Política

Depois do epílogo

Pneu-Assistência-24-horas1Foi uma crise política criada e protagonizada por ministros e reputados chefes da Direita e ampliada pela entrada em falso do Presidente Cavaco Silva. O país assistiu, durante três semanas, incrédulo e à beira de um ataque de nervos ao que se veio a traduzir… numa dança de cadeiras.  

O que fica?

O esgotamento da credibilidade de Cavaco Silva. A colagem acrítica ao Governo de Passos Coelho tem vindo a retirar-lhe a capacidade moderadora e a autoridade de Presidente. Pouco a pouco passou a ser também alvo de apupos, facto inédito na história presidencial post-25 de Abril.

Após a demissão de dois lideres do Governo, V. Gaspar e P. Portas, e quando se esperava que o Presidente optasse por uma de duas soluções – marcação de eleições antecipadas ou aceitação da remodelação acordada internamente pela coligação da Direita, Cavaco Silva decidiu-se por fazer prova de vida. Optou por tocar a trombeta da “salvação nacional”. Mas, passada quase uma semana de negociações entre os três partidos do auto-intitulado arco governativo, o falhanço foi rotundo. A autoridade do presidente sofreu assim mais um considerável golpe e Cavaco forçado a regressar à casa de partida.

De há muito que Cavaco Silva deixou de ser o presidente de “todos os portugueses”. No centro desse afastamento a sua associação pouco crítica às desastrosas políticas do seu companheiro Passos Coelho. O que não há que estranhar, agora que os portugueses colocaram todos os ovos no mesmo cesto: presidente, maioria e governo – o velho sonho da Direita que Sá Carneiro nunca havia conseguido.

Salvação nacional? A utilização pouco criteriosa da expressão serviu como arma de pressão política, quase criando um frémito nacional. Será que não há(via) “salvação nacional” sem o famigerado acordo? Cavaco foi responsável pela criação de uma clima emocional que rapidamente se desvaneceu com o falhanço das negociações.

A eventual adesão do PS à coligação PSD-CDS seria, obviamente, um mau serviço à democracia e ao funcionamento do sistema político. A mera alternância (não falo em alternativa, porque essa discussão levar-nos-ia longe) política e partidária ficaria colocada em causa com a criação de um grande bloco de poder – mesmo que com o PS fora do Governo, mas a apoiar as principais decisões deste. Significaria um perigoso afunilamento do sistema representativo.

Convém recordar que a Direita, apesar de todas as dificuldades com que se confronta nos diversos campos da sociedade, tem uma maioria absoluta no parlamento. Faltar-lhe-á uma maioria social no país e influencia no mundo laboral, sindical, associativo e nos movimentos socais. É pois de “conforto” político que o Governo PSD-CDS precisa para conseguir impor as suas opções ao país, como adiante se verá.

Cavaco prometia ao PS um “chouriço” para conseguir um “porco”. Oferecendo-lhe eleições antecipadas, isto é, a possibilidade de aceder ao poder mais depressa, atraía-o também para a subscrição de opções que os socialistas têm vindo a rejeitar, nomeadamente os “cortes” de mais de quatro mil e 700 milhões de euros. Uma perigosa roleta em que Seguro não arriscou, não fosse esse entendimento provocar mossa maior no seu partido do que aos partidos da Direita…

As duas caras do PS. A iniciativa de Cavaco Silva reavivou que foi o PS quem chamou a troika, tendo então (Maio de 2011) sido o primeiro subscritor do “memorando de entendimento”. E A.J. Seguro está atado a esse facto. Por muito que lhe custe (?) não se pode desvincular desse compromisso. Não será assim de espantar se o Partido Socialista for convocado para a próxima ronda de avaliações com a troika.

Ou será que o PS concorda com o que se dizia na moção de censura apresentada pelos Verdes e que votou favoravelmente – “trocar o memorando da Troika pela renegociação da nossa dívida, de modo a encontrar uma forma de pagamento que não se incompatibilize com o crescimento económico do país, e que, pelo contrário, tenha nele o parâmetro adequado de nivelação de pagamento.”

Qual das duas faces é a verdadeira?

Pelo meio ficaram as conversações entre os partidos do Centro-Esquerda e da Esquerda. PS com Bloco e este como o PCP. Confirmou-se o que já se sabia. O Partido Socialista continuará, como a sua história o tem abundantemente demonstrado, a preferir entendimentos à Direita. É a forma que se tem revelado mais segura para continuar a ter um papel hegemónico no sistema político. Quando chegar ao poder não deixará de reeditar o bloco central, invertendo os termos da equação que agora recusou!

PCP e Bloco mantêm uma estratégia de pequenos passos de aproximação. Mas, tão pequenos, que mal se dá por eles…

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