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O posto de correios de Castro Laboreiro

correiosEstamos habituados a que a contestação seja uma obra urbana e de gente reivindicativa. Mas as coisas estão a mudar. Por isso, chega a ser comovedor ver as imagens que nos chegam da remota vila de Castro Laboreiro, concelho de Melgaço, bem no meio das serras da Peneda e Laboreiro, em pleno Alto Minho. O que vemos nessas imagens pouco habituais são rostos idosos, envergando roupas de cores escuras – a representação de um certo Portugal rural que continua a resistir no interior do país.

Só qualquer coisa de muito, muito importante para a vida daquelas pessoas as poderia afastar dos seus afazeres habituais em terra tão pacata. No caso, a decisão dos CTT de encerrar o posto de correios da vila. Isto é, o corte da ligação de muitos ao exterior. Melgaço, sede do concelho e local onde se encontra o posto de correios mais próximo, fica a cerca de 30 quilómetros; por estrada tão bonita quanto sinuosa e inacessível a uma população idosa e empobrecida.

Soube-se entretanto que os CTT negociaram a passagem de serviços para uma pastelaria. “Você vai lá tomar um café e eu vou entregar uma carta, quem é que atendem primeiro na pastelaria? Quem dá mais lucro? Isto para não falar dos problemas de responsabilidade e de privacidade que um serviço público como este exige”, perguntou o presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro à agência Lusa.

A insensibilidade com que se priva as populações do interior do país de serviços públicos básicos de qualidade, como os correios, é bem a medida do desrespeito a que o poder das grandes empresas com responsabilidades na prestação desses serviços votam os cidadãos. Um desrespeito que obedece a uma opção política deliberada do Estado (leia-se Governo!) – privatizar, tudo submetendo a uma lógica de maximização de lucro.

Quando quiserem fazer o “discurso da desertificação” será preciso recordar-lhes que promoveram e autorizaram o desmantelamento nas terras do interior de tudo quanto é fonte e símbolo de actividade comunitária, serviço cívico e mesmo soberania.

O posto dos CTT de Castro Laboreiro funcionava desde 1957!

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2 thoughts on “O posto de correios de Castro Laboreiro

  1. Sandra Rodrigues diz:

    Sou castreja… mas não posso usar a célebre expressão “nascida e criada em Castro Laboreiro”. Nascida sim, criada infelizmente não… cedo fui obrigada a sair de lá para a cidade para poder estudar pois a escola mais próxima fica na vila de Melgaço, e sem transportes, os meus pais decidiram que seria justo darem-me a mim e à minha irmã melhores condições que a NOSSA terra não conseguiu, não consegue e não conseguirá alguma vez dar!
    Tiram-nos as escolas e consequentemente os jovens, a seguir foi o posto de saúde, a farmácia (embora já tenha voltado…resta saber por quanto tempo), e agora os CTT e só não nos tiram mais porque não há mais nada para tirar… a não ser que nos tirem também as pedras e penedos (mas deixe-me estar calada não vá eu dar ideias…).
    Há uns anos atrás os meus pais decidiram voltar definitivamente para lá… qualidade de vida dizemos os que por cá ficamos…e é verdade, muito me orgulha de dizer que os meus pais moram no sitio mais lindo de Portugal, mas… infelizmente com a certeza de que não poderão por lá ficar na velhice deles pois não há lá NADA… e quando digo NADA, é mesmo nada… não há médico próximo, tiraram as urgências de Melgaço, agora temos de ir para Monção, a ambulância demora cerca de 30m de Melgaço a Castro Laboreiro… perante este cenário alguém no seu perfeito juízo fica nesta solidão?
    E poderemos nós, “proibir” os nossos idosos de viverem os restos dos seus dias onde bem entenderem e com os serviços mínimos para isso? Teremos nós o direito de fazer vir os nossos velhinhos para a cidade onde não há ar puro, onde há barulho, onde há poluição só porque alguém decidiu que aquelas terras não eram merecedoras de ter lá gente e portanto tiram tudo de lá?
    Somos gente de bem, habituada a sofrer e como diz e bem, “Só qualquer coisa de muito, muito importante para a vida daquelas pessoas as poderia afastar dos seus afazeres habituais em terra tão pacata”.
    Seremos nós merecedores de ser tratados desta forma só porque os números e nomeadamente o dinheiro é que conta?

    Desculpe o meu desabafo… mas gostei do seu post e “apeteceu-me” partilhar esta frustração que trago comigo, consigo.
    Deixo desde já aqui o meu muito obrigado por se ter lembrado desta gente e desta terra que muitos querem fazer esquecer e quiçá eliminar.

    Saudações Castrejas
    Sandra Rodrigues

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    • Carlos Anjos diz:

      Guardo a melhor das recordações das gentes de Castro Laboreiro, terra que conheci há muitos anos de forma inesperada. Porventura um dos pedaços mais lindos de Portugal.

      Por todo o país os CTT veem, desde há anos, a agir impunemente, encerrando postos e estações nas aldeias, nas vilas e nas cidades. Confrontando as populações com factos consumados. E envolvendo o assunto numa retorica balofa.

      Um retrocesso terrivel para as terras do interior. Quem o faz é gente criminosa!

      Bem haja valente gente de Castro Laboreiro que tem a coragem de vir para a rua defender os seus serviços públicos.

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