto com Alain Resnais, já lá vão mais de 50 anos, foi “O Último Ano em Marienbad”. Fascínio e perplexidade.

Fascínio partilhado para a meia dúzia de pessoas que ficaram na plateia do cinema Roma, perplexidade partilhada com todos os outros que abandonaram a sala. Fascínio e perplexidade que me fizeram voltar a ver o filme uns dois dias depois. Crescia o fascínio, a perplexidade ia-se apagando. Ainda antes de rapidamente sair de cartaz fui vê-lo uma terceira vez. Agora era só fascínio. A perplexidade tinha-se apagado definitivamente.
Quando li que Alain Resnais disse que no filme o que quis foi “determinar se é possível representar, mesmo aproximadamente, a mecânica de pensamento, não na realidade, mas nas mentes dos personagens.”, tudo o que já era claro, mais claro ficou.
Associavam-no à nouvelle vague, coisa difícil de poder ser avialada num Portugal censurado. O que nos deixavam ver da nouvelle vague  e de Resnais, indicava que Alain Resnais trilhava um caminho autónomo, diferente. Mesmo que não houvesse nouvelle vague, haveria sempre Resnais. Provavelmente o equívoco foi construído por o “O Ano Passado em Marienbad” estar associado ao novo romance, o guião é de Alain Robbe-Grillet, e o seu outro filme “Hiroshima, Mon Amour”, estar ancorado no romance de Margueritte Duras. Ansiosamentre esperei pelo próximo filme. Nunca se sabia o que passava e como passava nas malhas da censura. Antes de o ver li o livro de Duras, a carta que Resnais escreveu a Margueritte Duras, sobre “Hiroshima, Meu Amor”.

A proximidade com “O Último Ano em Marienbad” que, julgava eu, tinha sido realizado antes, aquelas histórias de amores impossíveis. Uma que luta contra as memórias que o outro não têm, o amor “impossível”, que nunca é impossível, entre duas pessoas que combatem com a imagem de uma guerra  já  distante. Dois filmes românticos, onde flash-back é radicalmente inovador. Ambos numa luta pelo amor, a glória, a seduçã. Onde os amantes, de um ou outro modo, são bem vindos ao mundo, mesmo quando se desencontram num luto imenso que se irá tornar interminável pela ausência do ser passionalmente amado. Mas num e noutro caso celebra-se o triunfo do amor mesmo se.
Alain Resnais entrou no meu universo para dele nunca mais sair. Só muito mais tarde, bem depois do 25 de Abril, vi alguns dos seus documentários Sobre Van Gogh, Gaugin, o Picasso de Guernica mas entre todos destaca-se  “ A Noite e o Nevoeiro”um belíssimo libelo contra o nazi-fascismo. Um filme que como ele disse “foi uma questão de não fazer mais um memorial de guerra, mas de pensar no presente e no futuro”, ficando a perceber porque Truffaut dizia que ele era um cineasta de esquerda.

 Melhor o percebi quando vi “Providence”, realizado há 36 anos.

Uma espécie de comédia negra, sobre o envelhecimento e a morte. Um exorcismo que resultou em pleno. Alain Resnais não morreu decrépito, morreu no auge em que já vogava há várias décadas, em plena festa com “Comer, Beber e Cantar” estreado poucos dias antes de morrer aos 91 anos estará aí para o demonstrar, como o fizeram “Meu Tio na América”, “Smoking no Smoking”, “Medos Privados em Lugares Públicos”, “Muriel”, “Amores Parisienses”,”,A Vida é um Romance”, “Ervas Daninhas”, “Eu te Amo , Eu te Amo”, “Stvavski”, e tantos outros.

Com Alain Resnais vimos tudo e tudo percebemos melhor com o seu preciso e pensado trabalho artístico, onde nada é espontâneo mesmo que ele o faça sentir como tal, onde o realismo é sempre mais realista por ser extremamente complexo.

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