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Um Testamento para daqui a Cem Dias ou para o Dia Seguinte

ImageO Quinteto para Cordas D. 956 de Schubert com dois violoncelos é a obra musical que maior prazer, inquietude e perplexidade me provocam. O próprio Schubert escreveria “O produto da minha genialidade é a minha miséria, é o que eu escrevi em minha maior angústia, é o que o mundo parece mais gostar.” Talvez nenhuma obra musical nos fale mais directamente à alma e ao coração que este Quinteto. Ao contrário de Mozart e Beethoven, que acrescentaram uma segunda viola ao quarteto de cordas normal, Schubert adiciona um segundo violoncelo o que altera de forma impressionante o som, tornando-o mais escuro, mais grave, mais intranquilo, mais alarmante. Um quinteto que ganha uma beleza dolorosa. Que é um diálogo entre a exuberância da vida e o negrume mais escuro da morte. Vai da alegria mais ilimitada, no scherzo do terceiro movimento para mergulhar, no interlúdio, na mais abismal tristeza. Uma tristeza sem fim, insondável no interlúdio lento que se segue. Tudo parece que irá dar certo, mas nada vai dar certo, nesta obra de câmara que é de facto uma obra de proporções sinfónicas. A música exuberante continua até que o Trio, traz mudança de humor para um interlúdio elegíaco como se o compositor de repente fosse colocado frente ao seu próprio destino dramático, perdido no meio do ruído da vida. O movimento final, Allegretto, é essencialmente um rondo que o compositor desenvolve como uma quase sonata. Durante esse movimento final, Schubert novamente usa os violoncelos em dueto, contrastando a sua ampla linha solene, musical em contraponto aos outros instrumentos, recorrendo à memória dos movimentos anteriores do quinteto. O retorno à música vibrante que abre o movimento rapidamente se perde no labirinto da sombra da morte e, sem nenhuma intenção mórbida, mergulha em funda melancolia. Tudo parece distanciar-se dos confrontos entrevistos anteriormente para Schubert de facto interrogar a vida, o sentido da vida. Como se antecipasse o final das Palmeiras Bravas de Faulkner: “entre a dor e o nada , eu escolho a dor.” Afinal a morte que não apaga a dor. Ou ainda durante a audição da obra é, para mim, recorrente lembrar-me da carta do Consul a Yvonne, em Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry, que Carlos Oliveira considerava uma das mais belas se não a mais bela carta de amor da literatura e em que a morte é omnipresente. É esta bela música que quero que ouçam na minha morte celebrando o amor pelos meus adorados filhos e netos. As personagens mais belas da minha vida. E também pela mulher amada, a mulher da minha vida, que não preciso nomear, ela sabe quem é! Arrisco uma discografia, por ordem das minhas preferências, com tudo o que isso comporta de subjectivo. 1-      Quarteto Alan Berg com Heinrich Schiff 2-      Isaac Stern,Alexander Schneider, violinos, Milton Katims, viola, Pablo Casals, Paul Tortelier, violoncelos 3-Emerson Quartet com Mstislav Rostropovich 4-The Rafael Ensemble com Michael Sterling 5- Quarteto Vegh com Pablo Casals 6- Quarteto Melos com Mstislav Rostropovich

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3 thoughts on “Um Testamento para daqui a Cem Dias ou para o Dia Seguinte

  1. Rui Namorado Rosa diz:

    Este é um testamento que não se esquecerá. Uma associação feliz e eterna.
    Partilho a tua afinidade com Schubert. Creio ser o meu compositor preferido, e em jovem toquei um seu improviso numa audição,
    Por volta do Natal de 1982, estávamos no convívio familiar. Conversávamos.distraídos enquanto a televisão em surdina aguardava a hora do noticiário. A certo ponto coloquei um disco de Rubinstein no gira-discos. Sem dar grande atenção ao ecrã, de repente surgiu nele a imagem de Rubinstein ao piano. Intrigado, subi o volume e então escutámos-lo tocando o mesmo improviso e no mesmo exacto compasso que no gira-discos. Instantes depois, o locutor dava noticia da sua morte, que acabara de chegar. Como se todo o universo estivesse sintonizado com a música de Schubert e em homenagem a Rubinstein.

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    • Manuel Augusto Araujo diz:

      Meu caro Rui, no outro dia fiz aqui referência a esse Improptu só que seleccionei o que para mim é a minha interpretação de referência pelo Richter que tenho há dezenas de anos na Melodia. Não sei se leste o post. O Schubert é um dos compositores que sempre me acompanham. Vê lá que tenho oito interpretações diferentes do Winterreise, da mais escura pelo Hotter /Moore à mais luminosa Schreier / Richter ambas excelentes, as outras todas boas, para ouvir conforme o estado de espírito.

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