História, Política

O tímido de Pepetela

220px-The_Ordeal_by_Fire_by_Dierec_Bouts_the_OlderLuanda é, num sítio magnifico, uma cidade excessiva.

A propósito daquela urbe, das relações pessoais, familiares, amorosas, sociais, económicas e políticas dos seus habitantes, criou Pepetela mais um dos seus escaldantes murais.

Trata-se do novo romance “O tímido e as mulheres”, leitura indispensável para quem queira ir mais fundo na compreensão das coisas angolanas, não se limitando aos vulgares lugares comuns.

A algazarra que por aí vai sobre as relações políticas e económicas luso-angolanas, atesta a existência de profundas incompreensões mútuas.

E não será através do espalhafato oportunista que se fortalecem laços entre os dois povos e países.

Por cá, o ministro foi lorpa nas suas declarações e correções.

Mas, mais grave, é a escalada revanchista dos lusos que se arvoram em padrões de ética e democracia. Principalmente dos saudosistas do Savimbi. Foi confrangedor ouvir João Soares tentar contrariar , quase histérico, o embaixador Gomes da Cruz quando este lhe demonstrava a consabida aceitação internacional dos últimos atos eleitorais angolanos.

Por lá, também alguns sinais de um excessivo e incomum nervosismo.  Não é completamente legível a declaração presidencial de que “têm surgido incompreensões ao nível da cúpula política [portuguesa] ”, porque, do que é conhecido publicamente, não são as cúpulas políticas portuguesas que se têm pronunciado contra os governantes angolanos.

Por experiência própria, fundamentada em diversas deslocações realizadas no âmbito empresarial e político, conhecem-se algumas das potencialidades e das dificuldades do trabalho e das relações entre portugueses e angolanos.

Sim, é óbvia a necessidade do respeito mútuo e bom senso.

Mas, quando estão em jogo interesses económicos, financeiros, sociais tão grandes – é bom não esquecer o grande fluxo migratório bidirecional -, não ignorando os valores culturais e políticos, a coisa não chegará a porto seguro apenas com boas intensões e palavras mansas.

Com Angola não pega o discurso como o de há séculos centrado em conceitos como hermanos e irmãos.

Aliás, nem com a Espanha ou com o Brasil isso algum dia resultou, salvo num imaginário serôdio de cunho paternalista e salazarento.

Embora, no âmago do atual desaguisado, também haja uma ponta de maka histórica e cultural, a questão de fundo radica, do nosso ponto de vista, nos interesses económicos característicos de sociedades ajoelhadas perante o referencial capitalista, sobreaquecidas pelos oportunismos, pelos novo-riquismos e pela concorrência desumana, agora extremada pelas crises e pelas desigualdades. E isso aplica-se tanto em Angola como a Portugal.

Ainda com referência à citada ficção romanesca, pode afirmar-se que, na vida real angolana, existem, de facto, muitos Jeremias Guerra. Mas, é incontornável reconhecer que, também em Portugal, no Brasil, em Espanha e em muitos outros países ditos “civilizados”, se trata de um personagem comum. Só que, nestes países, tiveram muitas décadas para enriquecer, de tal forma que hoje já podem passar por prestigiados senadores e capitães de industria.

Conhece-se, de experiência vivida, o lamentável espetáculo dado por dirigentes empresariais portugueses, que, hipocritamente críticos da concitada corrupção angolana, a primeira coisa que fazem quando lá chegam é tentar comprar corpos e almas. E diversas vezes se espalham devido à sua alarve apreciação de Angola e dos angolanos.

Mas, é imperioso dizê-lo, também convivemos com atitudes de prepotência inaceitável por parte de alguns responsáveis empresariais angolanos, impantes no seu novel poder, pretensiosos justiceiros de velhas contas coloniais aplicadas impropriamente a sujeitos inocentes.

À política o que é da política, à justiça o que é da justiça, aos jornais o que lhes é devido no seu papel informativo e, se possível, formativo.

Que os julgamentos, os ordálios e as aferições políticas sejam feitos por quem tem verdadeira legitimidade para os realizar.

Aos povos, isto é, a uma grande maioria de trabalhadores e desempregados esmifrados, de cá e de lá, o que daria muito jeito seria o desenvolvimento de relações com interesse mútuo, equitativo e cooperante.

E que vivam os tímidos, porque deles será o regaço das mulheres.

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2 thoughts on “O tímido de Pepetela

  1. Dando de barato que, também “por experiência vivida”, não leio o dito autor, e deixando à margem algumas imprecisões, na generalidade, subscrevo as considerações do texto sobre as relações angolano-portuguesas.
    Lá e cá já é tempo de ir abandonando os velhos complexos: de colonizado e de colonizador!…

  2. Florival Lança diz:

    Parabéns Demétrio.
    Como sempre te conheci, aí estás tu, atento, lúcido e objectivo, mostrando como é fácil ler, desde o livro do Pepetela até às inadmissíveis makas em que esta elite de idiotas não pára de nos meter.
    Gostei de te “ouvir” novamente.
    Abraço

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