autarquias, Geral, Política

VOTOS INDEPENDENTES,BRANCOS E NULOS

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O chamado fenómeno dos independentes tem muito que se lhe diga. Coloca em causa mesmo a ideia do que é a independência política.

Nas recentes eleições autárquicas, foi assunto que deu pano para mangas nos comentadores comutáveis das televisões, todos de direita, em que uns são mais de esquerda e outros mais de direita. Houve mesmo um momento comovente de fé portista de Miguel Sousa Tavares, a bater com a mão no peito afirmando, sem uma carquilha no seu pensamento sem sobressaltos ou qualquer espessura, que um independente ganhar a Câmara do Porto, “só mesmo na minha querida cidade poderia acontecer”.
Rui Moreira é o caso mais mediático, por concorrer na segunda cidade do país, o que o sobrepôs a imagem da sua vitória à de Paulo Vistas, que concorreu sob a capa de um presidiário que andava fugido no meio de uma floresta de recursos, requerimentos, pedidos de clarificação, que lhe permitiram tornar a pena que está a cumprir irrisória. Caminhos ínvios da «independência» com os protagonistas a bater com convicção a mão no peito, gritando “ao Porto”;”a Isaltino”, “a Matosinhos”; a Etecetera”

Fixemo-nos no mais mediático: Rui Moreira. Independente? De quê? De quem? Dependente de inúmeros interesses económicos, não por obra e graça do acaso é presidente da Associação Comercial do Porto, apoiado explicitamente por uma expressiva facção do PSD-Porto, os barões assinalados do PSD-Porto, indicado por Rui Rio como seu herdeiro e sucessor, candidato não oficial do CDS, apresentou a sua candidatura hipocritamente como independente, unicamente por não estar filiado em nenhum partido, o que não quer dizer que não tenha partido e não tenha negociado opacamente com partidos ou facções de partidos, antes de decidir ir a votos.

Beneficiou, como todos os que concorreram em listas de cidadãos, com a ideia perigosíssima para a democracia, que os políticos são todos iguais, a política a mesma merda , só mudam as moscas. Disso é expressão, mais que os votos nos «independentes», os 3,87%, 193 357 de votos em branco e parte substancial dos votos nulos, 2,95% -149 151 votos, que parte substancial não deve ter sido engano mas a anulação deliberada do voto, somados é um número praticamente igual aos de votos em grupos de cidadãos. Eleitores que se deram ao trabalho de ir às urnas, votar protestando contra os partidos ou contra as escolhas dos partidos em que eventualmente votariam. Subjacente a ideia perigosíssima que os partidos são dispensáveis, mesmo que afirmem o contrário.

Dizia Rui Moreira, entre outras coisas no seu discurso pobre, medíocre e chauvinista que a sua eleição era uma lição para os partidos. Mais que uma lição para os partidos é um aviso, um sério aviso para a democracia, para o sistema democrático. Mais do que tudo isso tenha sucedido por Menezes se ter imposto ao PPD, no Porto, e forçado um idiota supostamente inteligente a candidato à Câmara de Gaia, de o PPD ter obrigado a concelhia de Sintra a apoiar um Pedro Pinto sem ideias por nunca as ter tido e currículo pouco recomendável, ou um Moita Flores, impante na sua imagem mediática e no seu fácil falazar, em Oeiras, do PS ter ido desenterrar do seu sossego sadino Torres Couto pensando que o seu passado sindicalista amarelo o ia sentar no castelo de Alcácer, ou julgar que Matosinhos estava no papo contra o seu militante de horas antes, ou que a esperteza saloia do seu porta-voz João Ribeiro dava para driblar as cabeças dos sadinos. Mais que derrotas mal avisadas dos partidos, o que verdadeiramente está em perigo é o nosso sistema democrático, a sua lei fundamental.

Quarenta anos de partidos a mentirem deliberadamente nas campanhas eleitorais para ganharem os votos que lhes permitem governar contra tudo ou quase tudo o que prometeram e juraram a pés juntos, descredibiliza a política e os políticos. Seria bom que fossem os políticos desses partidos levados pelo vento do protesto democrático, o que faria os votos transferirem-se para políticos e partidos acreditáveis. Isso não tem acontecido ou tem acontecido muito lentamente. Crescem mais rapidamente os votos em branco, os votos deliberadamente nulos, dos que acreditam na democracia. Grave é a crescente abstenção dos que se desiludiram completamente e acham que nem vale a pena deslocarem-se para ir votar. Paralelamente também surgem a concorrer aos votos os «independentes» e nas ruas os protestos de grupos incolores, que tanto albergam os que não se revêem honestamente em nenhum dos partidos existentes, mas que na hora do voto tomam partido, como os acham que os partidos são dispensáveis. São ideias em crescendo que, perigosamente, estão a chocar o ovo da serpente. O êxito mediático de um suposto exercício de cidadania em prol da limpeza do sistema democrático, com nome de detergente “Revolução Branca”, para melhor entrar no ouvido, é uma das galinhas que chocam esse ovo.

Essa realidade é alimentada pelos partidos ditos do arco da governação, que têm uma crescente indiferenciação ideológica e programática, em que a democracia representativa já não é o lugar da luta de classes por via pacífica, como os velhos sociais-democratas proclamavam. Esses partidos são representantes de determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. Reduzem praticamente a sua actividade à conquista, a qualquer preço, do voto, não têm definição ideológica. O apelo continuado do Presidente da República a um acordo entre esses partidos e a um governo de «salvação nacional» é expressão deste estado de coisas.

Estado de coisas sustentado pela comunicação social com a televisão em destaque. Programações prontas a ver e esquecer que tripudiam a vida real, debates em que a conversa aprofundada é substituída pelas tagarelices insignificantes dos talk-shows, entre interlocutores e comentadores intercambiáveis, mais a lamentável imprensa que se espraia nas bancas, constroem um imaginário em que se é preso a uma grelha feita à medida para deixar de pensar. Ou pensar muito limitadamente. Sobretudo para pensar que fora do quadro de vida actual não existem soluções que não sejam as que esta sociedade, sem dignidade nem respeito pela vida humana, oferece.

Os partidos do chamado arco da governação, não deixam de estar atentos à sua sobrevivência e, ao contrário do que disse Rui Moreira, o campeão dos «independentes», aprendem com os resultados eleitorais ou eles não dependessem dos votos. Fazem leis iníquas que contrariam os resultados eleitorais em seu favor (leiam Demétrio Alves, um entre vários exemplos que se podem dar). Ameaçam e negoceiam nos subterrâneos outras leis eleitorais que sob o manto da demagogia da aproximação do eleito ao eleitor, da modernização do sistema, de «aprofundar» a democracia o que de facto procuram é mimetizar o sistema partidário norte-americano, onde o debate ideológico é nulo. A apologia da democracia confunde-se com a competição entre partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Nos interstícios o fascismo espreita esfregando as mãos invisíveis dos mercados e as mãos visíveis de governos que, como o que agora nos governa, são governos fora da lei. O exemplo do nosso é paradigmático. Um governo que viola sistematicamente a lei fundamental, a Constituição, o que na Constituição tem resistido aos sucessivos ataques do PS, PSD e CDS.

O que parece ser uma vitória da democracia, da cidadania é um real e vivo perigo para a democracia e um fenómeno crescente em toda a Europa. Uma Europa de políticos medíocres, sem visão histórica e política. Serventuários de interesses económicos espúrios, entrincheirados na clandestinidade dos mercados.

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One thought on “VOTOS INDEPENDENTES,BRANCOS E NULOS

  1. José Luis Porfírio diz:

    Meu Caro
    o problema é que pode estar a cercer na sombra um “salvador da pátria”, ainda informe para cavalgar entre a indignação e a ignorância pois:
    “Quem não sabe ou não recorda; repete!”
    José Luis Porfírio

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