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O(s) Panteão Nacional

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Um Panteão começou por ser um templo que os gregos e romanos consagravam a todos os deuses, sendo actualmente um edifício consagrado à memória dos homens ilustres e onde se depositam os seus restos mortais.

Em Portugal existem dois panteões nacionais. O de Lisboa, na igreja de Santa Engrácia, que passou a ter esta função a partir de 1916, e o de Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz, a partir de 2003.

 

O panteão em Coimbra deve este estatuto à presença tumular dos dois primeiros reis: D. Afonso Henriques e D. Sancho I.

 

No panteão, em Lisboa, estão sepultadas as seguintes personalidades:

 

  • Almeida Garrett, escritor (1799-1854)
  • Amália Rodrigues, fadista (1920-1999)
  • Aquilino Ribeiro, escritor (1885-1963)
  • Guerra Junqueiro, escritor (1850-1923)
  • Humberto Delgado, opositor ao Estado Novo (1906-1965)
  • João de Deus, escritor (1830-1896)
  • Manuel de Arriaga, presidente da República (1840-1917)
  • Óscar Carmona, presidente da República (1869-1951)
  • Sidónio Pais, presidente da República (1872-1918)
  • Teófilo Braga, presidente da República (1843-1924)

 

Este panteão abriga ainda os cenotáfios (monumento sepulcral erigido em memória de um morto sepultado noutra parte) de alguns dos grandes nomes da história de Portugal:

 

  • Nuno Álvares Pereira (1360-1431)
  •  Infante D. Henrique (1394-1460)
  •  Vasco da Gama (1460?-1524)
  •  Pedro Álvares Cabral (1467-1520)
  • Afonso de Albuquerque (1453-1515)
  •  Luís de Camões (1524-1580)

 

Tudo isto vem a propósito da grande discussão do momento: deve ou não o corpo de Eusébio ser sepultado no panteão nacional? Suponho que o de Lisboa.

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Devo confessar que não sou isento em relação a Eusébio. Foi, é e será um dos meus ídolos. Não têm conta os momentos de pura felicidade que ele me deu.

 

Pense-se a questão central: quem deverá ser sepultado ou estar simbolicamente presente no panteão nacional? Penso que todos concordaremos com a seguinte resposta: os grandes heróis ou mitos da nossa história.

 

Pelo que se tem dito e escrito nestes últimos dias pela grande maioria das pessoas, parece que Eusébio quase que faz a unanimidade: já entrou na categoria dos imortais. Utiliza-se normalmente, em relação a ele, o mesmo tipo de argumentos que serviram para levar Amália para o panteão nacional: foram os dois únicos faróis portugueses que se avistavam em todo o mundo durante o período fascista; são conhecidos em todo o planeta; a sua obra, os seus feitos são impossíveis de ser esquecidos; elevaram o nome de Portugal a um patamar de reconhecimento internacional que nenhuma personagem lusa no século XX conseguiu; estão profundamente enraizados no coração dos portugueses. Reconheço estes argumentos fortes e verdadeiros.

 

Depois aparecem os poucos que são contra. Utilizam o mesmo tipo de argumentos que serviram para tentar impedir o acesso de Amália ao panteão nacional: reconhecem o valor de cada um deles, a sua contribuição para elevar o nome de Portugal, mas … não passam de um simples futebolista ou de uma simples fadista. Por outras palavras, elevam o fado e o futebol a uma categoria menor. Importantes são os políticos, os escritores, e outros que tais. Não me revejo neste tipo de argumentação. Não existem actividades “maiores” e actividades “menores”. Existem pessoas “menores” ou “maiores” em cada actividade.

 

Este tipo de argumentos não devem, no entanto, ser vistos a “preto e branco”, pois senão teríamos também um movimento forte para levar José Saramago para o panteão nacional, principalmente por aqueles que consideram a escrita como uma actividade nobre, a “crème de la crème”. Saramago foi um dos maiores escritores de sempre em língua portuguesa. Terá algum defeito de fabrico … político.

 

Olhemos para os nomes daqueles que têm os restos mortais no panteão de Lisboa. Exceptuando Almeida Garrett e João de Deus, todos viveram mais ou menos anos no século XX e os anos mais importantes das suas vidas em termos de reconhecimento público foram passados no mesmo século.

 

Façamos agora um exercício de imaginação: pensemos num tratado histórico monumental, digamos de 1000 páginas, para a história do século XX português: que espaço ocuparia cada um deles? Será que teríamos de consultar a cronologia existente no final do livro para enfim aparecer o nome de algum deles? Façamos o inverso; um pequeno livro de 100 páginas que retratasse todo o século XX. Quem lá caberia?

 

Faça-se um exercício de imaginação ainda maior: um tratado de 9000 páginas, 1000 por cada século da nossa história enquanto país, pois já vamos com a venerável idade de 870 anos. Será que algum destes nomes nem na cronologia final teria lugar? E o contrário; toda a nossa história em 500 páginas. Quem lá apareceria?

 

Olhemos agora para os cenotáfios: alguém tem dúvidas que as figuras que simbolicamente representam têm lugar reservado em qualquer tratado da nossa história?

 

 Passemos para o panteão de Coimbra. Existirão dúvidas do lugar central que seria atribuído a D. Afonso Henriques? E mesmo D. Sancho I não teria direito pelo menos a duas ou três linhas para realçar o seu papel fundamental no povoamento das terras conquistadas aos mouros? 

 

Observemos os escritores que estão no panteão nacional, não para lhes tirar méritos, mas para reflectirmos sobre as razões de lá faltarem escritores como Gil Vicente, Eça de Queiróz ou o padre António Vieira. Não se sabe dos corpos? Coloquem lá os seus cenotáfios.  Não, não me esqueci de Fernando Pessoa, cuja ausência é para mim incompreensível.

 

Falando apenas nos casos recentes dos nossos mortos com estatuto nacional e mundial: será que Eusébio deveria ir para o panteão nacional? E Saramago? E Amália deve lá estar?

 

Devo confessar que não sei. Se fosse pela emoção, pelo sentimento, por tudo o que me deram, o que nos deram e pelo que deram ao país, diria já que sim, convictamente.

 

Mas o panteão nacional não é isso, não é o momento, a emoção fugidia, o cavalgar da onda. O panteão nacional deveria ser um lugar para homenagear os portugueses que se destacaram para lá do que se evidenciaram os portugueses extraordinários. O panteão nacional deverá ser um lugar de excelência ou corre o risco de se tornar um lugar banal.

 

Só existe uma forma de avaliar essa excelência: o tempo. Talvez uma geração, talvez duas gerações, se calhar mais, para se perceber a diferença entre a espuma dos dias, as notas de rodapé da história e o que fica para a eternidade.

 

Termino com duas notas de rodapé.

 

  1. A frase extraordinária da senhora que ocupa o segundo lugar da hierarquia do estado, como presidente da Assembleia da República, a explicar que o transladar um corpo para o panteão nacional saía muito caro. Infeliz pátria que tem figuras de topo que não sabem diferenciar entre dinheiro e valor simbólico.
  2. Agora que estamos quase a comemorar os 40 anos de Abril, este governo e os seus acólitos têm conseguido tirar o “25 de Abril” do panteão nacional e estão quase a lançá-lo para a vala comum. Talvez se enganem, não se esqueçam que temos um ditado que diz que a vida começa aos quarenta.

 

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6 thoughts on “O(s) Panteão Nacional

    • Alvaro Santos diz:

      Pelo que eu escrevi, depois de qualquer personagem morrer, teriam de passar pelo menos 50 a 75 anos depois da sua morte (2 ou 3 gerações), antes de ser aberta a discussão, sobre se os seus restos mortais deveriam ou não ir para o panteão. A forma como leu o que eu escrevi, ultrapassa-me.

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  1. Pedro Mota diz:

    Peço desculpa por dizer isto. Por mais excelente e admirado que seja um marceneiro, nunca pode ter o valor de um grande escultor. Não me revejo no relativismo pós-moderno. Um futebolista pode ser muito bom mas não pode contribuir para o enriquecimento espiritual do país e dos homens quanto um escritor, um grande político, um grande cientista.

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    • Alvaro Santos diz:

      Obrigado por ter lido o artigo com atenção. Não concordo consigo, mas respeito a sua opinião, que será correta quase sempre, mas que na minha opinião não se aplica aos seres de eleição. Por isso acho que deverá passar sempre um considerável período de tempo, antes de ser tomada qualquer decisão; se afinal estamos a falar de pessoas excepcionais ou apenas pessoas muito boas na sua época e na sua profissão. A proximidade do tempo não é, quase nunca, boa conselheira. Não é por acaso, que as representações simbólicas daqueles que estão nos cenotáfios não levantam grandes discussões: O último deles a morrer, Luís de Camões, foi em 1580. Ou seja passaram mais de 3 séculos, até chegar (simbolicamente) ao panteão nacional.

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