Política

Assassírios


SíriaSe, em vez de cadáveres gaseados e com aspecto de anjos imaculados, o crime perpetrado na Síria tivesse produzido corpos esfacelados e tingidos de sangue, isso já seria aceitável do ponto vista dos valores humanitários?

No referencial ético dos chefes militares e políticos ocidentais, a tal linha vermelha de Obama, é essa a mensagem legível.

Em entrevista ao canal France 2, o primeiro-ministro francês afirmou: “Fazemos uma exigência: que a comissão das Nações Unidas façam o seu inquérito de forma livre e rápida para que seja conhecida a verdade. Mas, é quase certo que o regime de Bashar al-Assad usou armas químicas contra o próprio povo”, acrescentou.

O governo de Damasco desmente categoricamente o uso de armas químicas na Síria. Numa conferência de imprensa realizada há poucos dias, o ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Walid Muallem, afirmou: “Acredito que nenhum país do mundo use armas de destruição em massa contra o seu próprio povo. E se isso foi feito na Síria, desafio que sejam apresentadas provas à opinião pública”.

Através de uma histérica avalanche de ameaças de bombardeamentos justiceiros realizados com “bombas amigas”, os americanos e seus acólitos querem fazer passar a fantasia de que são possíveis ataques aéreos que apenas destroem armas químicas! É claro que isto é inverosímil, haverá mortes aos milhares e os Estados Unidos serão responsabilizados por elas. Mas, só depois do golpe estar dado!

Fundamentados numa “certeza total e absoluta”, os EUA e aliados afirmam, desde o primeiro minuto, que o crime teve a mão de Assad. Mas, ao mesmo tempo, insistem, tal como a Rússia e outros estados, que deveria haver uma inspecção da ONU no terreno para determinar o que aconteceu.

Em que ficamos: têm a certeza ou não têm? Existem provas indubitáveis de que foi o governo de Damasco o causador do massacre, ou não existem?

Quem não recorda a monumental patranha montada a propósito do Iraque e das suas “armas de destruição maciça?

É credível que os EUA, uma potência que tem meios sofisticadíssimos para espiar tudo e todos, não tivesse já uma simples imagem ou outro qualquer registo para mostrar ao mundo, no caso de ela demonstrar a culpabilidade do regime sírio? Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que, numa área minada por rebeldes, onde nem os inspectores internacionais entram sossegados, teria sido possível às forças do Partido Baath “limparem as provas”?

Al Assad será um homem cruel: é de admitir que ele não hesitasse em usar armas químicas, em caso de necessidade. Mas, também já demonstrou ser um racional que tem resistido a dois anos de ataques dos seus opositores. Aliás, como oftalmologista graduado em Londres, sabe ver bem as coisas. Por que estúpida razão usaria armas químicas expondo-se a uma expectável retaliação que só o prejudicaria num contexto em que até tem dado mostras de resistir?

Os adversários do regime de Al Assad e o designado Exército Livre da Síria já demonstraram que, além de constituírem uma instável e oportunista salada político-ideológica ao serviço do fundamentalismo e dos interesses israelo-americanos, não têm quaisquer tipos de escrúpulos e, em matéria de crueldade, serão ainda piores. Podemos facilmente imaginá-los a usar armas químicas para forçar os Estados Unidos a intervir no sentido da destituição de al Assad.

A CNN noticiou, em Dezembro de 2012, que os EUA estavam a usar mercenários e forças especiais para treinar grupos da “oposição” no manuseamento de armas químicas e que houve uma apreensão de gás sarin pela polícia turca, o qual estava em posse de um grupo afiliado à Al-Qaeda que se dirigia para a Síria.

Não terão sido os adversários de Assad, armados pelos EUA, França, Israel e Inglaterra, que fizeram libertar “um cheirinho” de gases tóxicos que matou as pessoas que aparecem registadas em filmes e fotografias, isto, claro, para forçarem uma intervenção que disfarce as suas próprias debilidades?

Certo é que o número de vítimas mortais não pára de aumentar. São já cerca de 100 mil desde o início do conflito, bem como o número de refugiados, que já chega aos 3 milhões de pessoas.

O governo dos Estados Unidos não pode praticar uma solução política e diplomática por uma simples razão: Israel e o complexo financeiro-militar não querem.

Por isso poderemos estar a assistir a um Obama’s Bluff, tentando fugir aos seus próprios carcereiros.

O que muito dificilmente conseguirá porque, nos EUA, os assassírios ainda têm muita força.

 

 

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