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Não é tempo de complacência

Foto tirada daqui

Devemos questionar-nos para onde é que a economia vai, não onde está. E o que é claro é que a economia está a melhorar, melhorou a sua balança externa e há sinais de que as reformas estão a começar a produzir efeitos. Mas não é tempo de  complacência, disse hoje o economista chefe da OCDE, numa palestra, em Lisboa.

Logo que acabou o seu discurso, quando já se tinham esgotado as entusiásticas palmas dos entusiásticos adeptos do processo de “ajustamento”, Pier Carlo Padoan saiu porta fora disposto a ir conhecer a bela Alfama, dar um saltinho a Belém e provar os famosos pastéis, apreciar os Jerónimos e, se sobrasse tempo, ir ainda a Cascais, essa Riviera plantada onde o Tejo se oferece ao mar.

Padoan tinha ouvido falar das maravilhas gastronómicas, da beleza das paisagens e da simpatia dos portugueses, aquele povo que sabe falar todas as línguas, capaz de se fazer entender até entre os bosquímanos. Por isso, saiu confiante da sala da palestra, dispensou seguranças e lançou-se à primeira etapa da sua visita, admirando-se com as ruelas de Alfama. Passou por casas de fado, viu os estendais, sorriu para as mulheres que o saudavam dos postigos. Estava feliz…

Mas há sempre surpresas. Mesmo entre os portugueses s simpáticos.

Primeiro, deparou-se com um jovem mendigo, ainda com bom aspeto, claramente novo mendigo, que lhe pedia ajuda, porque a mulher, e ele, tinham sido vítimas do “ajustamento” e estavam os dois no desemprego, prestes a perder a casa para o banco e já incapazes de pagar o infantário da filha de 4 anos. O mendigo contara-lhe tudo isto em inglês, porque se os portugueses entendem todas as línguas, é sabido que os outros não percebem patavina dos que lhes dizemos. O inglês era perfeito, pois o novo mendigo tinha um mestrado, mas nem isso lhe tinha valido no “ajustamento” em curso.

Padoan alçou a sobrancelha, espantado com a história e o inglês perfeito, mas, mesmo perante a súplica pungente do novo mendigo, não hesitou:

— Não é tempo de complacência. Não pode ser…

O economista chefe olhou com desdém para o novo mendigo e comentou com a esposa, que o acompanhava nesta viagem, porque a ajuda de custo de economista chefe, mais as milhas da companhia aérea, davam bem para a trazer a conhecer a maravilhosa Lisboa:

— Estás a ver, mais um que andou a viver acima das suas possibilidades. Não podemos ter complacência.

Pier Carlo já se apressava em direção ao Terreiro do Paço quando, à porta do café onde parou para matar a sede, que o calor de setembro em Lisboa sufocava qualquer um, se admirou por ter de suportar novo pedido de “qualquer coisinha para comer”.

O caso agora mudara de figura. O mendigo era também jovem, mas já era dos veteranos e descarados que já tinham desistido de contar a história desgraçada que os levara até à humilhação de ter de pedir esmola.

Pier Carlo olha para a mulher, já arrependido de ter dispensado a segurança, e despacha o mendigo veterano em alta velocidade:

— Não é tempo de complacência, tenha lá paciência.

O mendigo veterano, sem emprego há dois anos, sem a casa há um, depois de a entregar ao banco a quem andou dez anos a pagar as prestações do empréstimo bancário, mais o seguro de vida, abandonado pela mulher, que tinha regressado à casa dos pais zangada com o fracasso do marido — “és um merdas”, costumava ela dizer-lhe — ainda teve tempo de gritar ao economista-chefe qualquer coisa impercetível, exceto a declaração inequívoca que vociferou sobre a mãe de Pier Carlo.

O economista começava a ficar preocupado, mas, maravilhado pela luz única do fim de tarde que descia sobre o Tejo, conseguiu relaxar e ainda pensar que a ajuda de custo da OCDE era mesmo jeitosa para trazer a mulher a estas coisas.

No Cais do Sodré, acontece o impensável. Um rapazote de boné de pala à malandro, ténis de marca, t-shirt da Boss, brinco de prata na orelha e barbicha mal-amanhada põe-lhe a navalha ao pescoço e diz-lhe que precisa de lhe fazer um “ajustamento” à carteira. Este até lhe falou em francês, que os malandrecos cá da terra até sabem línguas, pois claro. É bom para o negócio…

Padoan reclama, ainda que a voz lhe tenha quase desaparecido, a mulher chora e pede ao rapazote que tenha pena do seu marido, afinal de contas apenas um velho indefeso que apenas queria conhecer Lisboa, o Tejo e esses maravilhosos seres que são os portugueses, de quem lhe disseram serem pessoas serenas, calmas, simpáticas e sempre dispostas a ajudar os outros.

O rapazote do boné, incrédulo, mas sereno, apertou a navalha ao gasganete do economista chefe e, simpático, apenas disse:

— Não é tempo de  complacência. Tenha lá paciência…

Não se passou assim a história, mas podia muito tem ter-se passado. Esperemos que não…

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