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Vidas…

Ao longo da vida conheci pessoas com as quais perdi, de todo, o contacto. Por onde andará a Maria, a mais bela rapariga do bairro, e o Álvaro, seu perpétuo namorado. E por onde andarão tantos outros. Há dias que os recordo e sinto saudades.

Há muitos anos estes jovens tinham devaneios improváveis, próprios daquelas idades.

Num destes dias, enquanto deambulava por ruas apinhadas de gente – gente que caminha apressada, indiferente a quem passa, com e sem rumo certo – fui surpreendido por dois vultos que, aos tombos, perdidos, com roupas pardas, caminhavam sem destino e, passo a passo, aproximaram-se de mim, devagar, querendo ser (como se tal fosse possível) invisíveis, só para não incomodar quem por ali passava.

Eu… quase não os reconhecia.

Ele, ao dar comigo, desviou o olhar, assustado. Ela recuou, temerosa, de olhos transparentes “como o fundo do mar para os afogados”… e assim ficaram, calados, imóveis… Tive vontade de chorar. De chorar, como fazem as crianças com birras, batendo os pés, gritando e arrepelando os cabelos. Absurdo? Mas foi o que me deu vontade de fazer. Todavia, mantive-me quieto.

Aproximei-me. Lembro-me do som da minha respiração apressada, do bater aflito do coração e, apesar dos esforços para parecer que estava calmo, normal, alegre até por encontrar dois amigos, não me contive. O coração venceu a razão. Os meus olhos e os deles nublaram-se e, a todo o momento, anunciava-se a queda de chuva copiosa, não de paixão mas de raiva. Parecia Inverno.

Abraçámo-nos. O sol já se escondia.

As folhas das árvores tombam, amareladas, e o vento leva-as pela rua fora. A iluminação pública desponta e inunda de luz a cidade escura, os carros passam, buzinam, o sino da igreja toca assinalando mais uma hora que passa, um cano de água rebenta na estrada, uma criança chora, as lojas começam a fechar portas, uma ambulância assinala a sua marcha de urgência, as pessoas nem olham, umas correm, outras param …

Não sei se a “vida” os derrotou. Desejo que não.

(Quando se nasce, é a festa, são os risos, as prendas e os desejos de felicidade. Com o andar da vida e da idade, quanto mais se precisa, maior é a distância e o esquecimento.)

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3 thoughts on “Vidas…

  1. Rogério Palma-Rodrigues diz:

    A “distância e o esquecimento” dos outros, enfim, o desamparo. Pior, ainda, porque Deus não existe. Do desamparo à angústia e ao desespero vai um passo. O niilista consequente deve suicidar-se agora, já que a morte o não libertou desse inferno existencial que está e vai durar.

    Assim pensavam alguns, depois da Grande Guerra e seu exício, quando olhavam à roda e nada mais viam que destruição, miséria e fome. E os que nascemos por esse tempo haverão de se lembrar de Camões e de achar justo o seu velho desejo de que “o dia em que nasci, moura e pereça…”.

    Livre associação de ideias conduzindo a um quotidiano, que sem obuses nem canhões, é o do tempo que vivemos, com muito desamparo e crescente incidência de todos os antigos e modernos modos de autodestruição.

    Mas menos razão para o desespero, que, por enquanto, é possível contar com a “proximidade e a solidariedade” dos outros.

    Atravessamos as Pontes e isso torna-se evidente.

    Um abraço fraterno para o Rui, a propósito do seu texto carregado de humanidade.

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