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A Grande Loja do Chinês

ng2970387Gosto de lojas do chinês. Logo que começaram a multiplicar-se como coelhos tornei-me cliente assíduo e navegante amador dos labirintos de prateleiras repletas de produtos exuberantes, muitos deles de utilidade nula.

Enfim, há quem goste de ir à pesca, colecionar selos ou até estatuetas de porquinhos de barro. Conheço gente assim. Eu gosto de lojas do chinês.

Perco-me naqueles corredores, estranho o odor químico exalado de inutilidades várias para o lar, surpreendo-me com a capacidade de copiar dos chineses, gente tão inovadora que até no copianço consegue ser diferente. Adoro as traduções para português inscritas nos rótulos e etiquetas das inúmeras chinesices, cheias de erros crassos tremendamente hilariantes; adoro a adulteração dos nomes das marcas dos produtos que nos vendem, como a mudança de Sony para Sonky, porque é a mentira desvendada instantaneamente sem preconceitos e que mais não provoca do que um sorriso amarelo, como o do chinês; adoro os chineses e chinesas que nos atendem, com um vocabulário limitado aos aspetos técnicos das pilhas para rádios e relógios e, com sorte, com competências em matérias de lâmpadas economizadoras.

Gosto de lojas do chinês, pronto.

Gosto porque naqueles espaços, dos pequenos aos gigantescos, descubro sempre, mas sempre, coisas de que preciso mas que não sabia existirem, e coisas de que não preciso, mas que quero ter. É muito gratificante.

Por tanto gostar das chinesices fico intrigado com a preocupação súbita da Câmara Municipal de Lisboa e da Inspeção Geral das Atividades Culturais, tutelada pela Secretaria de Estado da Cultura, com a transformação do cinema Londres em loja chinesa. Se fosse uma loja de discos, como a que foi instalada no Cinema Éden, em plena Praça dos Restauradores, há muitos anos atrás, pelo distinto cavaleiro de Sua Majestade a Rainha de Inglaterra, Sir Richard Branson, e talvez o presidente António Costa e o Secretário de Estado Jorge Barreto Xavier achassem que seria uma mais-valia para a cidade, porque os turistas, claro, adoram comprar discos de artistas dos seus próprios países na principal praça da cidade que visitam. Agora, uma loja do chinês num cinema chamado Londres, isso é demais. Sir Branson ficaria ofendido, para já não falar da rainha…

O mais interessante desta história é, porém, perceber a diferença de entendimento e a indignação geradas pela abertura de uma simples loja chinesa, encarada como um atentado à cultura e património da cidade, e a privatização do que restava em mãos públicas do capital da EDP. É da Electricidade de Portugal que falo, empresa estratégica que deveria ser património de todos nós não sujeito ao jogo dos interesses privados e do lucro, transformada, essa sim, em grande loja do chinês pelo atual Governo pela módica quantia de 2.693.186.548 euros, número difícil de descodificar, mas aquele que que os grandes comerciantes chineses da Three Gorges deram por 780.633.782 ações da empresa, correspondentes a 21,35 por cento do capital da EDP. Ou seja, quem lá manda são eles, ainda que por lá andem também uns espanhóis e a família Mello a dar umas dicas, num negócio que o Demétrio Alves antecipou AQUI em dezembro de 2011.

A preocupação com o Cinema Londres é, pois, evidentemente excessiva (claro que queria dizer hipócrita) num país que se está a transformar numa grande Loja do Chinês.

Quando nos devolverem a EDP, que é nossa, prometo que deixarei de ir a Lojas do Chinês. Até lá, não prescindo de tão grande prazer.

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One thought on “A Grande Loja do Chinês

  1. Pedro Mota diz:

    Sem chauvinismo (é preciso desculpar-me e não parecer fora de moda) mas com patriotismo, e adverso ao cosmopolitismo (ideologia e prática do estádio imperialista do capitalismo, mas sem racismo: aí está de novo) prefiro lojas portuguesas, das rascas às de qualidade (do estrangeiro só com qualidade), e também uma política de soberania à subserviência aos impérios de aquém (UE), de além atlântico (EUA) e, não esperem pelo futuro, do Império do Meio.

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