Internacional

Ucrânia: o regresso da história

A crise ucraniana vem demonstrar que a história regressa sempre para lembrar o passado. Atente-se no mapa da Ucrânia: sensivelmente três quartos da sua fronteira, no norte e leste, separam o país da Bielorússia e Rússia, enquanto a parte menor a divide, a ocidente, da Polónia, Eslováquia, Hungria, Roménia e Moldávia.

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É pelo interior do território ucraniano que trespassam agora as velhas linhas de fractura herdadas dos tempos, não só da guerra fria, como da própria história mais ancestral do país. Linhas de fractura que se deslocaram para leste após a desagregação do bloco do socialismo real reunido no pacto de Varsóvia. É que os antigos aliados da URSS que partilham a fronteira ocidental da Ucrânia fazem agora parte, com exceção da Moldávia, do bloco NATO.

A história da Ucrânia, nascida a partir do principado de Kiev (seculos IX-XI), é rica, complexa e recheada de mudanças nos seus limites fronteiriços e nas configurações nacionais e plurinacionais em que se tem integrado ao longo dos séculos. Bem ao contrário da história territorial portuguesa na península!

A experiência soviética foi apenas a última aventura ucraniana antes da independência de 1991. Antes sucedera-se um prolongado domínio polaco e uma partilha complexa entre os impérios austríaco e russo (final do século XVIII), também aqui com o território ucraniano a ser dividido entre ocidente (Galicia, Ucrânia ocidental) para uns e o restante para russos. Mas sempre com afloramentos nacionais ucranianos. Nas vésperas da Ucrânia soviética (1919), entre 1917 e 1920, diversos Estados ucranianos declararam-se independentes…

Com a vitória da URSS na segunda guerra mundial novos territórios a ocidente, anteriormente integrados na Polónia, Checoslováquia e Roménia, viriam a ser incorporados na Ucrânia soviética. Enquanto outras áreas no leste viriam a sê-lo na sua congénere russa.

A implosão da União Soviética mostrou uma nova configuração territorial. Em que avulta a inclusão da estratégica península da Crimeia, agora uma república autónoma ucraniana, mas que foi russa até 1954. E que continua a manter ainda hoje uma importante base naval russa, sede da frota do Mar Negro. E é também nas margens de território ucraniano que se situa a (não reconhecida internacionalmente) república de maioria russa da Transnístria, Pridnestróvia para os russos, oficialmente território da Moldávia mas ucraniana até 1940.

A presença e influência cultural russa parecem indiscutíveis. “O russo é amplamente falado, em especial no leste e no sul do país. Segundo o censo (2001), 67,5% da população declararam falar o ucraniano como língua materna, contra 29,6% que falam o russo como primeira língua. Algumas pessoas usam uma mistura dos dois idiomas, enquanto que outras, embora declarem ter o ucraniano como língua materna, usam o russo correntemente” pode ler-se na popular Wikipedia. O que bem demonstra a lógica de miscigenação, própria de territórios que integraram grandes impérios! Não é impunemente que russos e ucranianos cruzam os seus destinos há séculos.

Ocidente e leste

Chegados à independência pós soviética de 1991, rapidamente se soltaram as tensões em que se parece dividir o país. Alternadamente e por via eleitoral sucederam-se no topo do poder, nos últimos anos, representantes das duas correntes. Viktor Yanukovytch, o “pró-russo” que até há pouco aproximara o país da UE, ganhou as últimas eleições presidenciais (2010) contra Y. Timochenko (agora encarcerada após um muito polémico julgamento) e sucedeu a Viktor Yushchenko, o “pró-ocidental”.

As recentes aproximações do presidente ucraniano à Rússia concitaram a reação de alguns sectores políticos do país, com óbvio apoio popular. Mas perante um país carente de recursos energéticos e que se confronta com graves problemas económicos, o poder russo jogou uma importante cartada – a proposta de acordos para a venda de gás a preços mais baixos e o financiamento da economia ucraniana. E o que tinha a UE para oferecer? Pouco mais que a promessa de uma associação, acompanhada de pedidos de “reformas estruturais”, leia-se, privatizações de importantes sectores!

A opção pró russa concitou protestos. Mas até aí tudo o que se passava nas ruas se compreendia. Manifestações e protestos. Com reações mais ou menos brutais de polícias pouco civilistas. (Um à parte: onde é já que já vimos isto? Seria diferente se fosse em frente aos nossos palácios de Belém ou de São Bento?).

Soprando a contestação assistiu-se à mais completa e despudorada ingerência pública. Diplomatas e outras figuras políticas europeias e americanas de maior ou menor recorte a agir em plena luz do dia, apoiando o sector contestatário, participando em comícios e dando entrevistas no centro de Kiev para as televisões.

Da União Europeia, vizinha da Ucrânia, esperar-se-ia mais bom senso. O gigante económico revela-se mais uma vez um anão político, cuja principal preocupação tem sido a de subtrair a Ucrânia ao bloco comercial e de união aduaneira que a Rússia procura desenvolver com diversos países da antiga União Soviética. Mas com muito pouco para oferecer aos ucranianos.

Com um conflito descontrolado e as pontes entre as partes cada vez mais frágeis, a contestação parece agora determinada por grupos violentos de extrema-direita. Que nem as próprias lideranças oposicionistas parecem já poder influenciar. E que não auguram nada de bom.

O Estado ucraniano pode estar em colapso e o país em risco de se fragmentar? Com as devidas distâncias não podemos deixar de temer o pior e lembrar as sangrentas fragmentações a que assistimos na antiga Jugoslávia, em várias ex-repúblicas soviéticas, na Líbia ou na Síria.

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