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Morreu um Poeta

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Esta semana morreu o poeta e escritor irlandês Seamus Heaney, Prémio Nobel da Literatura em 1995.

Nasceu na Irlanda do Norte em 1939 e Luz Eléctrica é o seu último livro. Homem de esquerda, a sua obra poética é uma constante surpresa entre a ênfase elegíaca e um conhecimento de todos os legados literários. Para lembrar este poeta maior do século XX, um dos seus últimos poemas numa edição da Quasi.

 

 

 

LUZ  ELÉCTRICA

 

Salvo de vela coagulado, enfarruscado pelo pavio…

A unha do polegar esmagada

Daquele vetusto polegar aleijado era pérola franzida,

 

Quartzo rigoroso, detritos em Cumas,

Na primeira casa onde vi luz eléctrica

Ela sentava-se de pantufas de feltro desapertadas

 

O ano inteiro, na mesma cadeira, e sussurrava

Numa voz que no seu máximo não fazia

Que sussurrar. Ficámos ambos desesperados

 

Na noite em que lá me deixaram para dormir, quando chorei

E chorei sobre as cobertas, sob o esbanjamento da luz

Que deixaram acesa no quarto. “Que te molesta, menino,

 

Que te molesta, valha-te Deus?” Urgente, sibilante,

Aquele molesta remoto e antigo. Águas de caverna assustadoras

Batendo num embarcadouro. E o desamparo dela sem me amparar.

 

Ceceio e relapsia. Redemoinho de inglês sibilino,

Embates de água entre barco e doca, para os quais,

Animula, eu despertava a tempo

 

Enquanto os barcos rumorejavam pelo Belfast Lough ao encontro

Do letargo de cabeça contra-o-vidro próprio de um comboio matinal,

Do cerne de “ora-aqui-estás-e-onde-estás-tu'”

 

Da própria poesia. Traseiras de casas

Como a de casa dela, despensas e calandas

Nos quintais junto à linha de uma Inglaterra fugidia.

 

Um espantalho banal por entre parcelas de pousio,

Depois um campo de futebol de arrabalde, a estranha distância,

Searas como o Campo de Pano de Ouro.

 

E eu também vim a Southwark,

saindo da boca do metro para a luz do sol,

Sopro do Moyola junto à “plaga distante” do Tamisa.

 

 

 

De pé na cadeira de costas em arco, eu conseguia

Chegar ao interruptor. Deixavam-me e ficavam a ver-me,

Um toque na pequena pevide esperava a magia

 

Rodando o botão da telefonia acendia-se a luz

No mostrador. Deixavam-me e ficavam a ver-me

Percorrer à vontade as estações do mundo.

 

Depois elas desapareceram e o Big Bem e as notícias

Acabaram. O aparelho tinha sido desligado,

Tudo em silêncio por detrás do blackout a não ser

 

O clique-clique das agulhas de tricot, o vento na chaminé,

Ela sentava-se  de pantufas de feltro desapertadas

A luz eléctrica brilhava sobre nós, eu receava

 

O veio e a unha enegrecida da unha dela,

Com tal dureza de plectro, de tal brilho furta-cor, que ainda deve

Subsistir por entre as contas e vértebras no solo de Derry.

 

 

 

Notas na edição portuguesa da Quasi/ Luz Eléctrica-Seamus Heaney/ tradução de Rui Carvalho Homem

“Campo de Pano de Ouro”: designação por que ficou conhecido o terreno, perto de Calais, onde Henrique VIII de Inglaterra e Francisco I de França se encontraram, com as respectivas cortes, em 1520, com o propósito de tentar firmar uma aliança. A designação decorre da enorme riqueza dos pavilhões, atavios e outras formas de exteriorização de poder nos quais os dois monarcas rivalizaram, esforçando-se por se impressionar mutuamente.

A referência a Southwark e a “plagas distantes” remete para o início dos Contos de Cantuária de Geoffrey Chaucer. É numa taberna em Southwark que se reúnem os pergrinos apresentados e descritos neste texto. O Moyola , por sua vez, é um rio irlandês importante no espaço de referência da obra poética de Seamus Heaney.

 

 

 

 

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