Cultura, Geral, poesia

SAUDEMOS UM POETA

Hoje, Manuel Gusmão aniversaria.

Saudemo-lo, saudando um dos mais brilhantes intelectuais, um dos grandes poetas portugueses contemporâneos e um militante comunista

Farewell, Gravura de Bartolomeu Cid dos Santos

FAREWELL, gravura de Bartolomeu Cid dos Santos

A VIA LÁCTEA

Cegos o dia e a noite, as mãos errantes e alucinadas

conhecem na extrema proximidade entre água e água

uma longínqua constelação na cegueira fulgindo.

 

É quando a matéria do mundo em ondas nos dança

 

e então um no outro se entrança o corpo comum de dois

os seus raios disparando as inúmeras almas. Vermelhas

fotografias ondulam no pequeno e vermelho mar violeta

 

na câmara escura onde nadamos. E nadando rodamos

para o mais longe o mais dentro de nós: Lá onde

entre ti e mim uma fronteira cede e não somos já

quem  éramos; alguém rodando alguém voando o vivo.

 

Assim cruzam as suas revoluções os astros:

 

Esta é a gravitação enlouquecida dos átomos no sangue

o turbilhão nos lugares de um corpo inventado

na mesma língua, noutra voz: a música de uma árvore

 

que é o sol nascente na tua boca iluminada.

 

As mãos e a língua os dedos as unhas os dentes escrevem

a pele e acordam o cérebro do amor: a floresta arenosa

onde te perdes enquanto o mundo docemente se vira para

 

o outro lado. Para o lado em que o verso sem medida

 

bate aos ouvidos da noite que se inclina e roda; para o lado

de onde ouvimos a noite americana: selvagem no coração-,

 a noite de África e da infância, ou a da estepe sem fim, onde

 

eu era jovem e nascia e tu não tinhas vindo. — Agora venho

 

e tu estás aí no rio do corredor entre duas portas e em contraluz

no trémulo limiar em que os mundos se desencontram

e a tua respiração é os mil rumores que a folhagem fazem.

 

Vejo as claras tempestades : os teus pés na chuva do sol.

 

Entre a luz que sobe e a luz que cai, um corpo nasce

um corpo acontece como uma vibração uma vertigem do ar

que subitamente mais denso sobre si se dobrasse.

 

Oiço essa chuva clara em que te ergues, e ardem

os olhos perante as heliografias incandescentes: entre

as tremendas descrições do sol e as gravuras vacilantes

e sobrepostas que o mesmo sol na carne viva imprime.

Quantas vozes numa voz, quanto tempo nesse instante.

E é como se subindo as ervas molhadas eu subisse

tu me subisses até ao rio das pernas navegando,

acendendo nele um músculo que estremece luminoso.

Ou como se sem regresso regressasse àquela artéria

que já na alma trazes de outros longes tatuada.

Por outros corpos escrita: lembro-me de onde ficavam

a nascente dos cabelos, as vértebras encantadas, o sinal

fóssil do insecto de ouro que no âmbar escurecera.

Dobras o cimo de um ombro e vês a onda

Que sobe ao teu encontro, desces agora a queda da água

cais e esqueces-te, longamente te esqueces

do que já escrito fora, lá onde me lês os sentidos perdidos.

Ou seria aí que de uma anca para o ventre descias?

— sim, resvalava pela face oriental de uma duna

até à infindável dobra da virília

e fazia um corpo que fora já o leito de um mar.

Aqui, em dobrando o ilíaco há a bacia hidrográfica

levemente encurvando a enseada

com o monte da deusa sobre o pequeno mar de dentro. O sabor o som o olor

mudando, subindo, rodando: a nossa pequena ilíada.

Ou de entre os seios à garganta seria já outra a travessia?

Ter-se-ia, lá, a segunda mão perdido dos seus dedos?

E a boca que após ela sobe diria delirando mansa as suas

sílabas alumiadas, a albumina o alúmen a luz do lume.

De um sol a outro sol, o suor e o sal, o púbis e a axila

o silvo do sangue; a asfixia feliz da alegria e os sismos

que abalam os corpos em guerra até à paz perpétua.

Ou não me lembro. Ou és tu agora quem me escreve.

Das espáduas, de onde veremos as águas nascendo

altas para lá das árvores — ao pescoço que me estremece

-subindo  eu até à trémula glória da nuca e àquele  luar

que  se acende quando os teus lábios os olhos me fecham.

-Reconheço a língua que me humedece os cílios
ou contra os dentes me diz a concha interior e

o períneo que me deslizas, deslizo como a uma neve nocturna

e quente e eterna até à escura rosa do ânus.

Como se perdida fosse e sem remédio

a memória perdidamente contornas o contorno das nádegas

que  intensas se põem tensas: doce pedra frangível.

E eu com a minha mais íntima boca procurando a tua

pronta  e devagar como se dançando e rodando fosse

e to devorasse enquanto devagar avanças; sim,

avanço pela alma da rosa vulvar; e mais dentro me desdobras

envaginando o músculo em que pulsa o novo coração:

O animal amante e a coisa amada trocam de lugar

e  confundem a voz e os dedos, os sucos e os nomes

que  se enleiam, deslizam e afundam na seda acesa

ou  no veludo azul em que a noite sobe até à flor do dia.

Os meus céus bivalves movem-se e são as nuvens rosa

em que te pões poente; — dizes pétalas em torno do centro

vazio  da rosa; digo cortinas redondas e macias que na alma

escondem  e revelam a cena nocturna da sideração vermelha.

Nuvens, pétalas, cortinas que o meu falo t                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   e fala e há uma  praia

movente movediça que me sobes, maré que pelo rio da pele

nos invade, até ao teu pescoço alto e junto aos tenros  lóbulos,

até ao cérebro em que o olfacto uma flor abre fluorescente.

Na fronteira do verso, subimos até à explosão esplendente

do outro verso: kíríe: e não sabemos já o nome que dizemos.

Escreves o que não lembras. Seria o eco entre fragas e fráguas.

Seria o jacto e o júbilo: A thing of beauty is a joy foi ever.

Tão longa para tão pequena morte, a alegria seria.

O terceiro : o comum de dois é quem fala: Bons condutores

de luz, eis que a condensam e com ela tecem um alpendre

precário sobre a duna perene; onde o mar os filma. E esse filme

é cosa mentale, mas uma coisa atravessada e que atravessa

de um a outro os corpos ambos, no sangue deitando, abrindo

um veneno dulcíssimo, uma doença vazia e lactescente. E então

o novo e impossível vivente diz: Falem. E alguém responde:

Dos joelhos, onde se dobra a onda, à minha cintura vens

venho  e fazes tu dançar a árvore da música e os cabelos

da deusa, na estrofe que o oceano antigamente profere

contra o sol, como se dissesse a sua noite: esta é

a noite minha amada, a matéria do amor, o colar em chamas

que aos amantes abraça os rins — de quem as pernas?

os braços de quem? As dele ou os dela, que importa?

quando é aí a onda, o onde nasce a manhã da terra.

É uma pequena pedra que se abre: e é uma rosa

constelada e sem fim. Metamorfose e incêndio: a doce

transformação do mundo. Subir ao nascimento: inventar:

A via láctea. A terra fluvial da manhã. E tudo recomeça:

O anel de água, o delta da vénus incessante, as aves

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2 thoughts on “SAUDEMOS UM POETA

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